Sábado, 30 de Junho de 2007

BlogoNews No Comment - Miss Opa 2007


O JURI ANUNCIA:

Concorrente Nº1: Miss BCP-BPI
Concorrente Nº2: Miss SONAE - PT
Concorrente Nº3: Miss Berardo - SLB
Conccorrente Nº4: Miss Estupidez & Despotismo - Portugal

O JURI DELIBERA:

(...)

O JURI COMUNICA:

Dado o Sucesso estrondoso dos seus argumentos reais, a Concorrente Nº4 é a grande vencedora deste concurso, tornando-se, até ver, Miss Opa Vitalícia 2007 e Além; Exactamente pelos mesmos motivos de adesão e maioria, este Juri, devidamente vigiado e orientado pela Grande Entidade Reguladora dos Mercados e Concursos de Beleza Económico-Social, aconselha fortemente (isto é, obriga a) a imediata aquisição potestativa das restantes (e poucas) mentes livres e inteligentes deste belo país, de modo a harmonizar pela homogenização.

A todos e à Vencedora em particular, o Juri aufere os seus Parabéns e desejos de muito Sucesso.

Fim de Sessão.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:22
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Minha Agridoce Inconstância!

Faz um frio de rachar. E eu sem conseguir pegar no sono… Que tristeza, amor! Que solidão estar sem ti! Tenho a impressão, por vezes, de que toda esta geada nasceu da tua ausência! Não queres sair dessa distância insuportável de raínha do gelo para vires até aqui à minha beira calar o meu sofrimento? Toda a primavera começa com um beijo, cantou uma vez certo bardo junto à torre do castelo da princesa mais bela, nas pradarias imensas da Bretanha… Fico então deitado, curando a minha insónia, sonhando, não dormindo, com esse momento ideal e sublime em que tu me beijasses. E o beijo enfim a acontece. Ainda bem que era um sonho. Imagina que tudo acontecia de facto: A primavera seria então eterna, e para sempre duraria a minha felicidade. E eu, miserável e humano, que aborrecimento enorme sentiria desse idílio do sonho! E que saudades daquele frio que me rachava os ossos e me deixava vazio e infeliz! E eu sem conseguir pegar no sono! Que tristeza amor! Que solidão nesta Beleza Infinita em que a perfeição domina todas as coisas! Tenho a impressão, talvez, de que este sol me nasceu do inferno que carrego na alma… Não queres voltar a essa distância inalcançável para me trazeres de novo aquele gelo que tanta falta me faz? Todo o Inverno do Homem surgiu de um imenso bocejo… disse-me um dia um certo sábio a quem eu dei de comer… Fico então deitado, curando a minha insónia, sonhando, não dormindo, com esse momento ideal e sublime em que a treva voltasse. E a noite enfim acontece. Ainda bem que era um sonho. Imagina que tudo acontecia de facto: A treva seria então eterna e para sempre duraria a minha infelicidade. E eu, miserável e humano, que aborrecimento enorme sentiria dessa dor repetida! Sim, faz um frio de rachar. E eu sem conseguir pegar no sono…

(Lisboa, 07/12/99).
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:01
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A Corôa

I

A coroa é um símbolo-objecto
Deposto na cabeça de um monarca.
O jugo é o púlpito-dejecto
Que nos impõem e nos deixa marcas.
O povo é o último-excesso
Da revolta que tarda e nos trespassa.

II

Segunda hipótese figurada da ruína
Marcada no verso da moeda;
Altura elevada da bebida
Em que se aposta a Vida que nos resta...
 

 


 

III


 

 
MacBeth foste Rei de Tanto e de tão Pouco
Perdeste a tua lei, ficaste louco,
Dentro de ti corria uma serpente:
Uma mulher, mesquinha e prepotente.
 


 

Lady Macbeth é a tua consciência,
A tua alma é toda a tua ciência,
Não há desculpa num gesto além de ti:
A tua culpa és tu e o horror em si.


 

 
As bruxas são vontades, não destinos,
Disseram-te só sonhos que tiveste,
O que fizeste foram teus desejos...


 

 
A côroa ensanguentada e os seus hinos,
São gritos dessa dôr e dessa peste
Que é governar sem dominar ensejos...

Lisboa, 06/01/99
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:29
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

Caras

Cada um de nós tem uma cara
Em que se esconde o medo que há em nós;
Cada um de nós tem uma máscara
Que vai mudando quando está a sós.

Lisboa, 06/01/98

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:50
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Besame Mucho...

a) A vida é um tango em que procuramos seduzir as coisas que inventámos para continuarmos a amar os nossos passos, as nossas invenções fastidiosas; e nós somos o instrumento por meio do qual ela adquire essa música…
 


(Lisboa, 06/12/99)


 

b) A vida é um tango; dancêmo-lo.

(Henrique Esteves, um amigo, dos melhores; Campolide, 07/05/06)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:30
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Irra, que é demais!

Directora de Centro de Saúde de Vieira do Minho demitida por "quebrar dever de lealdade"

28.06.2007 - 19h53 Lusa

In Público:

«A Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-N) disse hoje que a directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, Maria Celeste Cardoso, foi demitida porque "quebrou o dever de lealdade" com o ministro da Saúde.
A directora do centro de saúde foi exonerada pelo ministro Correia de Campos, sob proposta da Sub-região de Saúde de Braga, por não ter retirado das instalações do centro um cartaz contendo declarações do ministro Correia de Campos "em termos jocosos". O assessor de imprensa da ARS-N, Antonino Leite, indicou que "foi rejeitada qualquer comparação" com o caso da suspensão de funções na Direcção Regional de Educação do Norte do professor Fernando Charrua. "Não se pode colar um caso ao outro. Aqui há um caso de violação de um dever de lealdade", disse o responsável.O assessor reconheceu que não foi Maria Celeste Cardoso quem colocou ou mandar colocar o cartaz de que o ministro não gostou. "Mas a directora tinha a obrigação de averiguar quem o colocou e o motivo por que o fez num espaço onde se prestam cuidados de saúde. Também deveria dar conhecimento dessa diligência à hierarquia", sublinhou Antonino Leite.O responsável acrescentou que "conhecedor da situação, o ministro destituiu-a por entender que estava a ser violado dever de lealdade com quem a colocou no cargo".»

Porque o Gume se cansou do despotismo, porque o Gume começa a ficar com as narinas a esfumaçar enxofre com a fúria que lhe anda a subir às ventas ao assistir a tamanha colecção de barbáries por parte da inclassificável parafernália de cavalgaduras governamentais, a mensagem de hoje é extremamente pictórica:



Obrigado Luiz Pacheco!
Cavalgaduras! - Bem hajam!

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 22:56
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Confrontos

Não devias ter vindo.
Estava a tentar esquecer-te.
Na verdade já tinha conseguido conceber um naufrágio onde te afundavas
E lamentavelmente padecias sob a força das águas.
Naturalmente chorei-te:
Uma mulher tão bonita e tão nova! – Pensei com os restantes convivas – Que dor de [alma!
E chorámos todos.

Foi depois a vez do padre:
Sacrementou-te, latinizou-te, perdoou-te o imperdoável;
E a terra comeu-te.
Foi bonito…

Por volta das duas fomos beber e comer.
Os mais alegres contaram umas anedotas.
Os mais tristes riram-se.
A tarde passava agradavelmente.
O sol brilhava.
Um ou outro corvo pousava sobre as campas,
Saltitando,
Rebicando,
Esvoaçando.

Um ou outro fato preto punha flores na terra que te cobria.
Sentiu-se paz. Dormi. Foi um bom dia.

Mas hoje reapareces como um fantasma para recuperar os movéis que nem são bem teus,
E para rasgar o retrato em que sorrimos juntos,
E para exigir a tua presença material onde ela não pode existir.
Chegaste mesmo a falar.
Chegaste mesmo a proferir palavras com uma voz metálica e um desdém nos lábios.

Não me lembro exactamente como foi.
Eu tinha acabado de acordar, alucinava…
Balbuciei «Amo-te»
Suplicante, patético, infeliz.

Olhas-te-me de lado, de forma glaciar.
Sibiláste: «Vai para o Diabo!»

Estive mesmo para responder:

«A sério!, eu tentei!,
Mas ele não me quiz…»

Achei porém que te ririas de mim.
Por isso calei-me.
Tu, por tua vez, tiraste o que querias e foste embora sem me dizer mais palavra.

Foi então que me ri de mim próprio.

Bruxelas, 13/05/04

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:30
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"Volúpia do Aborrecimento"


 

O inesperado é o elixir mágico com que anulamos o tédio e nos sentimos novos sob o peso das horas inefáveis...


 

 


 

(Lisboa, 04/12/99)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 01:52
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2007

Portugal Pelos Marretas, Portugal Pelas Marrecas...

- Sabes, ouvi dizer que saiu hoje o "Livro Branco"...
 

- Sim, parece que foi aprovado...
- O Ministro veio avisar sobre o desemprego... Pode subir...
- Sim, parece que pode...
- Talvez até a riqueza desça...
- Sim, talvez... Mas é só para alguns...
- Sim, claro, só para alguns...
- E que disse mais o Ministro?
- Veio também dizer que sará precisa maior flexibilidade...
- Maior flexibilidade?
- Sim. Para empresários e colaboradores...
- Como assim?
- Bem, parece que os de baixo vão ter de se baixar mais um pouco para preservar os empregos, e os de cima, por causa da distância, e para evitarem os gritos, vão ter de se baixar um pouco mais para se fazerem ouvir...
- Caramba! Com a breca! Em qualquer dos casos, que grande jogo de espinha!
- E há mais...
- Então?
- Consta que vêm mais facilitadas as regras de dispensação. Há uma medida extraordinária contra a burocracia: Simplificam-se os trâmites do despedimento.
- Isso quase que parece bom...
- Sim, quase... Não fosse ser tão precário podia ser uma medida extraordinária... Há no entanto apenas um ponto que eu considero realmente curioso...
- Qual?
- Porque não se aplicam as vantagens desse "Livro Branco" na Educação, na Justiça, na Saúde? Parece-me um pouco facciosa e restritiva esta nova Lei Laboral que está mesmo quase para sair...
- Não te preocupes. Tenho a certeza de que está tudo a ser tratado. As coisas avançam já nesse sentido. Acabei de mandar um sms aos meus sindicatos: CGTPÊ e UGTÊ, e eles já me tranquilizaram.
- Então, sempre vão conseguir impedir o avanço da Lei? Corrigir alguma coisa?!
- Não. Mas garantiram-me que já entrou em vigor nas suas leis internas o Novo Código de Trabalho antes mesmo de ser apresentado oficialmente.
- Entrou em vigor? Que queres dizer com isso?
- Que, pelo menos nos Sidicatos, que se têm vindo a modernizar a grande ritmo, a decisão da comissão deliberadora já está a ser tomada e já teve, inclusivé, aplicação prática...
- Aplicação prática? Que aplicação? Porquê? Como? Onde está isso registado?
- Bom, a aplicação é um despedimento. Incapazes de se oporem ao sistema, cada vez mais os Sindicatos fazem por se juntar a ele... Quanto ao como... soube tudo por tradição oral... Infelizmente a actualização não pôde ser registada por terem despedido, precisamente, o notário...
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 23:24
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Notas do Viajante Assombrado

De súbito, com uma aspereza impossível, caiu o assombro das árvores. Sobre as folhas sêcas, a meus pés, desceu, pesadamente, uma poeira negra; a mágoa inteira dos séculos tombava sobre os mortais. E foi então que eu, o viajante casual dessas passagens, senti (que não sentisse, ò Cloé, quem me dera!) com uma consternação inconsolada, a comprida antiguidade dessa angústia aterrar, como um despiste, no mais fundo lugar da minha alma…
 

 


 

(Lisboa, 03/12/99)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:00
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Imitação De Cristo - (À Saudosa Memória De Tomás de Kempis)

Aqui,
Acorrentado
Ao muro de silêncio,
Jazo
Com o pus a escorrer-me das chagas abertas.
Eu vi o chicote desses fariseus
A vergastar-me a fome,
A doer-me as costas descobertas;
Eu vi o cheiro do dinheiro
A tilintar nas suas mãos ínfames
Quando me rasgavam a pele e a fronte,
Quando me venderam
E, depois,
Quando enforcaram o arrependimento na árvore mais próxima;
Eu vi-lhes o medo que me tinham
De lhes vir a ocupar o seu lugar;
Eu vi-lhes a sentença;
Sorvi-lhes a doença na retina,
E senti-lhes o ódio no olhar;
E vejo ao longe o monte (a despontar)
Esquecido totalmente pela luz.
Suspiro.
Sinto o cheiro da morte. –
De sorte que já vejo ao longe aproximar-se
Aquele que me vai passar a cruz...

Lisboa, 14-06-98

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:28
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Terça-feira, 26 de Junho de 2007

Highlights, FlashInterview - Reminiscências na CML - Foste David, Eu Golias...

- Então Doutor Carmona, que queda esta desde que se fez Presidente da Câmara desta Cidade! Que foi que lhe aconteceu?

- Olhe, minha senhora... Sinceramente, não percebo... Eu não compreendo... Não percebo... Ele é um anão, quer-se dizer! É um anãozinho, um insignificante! Não percebo! Que posso eu dizer-lhe? Sei lá! Não percebo! Olhe, só sei isto: Fui traído! Fui abalroado! Agora percebo o Santana: Nada é o que parece ser. O que julgamos ser uma formiga, dá-nos patadas de elefante! É um assombro! É uma verognha! É uma tristeza! Lisboa, minha senhora, Lisboa, esta bonita e tão descurada cidade, e não por mim, minha senhora, não por mim, anda cheia de facadas nas costas...
 
*Foto elefante Reuters apud Publico.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 23:45
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Sonho Filosofal…

Nesta mesa onde me sento,
Onde repouso e descanso,
Neste pensar que é tão denso
E ao mesmo tempo tão manso,

Eu julgo ter percebido
Que nada sei sobre mim:
Sou um mistério insurgido
De um fogo ingente e carmim.

Quero mais e mais me falta
A cada querer que eu anseio.
A minha fome vai alta,
O meu prazer vai a meio...

Quero ir além de tudo
O que existir p'ra passar:
Além do céu negro e mudo,
Da superfície lunar.

Mas se além chego outra mágoa
Vem constrangir-me sem dó:
Insaciado na água,
Acompanhado e tão só!

Do outro lado de tudo
É tudo tal como aqui:
Tal como o céu, negro e mudo,
E tão ausente de si!

Evoluir é um abismo,
Não vejo bem no Progresso;
Tudo me surge num ismo,
Tudo me sabe a Regresso...

Volto atrás sem perspectivas
Nas perspectivas de mim...
Ando às voltas, à deriva,
Circulo em torno do fim...

Ser ou não ser este homem,
Com corpo e mente e razão.
Cinco sentidos que dormem
Sobre um fugaz coração...

Chegado o dia do termo,
O que fiz eu que me importe?
Sou um lugar sêco e ermo,
Deserto vago de Morte!

Passam por mim caravanas
Sobre os meus sonhos reais;
Mudam-se areias e ganas,
Mudam-se os tempos sid'rais...

Elas vão além da linha
Do Horizonte sombrio;
Vão vender isso que eu tinha
Antes de ser tão vazio:

A minha alma corrupta
Por tanto desejo vil;
A minha fé resoluta,
O meu céptico perfil.

Vão vender na feira laica
Os perfumes do além;
Rezas negras da Jamaica,
Ritos do Mal e do Bem;

Vão vender a Aventura,
O Amor e a Saudade;
Vão promover a Ventura,
Pôr na praça a Liberdade;

São os vendilhões do templo
(E esse templo sou eu)
Dão o pregão - um exemplo:
«A cinco tostões o Céu!»

As gentes, ávidas, correm
E acorrem à chamada;
As gentes ávidas dormem...
Vão a tudo, vêm nada...

E é assim com a vida
Que sem notar experimentamos:
A cada gesto uma ida -
É um cais que abandonamos;

Damos por nós, certo dia,
E já corremos um mar…
Mas onde fomos? Sabia
Muito melhor bolinar!

Que o vento então decidisse
O port' aonde acostar;
Que Deus então me surgisse,
Me desse forma e lugar!

Toma, ò Génio, esta costela:
Eu tenho andado tão só!
Eva perdeu-se à janela
Do sonho que se fez pó…

Dá-me outra deusa que tenha
O mesmo virus mortal:
Uma fome vil e estranha
Pelo espaço Universal!

Alguém que veja na vida
Mais que um ponto de passagem;
Que se prefira engolida
Pela boca da voragem!

Que queira tudo, além-tudo,
Que veja ter tudo em mim:
Mesmo send'eu negro e mudo,
Mesmo send' eu isto: assim...

A permanência inconstante,
Ou a excepção trivial:
Nada nos serve o bastante;
Tudo é dif'rente e igual...

Muda-se tanto e tão pouco,
Somos de tudo e de nada;
Somos o sábio e o louco,
A vida bruta e parada.

Somos esta carne sêca
Entre a areia do Deserto,
Carcassa errante que peca
Sob as estrelas do Incerto;

Somos isto que quisermos
Sem valor além de letras;
Espectros que remam, enfermos,
Por rias frias e pretas;

Viajamos sobre o Letes,
O Letes viaja em nós:
Soterrada, entre ciprestes
Deixámos a nossa voz.

Para quê cantar mais tempo
Se também deixou Orfeu
A lira, por um lamento,
Soterrada sob o céu?

E seguimos sob o monte,
Rio abaixo navegamos:
Dar a grinalda a Caronte,
Pagar o óbolo vamos...

Cérbero já se vislumbra,
Além, ao fundo do rio;
Cérebro, pára!, é a tumba!
Já falta pouco... Que frio!

Vou na barca do Inferno
E ninguém me viu passar;
Sigo em frente sem governo
E já não penso em parar.

Pedi a Deus uma deusa,
E vejo Lídia na margem;
Lídia é de Reis! A mim, Neusa!
Amar-te-ei de passagem...

Bato à Porta do Tormento,
Peç' ao Diabo p'r'entrar;
E vem-me abrir, sonolento,
Um demónio feito d' ar;

Digo a senha, faço figas,
Diz-me que sim e que não;
Mostra-me sete barrigas,
Tem sete pés, sete mãos.

E por sete bocas feias
Fala do fundo do assmobro:
«As sete covas estão cheias!
Olhe por trás do meu ombro!

Vá bater a outra porta:
O Inferno está lotado!»
Continuei - E que importa?!
Hei-d' ancorar noutro lado!

Para um morto - e eu estou morto!,
Nem burros à andaluza,
Nem canapés (nem um porto!),
Nem cetins, nem uma blusa

Trazem conforto eficaz.
Não faz diferença, não cansa -
É mal ou bem? Tanto faz...
Mais à frente há outra dança!

E rio abaixo e acima,
Nos pesadelos de mim,
Eu passo Baía e Lima,
Paris, Lisboa e Pequim!

Atravesso todo o globo
No meu sonho glaciar:
Na Morte forjo-me um lobo -
Um velho lobo do mar...

Moby Dick, já estou perto!
Meu inimigo mortal!
Meu vão delírio desperto,
Minha ilusão capital!

Um de nós há-de acabar
No grande eclipse final!
Um de nós há-de gritar:
«O que fui eu afinal?!»

Ser ou não ser o agente
Nesta mesa em que me sento,
Deste pedaço de gente,
Sonho que pensa tão denso;

Neste lugar de pesquisa,
Onde repouso e descanso,
Onde me sopra uma brisa,
E me afaga um vento manso,

Eu julgo ter percebido
Que nada sei sobre mim:
Sou um mistério insurgido
De um fogo ingente e carmim…

E nada do que me crie
Ou do que me queira crer
Fará com que contrarie
A minha forma de ser:

Este mistério insolúvel
Este tremendo vulcão;
Est'astro breve e volúvel,
Asteróide em colisão;

Este foguetão pousando
Na superfície lunar;
Este adagio triste e brando
Ou este enorme rufar!

Este coração com vida
Que anseia, pula e que dança!
Esta «bola colorida
Entre as mãos de uma criança!»

Eu sou de tudo e de nada,
Tudo o que vês está em mim:
Se não há mais, rompo a estrada:
Neófito, não há Fim!

Lisboa, (Sapadores), 26 de Junho de 2007.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 15:01
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Diário do Cínico Solitário...

Um grande acontecimento aproxima-se, na História da Humanidade, o que vem exigindo muitas celebrações, elocubrações, planeamentos. Dizem os jornais, as televisões, as emissões radiofónicas, festeja-se (a medo) o final do milénio, o final de um governo (algures no mundo muda sempre um governo), o fim de Timor como província Indonésia (isto é, agora palco da exploração geral)... No fundo, tudo se resume a essa empolgante engrenagem da Política, a esse tic-tac inconfundível das múltiplas rodas do Poder. É a Democracia Universal, máscara do Despotismo, num eufórico e popular movimento.
E eu, como sempre, passo alheado a essas manifestações, como quem passa pelo sujeito do Metro que nos estende um panfleto ou nos vende pensos e revistas em nome da sempi-eterna pobreza dos miseráveis. O meu egoísmo não admite complacências, e, na maioria dos casos, o meu egoísmo está certo. A minha consciência, ainda jovem e esquiva, vem, por enquanto, sustendo bem os seus erros.
Parece então que o sujeito comum e o incomum se preparam, unindo esforços, para a recepção com pompa desta promessa nova. Mas que posso eu fazer, eu que desprezo e abomino toda e qualquer promessa? Eu que me cansei de prometer e esperar, e de falhar nas promessas e nas esperas? O que cabe fazer ao Homem Desesperado, ao Homem Lógico, doentiamente racional e infeliz? Nestas horas de promessa para os outros, o que lhe resta é então a imitação de São João, na sua visão do Apocalipse. Ao Homem, porém, mais modesto (ou mais impotente do que o ideal de profeta ou de santo), não se admite mais do que a contemplação do termo de si próprio.
Preparo-me então para o fim de mim mesmo com a mesma determinação com que as beatas (ainda e sempre por apagar, ò paciência!) se preparam, remoendo rezas, para o fim colossal de todo o Mundo… O resultado disso será imprevisível como qualquer fim, nem poderei eu reportá-lo. Pois que ser neste mundo estagnado tem o dom (ó lamentável limitação da lógica!) de relatar o termo de si próprio?!

 

(Lisboa, 02/12/99)

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:40
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Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

BlogoNews No Comment- Reminiscências - A Crise da Natalidade Finalmente Explicada...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 19:37
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Desajustes

I

Quiz ser o que não sou;
O que eu não sei, o que não posso ser.
Vivi-me, simulei-me um outro:

Um estranho a mim que em mim se sedentou,
Forçando algo, aí, a perecer…
Mas onde está o dono do meu corpo?

Lisboa, 27/04/97

II

ESBOÇO DE UM EPITÁFIO:

Aqui jaz a alma que eu não tinha
A impressão de um ser independente.
A consciência que tenho não é minha:
Morreu o que eu era realmente…

Bruxelles, 28/08/04

III

Estou morto por dentro.
Como uma noz que só tem de bom a casca.
O meu Poder Estatal tem no seu centro
Um terrorista em prol da causa basca.

Por isso tenho o espírito em estilhaços.
Por isso provo tanta solidão.
Dás-me o teu coração, abres-me os braços,
Mas não consegues cobrir a multidão

De eus e pessoas que eu possuo.
Tenho uma sombra que me está pregada
Que me corrói com o gesto mais ruim,
Que me extermina pelas horas más:

Bombas me lança do seu antro escuro,
Arde-me os dias, faz-me cinza e nada,
Por mais que o povo imenso que há em mim
Se junte e em coro clame pela paz…

Lisboa, 06/03/01
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:47
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Domingo, 24 de Junho de 2007

BlogoNews No Comment - Reminiscências - O Burguês Sonha Acordado...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 20:08
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Do Juízo Final

I

… E há-de vir o Cristo
Para o Julgamento
É aquilo ou isto
O que eu sou por dentro?

Vejo um monstro negro
Vejo um anjo branco;
Será um bruxedo
Ou apenas espanto?

Anjos e demónios
E uma assembleia.
O público espera
Alguém da plateia.

Quem falta chegar
Dessa gente ilustre?
O Papa está cá:
Mas era um embuste…

Ninguém da Igreja
A falar p’lo povo?!
Pode ser que eu veja
Um cardeal novo!

Mas ah! Eis que estão
Os bispos e os padres!
Mas oh! Um grilhão
Os prende a uma trave?!

Pobre gente nobre
Que se vê cativa!
Depois dos trabalhos
Que lhes deu a vida!

Todos os mortais
Estão aqui presentes –
Mas dos imortais
Há alguém ausente!

Oh! Supremo Engano!
Ò Deus Criador!
Faltarás neste ano
À festa maior?

Este é o Carnaval
Porque tu esperavas!
É este o arraial
Que tanto ansiavas!

Veste então o fato
De Rei dos truões
E junta-te a nós
Nas Celebrações!

É como, o teu jogo,
Da Justiça Eterna?
– «Este para a suite
Esse p’r’á cisterna!? –

Tu verás o sol,
Tu o calabouço;
Tu saltas à corda,
Tu tem-la ao pescoço;

P’ra ti o calor
D’álegria imensa,
Para ti a dor
De uma chama intensa;

Tu serás feliz
Porque estás comigo;
Tu serás um rico,
E tu um mendigo.

Para ti fartura,
Para ti a fome,
P’ra ti a amargura
De ouvires o meu nome».

Mais eis que me surge
Uma mão por tráz:
«És tu, ò barbudo!
Pois então por cá?!»

«Pois não perderia
Tamanha festança!
Já não dormiria
Com tamanha errança!

Queres então saber
Das coisas que faço?
E o que vem a ser
O plano que traço?

E como tómo eu
Estas decisões?
Ora, é segredo,
São as convenções…

Assunto de Estado –
Não vou revelar…
Mas vá, tu insistes,
Sou bom, vou contar:

Eu tenho aqui dados
Dentro do meu bolso
A que dou valores
P’ra este e p’ró outro;

Consoante calha
Traço o seu destino –
E se algo falha?
Foi um deus Maligno!

P’ra isso o Demónio
Dá bastante jeito –
Era um pandemónio
Sem esse sujeito!

Por vezes altero
Este meu sistema
Se acaso me surge,
Assim, uma piquena,

Com pernita cheia
E bem torneada,
Ou um jovem loiro
De tez bronzeada…

Que posso eu fazer?!
São as tentações!
E em casos destes
Há negociações

Com o meu colega
Do andar de baixo:
Também ele os pega!
É um berbicaxo!

‘Inda pode haver
Outra circunstância
Em que uns certos herren
Com muita jactância

Nos fazem propostas
Tão irresistíveis
Que os deixamos ir
P’ra onde pedirem:

Oferecem-nos vinho,
Licores, iguarias:
Um ou dois meninos,
E fotografias…

Por vezes nós vamos
Para as Tulherias,
Onde já formámos
Uma Confraria;

É o Paraíso
Como podes ver;
Se tiveres tal passe
Podes lá viver!

Mas no fundo o Inferno
Não é tão diferente:
Só faz mais calor
E tem lá mais gente;

E há menos luz –
Mas lá te habituas…
E também seduz:
Belas jovens nuas,

Altivos mangalhos,
Soberbas orgias…
Não só de trabalho
Se fazem os dias!»

«E até quando a Vida
Na tua Injustiça?
Até quando escravos
Da tua preguiça?»

«Até querer o Homem
Na sua aflição,
Pois apenas vivo
Na Imaginação».

Bruxelas, 30/05/04

II

E há-de vir o Cristo
Com uma balança
Pesar as obras,
Medir os Homens;
Essa Hora é um misto
De desesperança
Que se alastra noutras
Que depressa somem…

Bruxelas, 30/05/04

III

«Julgar os Homens!,
Abrir os Tribunais!,
Deixar entrar a Nave dos Dementes!»

§

«…Eu te condeno e aos mosntros que te comem
A cultivar a dor nestes quintais
Que hão-de produzir eternamente…»

Bruxelas, 30/05/04

IV

Depois dos Tribunais
É o medo
E o grito
Da revolta.

Depois dos Tribunais
Vem a angústia
De assistir à verdade assassinada.

Depois dos Tribunais
Volta o choro de lágrimas e sangue
Rotina de uma infância violada.

Depois dos Tribunais
Vem a cegueira
De ter visto a deturpação dos factos
Constante
Repetida
Perdoada.

Depois dos Tribunais
Vem o carrasco
Do Homem
E da balança viciada.

Depois dos Tribunais
Somos nós
Sem sermos
Porque nos tiraram tudo
E o sono
E a esperança
E a pele espancada
E os sinais.

Depois dos Tribunais
É a vingança
Afiada no gume dos punhais.

Depois dos Tribunais
É a lembrança
Asfixiada para nunca mais!

Lisboa, 05-06-98

Oh!. Quem tanto pudera, que fartasse
Este meu duro génio de vinganças!

Lisboa, algures no séc. XVI, Luís Vaz de Camões

V

Arder!,
Arder!,
Que há já tardança!

 

Bruxelas, 30/05/04

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:27
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Intensidades

«Porque ficou oceânico o escasso
Momento de nós?»[1]
 


Toda a nossa História: Sermos sós...

Que podes querer da vida em movimento?
Cada minuto uma fracção do que nos resta...

Somos o palco, o drama e o elenco...
Escrevemos nós a peça!
 


 

Haja festa pela noite dentro!
Haja festa! Haja festa!


 

Tragam os copos!
Queimem o incenso!
Vamos arder as horas mais funestas!


 

Ouves dançar ao fundo?
E o silêncio...
Ouves cantar ao fundo?
E a tempesta...


 

 
O mar subiu à terra,
A dôr ao coração...
Estou em guerra com a guerra
Da emoção...


 

 
Vivo em constante mutação...
 
Vamos viver a vida como vivem
Os brutos condenados!
Vamos viver a vida como vivem
Os loucos no hospício!
Vamos viver a vida como vivem
Os homens em delírio!
Vamos viver a vida como vivem
As extáticas bacantes!
 
Vamos viver simplesmente,
 
Avante! Avante!
É viver antes
Qu'isso da vida passe e que pereça!
Avante!, Avante!
Vamos! Antes
Que esta vontade intensa desvaneça!.

Lisboa, 26-05-98


 

[1] Que o sentido oculto desta difícil pergunta se procure em Luísa Neto-Jorge. Que na busca o leitor não conserve esperanças. Nesta má poetisa (em que este verso é, aliàs, dos melhores pela sua estimulante sonoridade) não deve, na verdade, procurar-se um sentido, mas apenas sentir-se e brincar com um fácil jogo de sons, fingindo a descoberta do mundo como, por norma, o fazem as crianças…

P.S.1: Eis as minhas gentis interpretações: a) Porque se dissolveu (em água) o escasso momento de nós? – isto é, da nossa existência… b) Porque se alastrou até à indefinição (profunda e misteriosa como o Oceano), a nossa escassa circunstância de ser? Aguardo apenas que a Madama Neto-Jorge se digne (se necessário da tumba) a vir agradecer-me os estoicismos: a) De ler a sua poesia; b) De, à la Madre Teresa de Calcutá (que alguém a tenha!) ou São Francisco de Assis (o do quadro de Bellini, por exemplo!), b1) A melhorar b2) A partilhar com a restante comunidade de fieis.
P.S.2: Aceito contribuição/ donativos para a minha conta bancária e/ ou estátua pedestre em praça pública.
P.S.3: Pela arrogância petulante e intolerável demonstrada nesta nota de rodapé, estou já há 35 dias em jejum, a pão e água e ainda sob um pesado sermão epsicopal de hora e meia com subsquente penitência de 700 Pais Nossos e 930 Avé-Marias. A indulgência obrigou-me igualmente a uma coima de 50 contos (o correspondente, nestes dias de progresso da ilusão europeia, a 250 euros). De facto é custoso o caminho do céu…
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:44
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Ratoeira...

Lembro a origem de tudo: Estavas no cruzamento entre o céu e o mar, e bebias insaciavelmente a paisagem. Eu passava de barco, como passo às vezes, disfarçando a minha solidão. Fingi-me um pescador em águas agitadas, e lancei uma rede ao teu perfil de sereia abandonada, deixando no ar essa proposta em que pedia que tu fosses minha. Porque o ideal do amor é sempre livre mas o desejo pede a propriedade, anulando, assim, o ideal.
Foi talvez por me fingir ser outro que esqueci os vários perigos do mar. Esse barco em que digo que passeio, como todo o barco que passeia, estava destinado à tempestade. E a sereia que o teu canto sugeriu, foi tirada da fábula de Ulisses e surgiu-me diante dos meus olhos com o propósito singular e cruel de me enfeitiçar para o confim dos Tempos. No alvoraçar do meu desejo, eu fui em busca da minha vontade, e fiz-me predador para cumpri-la. Mal sabia, ò perfida visão!, que a eterna maldição do caçador é ser tornado na presa que ele caça…

 

(Lisboa, 30/11/99)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:17
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Sábado, 23 de Junho de 2007

BlogoNews No Comment: AeroTorto...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:18
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Curta Consideração Sobre Drummond

Carlos Drummond de Andrade é tido como o grande poeta brasileiro, o Fernando Pessoa do Brasil. Como muito da literatura brasileira, eu tenho-o como um poeta menor. Ele escreveu textos lindíssimos. Isto é inegável. «Segredo» é dos melhores poemas que já alguma vez lí. Tem frases de uma beleza incomparável. Era um homem sensível de certo talento. Mas não façam dele o gigante que não é. «No meio do caminho tinha uma pedra… etc.,» tem uma única frase poética: "nunca esquecerei esse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas…" Este é o poema. A pedra e o caminho repetidos ad nauseam são traços pessoais válidos, mas erros da literatura. O poema, porém, que o é a custo, tornou-se um marco na Poesia Lusófona, seja lá isso o que fôr. Mas o que motivou o poema da pedra? O que obrigou Drummond a essa interminável repetição? Que espécie de desespero não literário (e o desespero é, por norma, literário – a literatura sempre apreciou uma boa tragédia) assolou o poeta ocasional que era Drummond, de modo a que ele arruinasse as duas linhas supra-citadas com um simples calhau repousado num qualquer percurso? É evidente que o caminho era a vida do poeta e o calhau em questão um obstáculo intransponível ou uma tragédia pessoal, naquele momento, inultrapassável ou com a qual o sujeito poético (como é do agrado das academias) não se conformava. Mas vingar-se no leitor inocente para lhe impôr de modo tão cru o calhau da sua dôr pessoal, não será demasiado egoísta, mesmo por parte de um autor aclamado? De acordo com certas interpretações, a pedra no meio do caminho confunde-se, de algum modo, com o Destino, tendo este, por sua vez, ditado a morte de um filho de Drummond. Ora, quem acredita no Destino, afirma que, nessa inevitabilidade entediante, há um propósito superior inquestionável e interrompível, com um sentido demasiado grande para a limitada compreensão humana. Como é porém possível que, 2000 anos depois da barbárie das civilizações que nos precederam, continue a haver quem entenda ser justificável, de acordo com uma visão superior, o sacrifício de Isac? Não será consolação demasiado cobarde para o espírito atormentado pela dôr pessoal? Eu que não acredito no Destino, que digo que a vida não é um caminho mas uma partida de xadrês e que sou eu que movimento as minhas peças em direção ao derradeiro xeque-mate (e com quem jogo senão comigo mesmo? Sim, estou condenado a vencer-me mas esse é o prazer do jogo e só assim ele se torna possível), eu sinto, inexplicável e paradoxalmente, embrenhada, entre tantas certezas, esta confusão tão característica de mim mesmo: de que lado estou quando jogo as peças? Como lidar com as minhas escolhas na esquizofrenia das minhas personalidades? Quando o acaso ou o erro me torturam, e os desgostos se acumulam sobre o corpo, como viver tudo isso? Como recuperar a peça perdida, ou, na linguagem de Drummond, como passar além da pedra que nos impede ou nos espanta o caminho? A pergunta é uma incógnita a que só a circunstância particular do que se vive poderá responder. Porque nenhuma realidade, nenhum problema é passível a generalizações. É por querer generalizar as suas soluções que o homem falha a resposta a todos os seus problemas. E se, por hipótese, eu falhar a reparação do erro? Errar ao corrigir um erro já cometido, não será o cúmulo da incapacidade? E quantas vezes falhamos a correcção anterior! A nossa vida é então uma sequência de jogadas ou de passos em falso. Assim, no meu tabuleiro de xadrês, a derrota é garantida para qualquer um dos lados do tabuleiro, e no caminho de Drummond haverá sempre uma pedra a impedir a passagem, que se multiplica noutras pedras suas iguais e se hiperboliza numa pedra maior até se tornar num rochedo intransponível. Que força de Homem, interior ou exterior, pode derrubar um rochedo? Onde está o mito de Hercules nessas horas? É neste momento de contemplação da derrota que eu tenho pena das minhas limitações de mortal e, consequentemente, de mim mesmo. E, por força dessas desilusões, vou-me tornando cada vez mais insensível. Julgo então que foi neste espírito de crescente insensibilidade, que eu encarei, Drummond, a revelação de ser, a pedra que assombrou o teu caminho, o teu filho nado-morto. Também aqui tive pena. Mas não me parece que fosse essa a tua vontade. Nem tampouco a minha. A minha pena por ti não te consola nem me torna a mim em alguém melhor. Pelo contrário. Tu tornas-te ridículo e patético e eu torno-me vil por te dar a entender, por meio da minha pena, que sou melhor do que tu. Assim, eu passo a ser a pedra no meio do teu caminho, e tu a assombração permanente da minha própria derrota. Tu com o teu rochedo intransponível, eu com a ameaça constante de um mate que não desejo. O maior inconveniente da dôr é termos de vivê-la contra a nossa vontade. O Destino dá a ilusão de um desígnio. O meu egoísmo dá-lhe a ilusão de uma escolha. O melhor seria ignorares a tua pedra e eu ignorar o meu jogo, esquecer as suas regras, ignorar que o Rei pode ser posto em cheque e perder o jogo. É esta, creio eu, a prova de que não existe um Destino: Se ignorarmos todas as regras por que, normalmente, se regem as coisas, podemos criar um Universo paralelo em que somos nós que decidimos o resultado dos dados: O Deus que nos tornaremos passará a brincar às probabilidades por saber de antemão o resultado. É nessa quebra que reside a verdadeira poesia. Quando deixáste de falar directamente da pedra para dizeres que não te esquecerias dela, foi quando efectivamente te esqueceste dela e a tua escrita respirou como um poema. Depois o nome da pedra voltou para amordaçar a poesia. Não existe pedra, não existe caminho, tu passas por todo o lado. E eu não vivo em nenhum tabuleiro, não sei o que é um Rei, uma torre é um bloco de cimento onde as princesas sobem para apreciar a paisagem, tudo é fácil e belo, o dicionário de línguas não contempla o que poderia ter sido a palavra: xadrês… Este é o poema.

(Lisboa, 29/11/99)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 06:36
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Sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Diário do Conservador de Bobines: Homenagem a Oscar Fingall O’ Flaherty Wills Wilde:

Fui à tela ver a vida de Oscar Wilde…Ah, meu doce irlandês insuportável! Meu amor ideal sem efectividade alguma! Minha fraqueza animal! Bem dito, nem fui ver-te... Eu mesmo fiz rodar o teu filme numa sala de cinema antigo; pouca gente foi ver... as cadeiras vazias e eu de alma cheia a admirar-te... Porfim tudo acaba, e a magia das coisas excepcionais teima, por força, em querer desaparecer... Mas eu estava possesso, extasiado, doido! Fui a correr pelas ruas a gritar o teu nome! Já em casa, na minha cave húmida e sombria, deitei-me sobre o colchão de molas que rangem e guincham como velhas loucas e olhei os livros da minha biblioteca... Imaginei então o excepcional que seria que tu saísses deles por artes do oculto e te sentasses sobre o bordo da minha cama a ranger, e que os dois nos deixássemos por horas a falar sobre tudo e sobre nada... Os nossos gostos, as nossas ideias, as ideias dos outros, mesquinhos e banais... pensar como um modo de falar, falar como um modo de pensar... depois um brandy, um absinto, uma tertúlia... eu leria as tuas peças de teatro de ironias finas e mordazes, e tu os meus poemas de bolso em edição privada de autor anónimo e menor... Ah, meu Wilde! não o sabes, não o imaginas sequer, nem isso que não sabes e que não imaginas te interessa (muito menos agora que estás morto), mas partilhamos as fúrias e os medos... As campas, é sabido, não devolvem os corpos do deserto onde descansam, como Plutão não devolve as suas presas... Por isso, tu não podes ouvir-me e eu falo para um papel que nada tem para me dar; e falar assim para um papel, e dá-lo a ler a outros é ridículo e inútil; mas o que há de mais belo e de mais significativo no mundo é, normalmente, ridículo e inútil. Porque esse é o espelho da nossa natureza… Assim, ridícula e inutilmente te confesso a minha inclassificável admiração por ti, a coragem com que sempre enfrentáste os brutos da tua altura. Todas as eras têm brutos. O génio é aquele que, com grandeza, se destaca dos seus... E se tu, meu adorado, tinhas génio! E se tu tinhas carácter! Em nada te eram melhores e tu, homem faltoso e soberbo, eras melhor em tudo! Que tinham eles, os dandys, os patetas, que não tivesses tu?! Eu digo-to, que o sei! - A podridão da alma! A tua eloquência sublime é ainda hoje imortal e prevalece, mesmo estando tu morto, na oralidade e na escrita. A tua elegância, o teu paradoxo profundo, a beleza poética de tudo o que escrevias são Hinos à inexistente alma Humana. Sim, Oscar, talvez (eu sonho ainda, enquanto, depois do teu filme naquela frágil tela, projecto a minha vida além de mim), talvez o teu fantasma pudesse surgir-me um dia para discutirmos a natureza do Tempo; pois tu entenderias, melhor do que ninguém, que, entre dois seres inteligentes, isso é afinal tão arbitrário e tão poético, no jogo infindável da linguagem, quanto o, por exemplo, falar-se de amor… E então, quem sabe, também tu me terias admirado, e também tu virias, ridícula e inutilmente, escrever um qualquer texto num cadarnado esfolado, que louvasse com saudade amargurada o filme singular da minha vida…
 
(Lisboa, 28/11/99)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:48
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Intimidades

E chego enfim ao teu Jardim Suspenso;
Vislumbro-te estendida sobre as flores.
Falamos de segredos empilhados,
De sonhos e desejos arrancados
 

À Ilha dos Amores...

São estes silêncios penetrantes
Soando repentinos no ouvido
Que me dão esta fome altissonante
De falar contigo...

Juraste ler nas linhas que há na terra
A Face Universal da Poesia.
Disseste conhecer um tal feitiço
Que acaba com a dor e com o enguiço
Como que por Magia...

São estes silêncios inocentes
Soando repentinos no ouvido
Que me dão a vontade inconsciente
De estar contigo.

Entornámos, nervosos, as palavras
Sobre toalhas tímidas, coradas;
Tricotámos os dedos que tremiam,
Entrelaçámos braços que fremiam,
Cantámos cem baladas...

São estes silêncios fabricados
Soando repentinos no ouvido,
Que me dão o desejo incontrolado
De dormir contigo.

Quiseste então sondar-me o coração.
Falaste-me de Deus e das marés –
Beijaste-me no rosto envergonhado,
Saraste-me essas chagas do Passado,
Deitáste-te a meus pés...

São estes silêncios estonteantes
Soando repentinos no ouvido
Que me dão o desígnio hilariante
De morrer contigo...

Lisboa, 26-05-98
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:42
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Quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Causalidades

Porque preferiste ignorar que respiras e adormecer,
Porque também desprezas ser um entre iguais e o próprio ser,
Porque tu te julgas ser injustiçado neste Julgamento,
Porque queres pôr à prova o inteiro Sistema e o que tem dentro,

Porque tu te vês num Império de armas, numa enorme cruz,
Porque desse Mundo que o Demo te mostra nada te seduz,
Porque tu já sofreste e já viste o sangue e sentiste a dor,
Porque foi o teu, o braço do mito, que abateu Heitor,

Porque a Vida é curta mas o Sonho é longo e é a Treva imensa,
Porque ainda há luta e alguém que chora de uma angústia intensa,
Porque é tudo triste e tudo consiste no seres Moribundo,

Vais escolher ser nada onde nada existe nem como conceito,
Vais ser como estrada com princípio e fim no teu próprio peito,
Vais ser o Messias que a Fé te negava, desprezando o Mundo…

Bruxelas, 10/05/04

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:22
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Diário do Bibliotecário dos Tombos: Homenagem a Fernando Pinto Nogueira Pessoa

Guardo a Mensagem do Fernando junto a mim. «É a hora!», «É a hora!», olha, «É a hora!»... Tarde me avisáste. Tarde, sim... A hora já passou há muito tempo... Mas no vazio de outras horas tento achar um sentido profundo para essa velha mensagem. A cada dia um texto, como se fosse ele a necessidade do corpo e não a carne e o peixe ou outras exigências orgânicas... e em cada leitura tento achar-me um outro, reinventar-me, fugir o mais possível desse cansaço de mim. Já nem sei quantas vezes te reli, Fernando… Eras um génio. Ultrapassavas em tudo a dimensão de Pessoa. E as pessoas comuns que nunca se transcendem, insultam-te nas ruas, amaldiçoam-te nas salas de estudo, largam-te com alívio e com nojo nos lavabos, na ressaca dos desgostos da vida… Quase ninguém te entendeu. Mesmo aqueles que te autopsiaram os poemas, que te rasgaram o quotidiano e a alma, que te dissecaram os sonhos que não tornáste visíveis chegaram ao mais sentido e verdadeiro de ti: Para todos os efeitos és um louco com problemas de personalidade. Eis o resultado e pores diante do espelho a tua longa coleccção de retratos, as manifestações completas dos teus eus. Puseste a hipocrisia de lado e decidiste encarar a dureza de ser. É verdade que por vezes te cansavas e tomávas o alcoól como refúgio. Mas mais do que isso tem valor a tua fúria divina à secretária. Quando te sentavas, ou te punhas de pé, ou de cócoras, ou de pino, ou de pés e mãos para o ar ou como diabo te punhas, áquela mesa que tão bem conheceste, ou à cadeira em que te sentaste, ou à tona do sonho onde vinhas sorver o ar libertador desse sufôco tributário das horas e dos dias, com o teu alcoól, o teu café, o teu cigarro, naquele quarto ou no torpôr d’A Brasileira, quando te vias com a folha e a caneta na mão, e a febre na mente, eras um animal enjaulado rebentando as grades, transpondo barreiras, matando a fome à Solidão que entendias como poucos a entendem…
Conheço muito do que sei que sentiste. Na minha carne de bibliotecário sozinho que também lê e escreve e cai eternamente do cimo dos seus sonhos, sinto as tuas feridas e também as minhas a agravá-las; nestas veias segue o mesmo sangue estragado, febril e irregular desde o berço; nestas mãos nervosas e sem força o mesmo frémito de patologia me leva a escrever versos e delírios; neste absurdo de ser, há a mesma dôr confusa a badalar os dobres dos seus sinos sonoros, colossais... Assim, porque não, Fernando, o mesmo génio, se partilhamos, helàs, os mesmos ais??!

(Lisboa, 10/09/99)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:57
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BlogoNews No Comment - Novo Fenómeno: The New Wave Piggy Dancer

O GOVERNO CANTA BEM
E É SÓ ISTO QUE VOS RESTA:
SE ELE CANTA, VOCÊS DANCEM,
MESMO SE A HORA É FUNESTA!




Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 00:01
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Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

Do Virtual ao Espelho

«Vidas paralelas*Elas as há mais públicas que outras. As vidas paralelas que um gajo vive no outro mundo, o virtual. Ele é os MIRCs, os fóruns, o MSN, o Hi5, e seus semelhantes, os blogs, o Hattrick e o Second Life. Umas acessíveis a toda a gente e por isso mais públicas e outras só para alguns e por isso mais intimistas. E muitas vezes mais até do que com os próprios amigos, os desta vida. Como estas espécies de comunidades deve haver muitas mais que assim de repente não estou a ver. São horas e horas passadas na net. Eles os há Orkuts e semelhantes que se não são para manter relações virtuais são para recuperar relações passadas. Não sei se querer revisitar o passado não será pior... Também não sei se a Internet é - neste caso concreto, naturalmente... - como os correios, que aproximam as pessoas, ou se pelo contrário as afasta da realidade e as aproxima do outro mundo, o virtual, sem grandes contactos físicos, sem obrigações que não a de estar online todos os dias e portanto sem grande sofrimento. Ainda que se sintam as coisas da mesma maneira - caneco, sempre é gente que está do outro lado do teclado - até se amua e tudo mas quando um gajo não quer mais, desaparece e pronto. Felizmente para alguns é, como a roupa em excesso, o iPod ou o ginásio, apenas um complemento de uma vida real, esta sim com confrontos directos. Sem intervalo, advertências ou cartões. E muito menos tempo extra. É bem pior, é todo tempo do mundo. Mesmo que não nos apeteça.Uma pessoa normal, que não viva enfiada numa redoma, leva uns chapadões pla vida fora, faz parte. Uns mais puxados atrás do que outros mas vai levando. Eles os há que se aguentam melhor à bronca. Outros pior. E são estes últimos que, digo eu, se agarram mais a vidas paralelas. Porque um gajo cansa-se de levar na tromba e deixa de estar para isso. Também os há tímidos, complexados com a própria imagem, sem grande coisa a que se agarrar nesta vida e por aí fora. E vive-se mesmo de e para uma e outra vida paralela. Porque não se tem uma vida cá fora mas também não se está sozinho. Há alguém do outro lado do teclado, que pode estar do outro lado do mundo ou ali na Bica, que nos ouve, lê e fala connsco. Ali, no outro mundo, há sempre alguém disponível, o que nem sempre acontece com os mais chegados, porque a vidinha é assim mesmo. E um gajo cai em si no dia em que alguém fica 3 ou 4 dias, uma semana ou 15 dias, sem aparecer e não dá para passar lá por casa a ver se há luz.A porra, para alguns, é que por enquanto um gajo vive obrigatoriamente num mundo real e, se não quiser comido vivo, é bom que saia da toca de vez em quando.E infelizmente, para os mesmos, é que o mundo virtual é nos muito próximo mas não nos chega a tocar. E um gajo às vezes precisa mesmo e só de um ombro.
 


*Revisto e ampliado»

Ascrupulosamente surripiado ao Eça é que Hesse (http://www.ecaequeeessa.blogspot.com/) - Isa perdoa-me!

Parece que o shakespereano «we are such stuff as dreams are made on, and our little life is rounded with a sleep» «The T.», Act IV, Scene I, vs. 156-8, de Prospero, no final d'A Tempestade, se transformou hoje em dia em algo como: «As nossas pequenas vidas estão envolvidas num sono, tecido pelos cabos de mil computadores, que nos disfarçam as frustrações quotidianas e nos transformam a realidadde num sonho...» Gregor, Gregor, onde estás? Olhei-me e vi-me um insecto horrível! Já viste o que o Progresso fez de mim??!!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:12
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Posturas...

Escrevo a preto no caderno branco e sinto-me mudado. Tenho medo do Fim. Não da Morte: do Fim. Do que direi, do que farei, se me saberei comportar. Porque parece que a Morte comporta consigo uma certa ideia de aprumo. E, para atingir tal aprumo, onde meterei eu esta raiva que me acompanha durante os dias, e o tédio, e a inércia, e o sono, e o sono, e o sono, e o sono???
Estou doente. Doente. É por isso que escrevo. Mas não sei por quanto tempo mais irei escrever. Porque tenho vontades, mas não domino nunca as minhas vontades. Nem elas se mantêm as mesmas. Como não sei quanto durará esta caneta, nem se durarei eu o necessário até que ela acabe, para que a sinta acabar, para que a veja acabar, para que me preocupe, eventualmente, com o ela acabar…

(Lisboa, 18/05/99)
Golpe por Miguel João Ferreira às 02:16
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Casualidades - (Incitação à união dos corpos)

Como tudo na vida, há um copo
Nas horas de crise, nos cafés.
Como tudo na vida, há um morto
A flutuar na baixa das marés.
Como tudo na vida, há um sopro,
Suspiro final do que se vê:

Quando se apagar a chama nesta vela
Quando tomarmos essa caravela
Rumo ao desconhecido
Estaremos longe…
Que seja unidos!

Como tudo na vida, há um barco
Que se afunda na ponta de um coral.
Como tudo na vida, há um charco
Que ensombra os sonhos na sua espiral.
Como tudo na vida, há um parco
Corredor, fantástico e fatal:

Quando se apagar a chama nesta vela
Quando galoparmos nessa sela
Rumo ao desconhecido
Estaremos longe…
Que seja unidos!

Como tudo na vida, há um teatro
Que se vive e se dorme e se sente.
Como tudo na vida, há um retrato
Passado angustiante que nos prende.
Como tudo na vida, há um abraço
Que nos envolve o corpo inconsciente:

Quando se apagar a chama nesta vela
Quando subir banal àquela estrela
Rumo ao desconhecido
Estarei longe...
Fosse contigo!

Lisboa, 25-05-98
Golpe por Miguel João Ferreira às 01:38
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Terça-feira, 19 de Junho de 2007

BlogoNews No Comment - Reminiscências - Viagem Na Saúde em Portugal: O Segredo do Halibut

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 19:40
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Na espera...

a) Uma silhueta ao fundo que se aproxima. Lentamente. Cada dia mais perto. Cresce. Mais nítida, sempre mais nítida… Que quererá de mim?
b) Era o carteiro? Era o fiscal? Era a polícia?
c) Era o Fim…

(Lisboa, 17/09/98)

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:56
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Exortação

Abre a porta, sai, vai ver a rua!
Não fiques sempre aí trancado!
Não é tão negro, o Mundo, já não dura
A chuva que caía ‘inda há bocado!

Tem coragem, sossega, enfrenta o Sol! –
Sente o vento soprar-te nos cabelos:
Abre os teus braços como um girassol,
Abre a mente, cria novos elos…

Abre a janela! Força! Vê por ela
A vida que esqueceste lá por fora!
Não dês tant' importância a essa dôr!

Mas logo um espirro… Vá, fecha a janela…
A diversão? O gozo? Sim, ignora…
Chega mais p’ra cima o cobertor…

Lisboa, 30/04/00

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:52
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Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

OP'r'A Isto! - Sob Escuta I

J.: Tou, Luís? Luís? Sim, Luís, pá, sou eu pá! Epá, ò Luís, pá, tive uma ideia brilhante, pá!
L.: Joe? Joe? Isto é má altura, agora, Joe! Agora estou aqui a meio de uma patuscada de lagostim, pá! Não podes ligar mais tarde, pá?! Agora tenho aqui a malta toda, pá! A minha mulher, o Eusébio, o Simãozinho, o Rui, o Engenheiro do Penta, até o chato do Vilarinho está cá, pá! Estamos a festejar o fantástico terceiro lugar do maior clube português, pá! Que foi um milagre, pá, com o que jogámos, um milagre!
J.: Epá, é isso pá! Eu também houve aí uma altura que estava a ver que o Braga e o Paços de Ferreira nos iam passar a perna, pá, foi constrangedor!
L.: Nem me lembres, pa! Nem me lembres! Não venhas cá estragar-me a digestão, pá!
J.: Epá, ò Luís, pá, é que é mesmo por causa disso, pá! Eu tenho aqui uma ideiazinha, pá!, que, bem..., nem te conto!
L.: Vá, pá, desembucha de vez, pá!
J.: Bem, sabes, as acções do SLB...
L.: Mas olha lá, ò Joe! Tu queres arruinar-me o lagostim! As acções a descerem a pique 40 e tal por cento ãh?, anda alguém aí a prejudicar intencionalmente de forma voluntariamente propositada, ãh, a grande instituição que é o Spór Lisboa e Benfica, ãh?, e tu, pá, ãh?, e tu a arruinares-me o lagostim? Ãh?! Mas tu mudaste-te para o FCP? Ãh? Viraste a casaca Joe?!!
J.: Épá, não é nada disso pá! É mesmo por causa disso, pá! É que eu tive uma ideia de génio, pá! Como tu sabes eu sou pôdre...
L.: Sim, pá, eu sei isso, Joe... Isso é mais um motivo para não me arruinares o lagostim!
J.: De rico, pá! Pôdre de rico, pá! Eu sou o maior bilionário do Mundo... português, depois do Bill Gates e do Belmiro, pá! Vá, e do tio Adalberto... E então, pá, agora com esta mania das OPAs com que o pessoal está a ficar pá, tive esta ideia, pá: Porque não, pá, ãh?, porque não OPAr também eu o glorioso SLB? Ãh, pá?!
L.: Mas, ò Joe... tu desculpa lá a pergunta, pá! Mas tu estiveste a fumar com o Adalberto, pá?! Foste outra vez para a Folia com o Grande Pai Madeirense? Estás grogue?! Ãh, pá?
J.: Não pá! Não estás a ver a cena, pá! Eu OPO o Glorioso, pá, e as acções que agora estão a pique para baixo, vão - zumba!, para cima, só por causa da especulação, pá! Vai ser alí sempre a galopar à grande! E as outras SADs vai de amochar com a pujança benfiquista, pá! Estás a ver a jogada?
L.: Eh, lá, ò Joe! Tu estiveste a fumar, mas a droga era boa! Conta lá mais disso!
J.: Epá, a ideia é simples, pá: Eu vai de anunciar, assim à grande, à paxá de feira, uma OPAzinha ao SLB. As acções que andam zuca, zuca, a murchar, a murchar, passam a andar zupa!, zupa! a arrepiar que nem umas malucas. Eu prevejo por volta de uns 56% de valorização na Bolsa - Sobre isto consultei, inclusivé, o Grande Professor Caramba!, que, em troca de um Mercedes e duas brasileiras me deu toda a razão e me confirmou que era isso mesmo que confirmavam as estrelas - portanto, tudo bate certo, pá! Proponho a OPA lá para os 60% para a CMVM vir dizer que não pode ser muito bem os 60, que tenho de te OPAr para os 100%...
L.: Opá, OPAr-me a mim, não, pá! Ao Glorioso ainda vá, pá!, mas a mim não, pá!, ãh?, a mim não pá!
J.: Epá, não era isso que eu queria dizer, pá!, claro pá, era o Glorioso, pá, está claro, pá! Mas, pronto, pá, como eu dizia, pá, então... enquanto andamos nesta dança, e vocês fazem a reuniãozinha geral de emergência para de emergência decidirem que não vendem, e a CMVM reúne de urgência para nos mandar OPAr a 100% ou provar que temos justificações para os 60, e nós reunimos de urgência para deliberar se conseguimos justificar os 60 ou OPAmos a 100 ou não OPAmos porque é muita areia para a nossa camioneta madeirense, o Benfica anda nas bocas do Mundo, pá, estás a ver, os Media não nos largam, mandamos assim em Conferência de Imprensa umas postas de pesacada, pá, estás a ver, pá, e as acções, entre descer um bocadinho e subir um bocadão vão andar aí arribar que é uma beleza! Ãh? Que tal, ò Luís, ãh? Que tal, pá?!
L.: Épá, ò Joe, pá, agora é que te esmeraste, pá!...
J.: E não é só isso, pá! O melhor ainda vem aí, pá! O melhor nem é eu poder mostrar ao Cont'nent que sou pôdre de rico, pá! Nem poder disparatar para a Imprensa que o Benfica é o melhor Clube do Mundo! Nem sequer é, pá, valorizarmos essas moribundas acções do Benfica que estavam a afundar por incompetência financeira! O melhor, pá, o mais genial desta minha ideia brilhante, pá!, é que, com isto, pá, a malta lixa o Vilavinho com uma limpeza que é de artista, pá! Com uma limpeza, eh lá! cuidado!, pá! Estás a ver, pá?! Ãh?! Estás a ver, ò Luís?! O maior accionista, com isto, semi-caput! Estás a ver, pá! Não é de génio???? Ãh, ãh, ãh?
L.: Maluco! Assim é que é! Que nem ginjas, pá! Só por causa disso, pá, estás convidado para as sobras do lagostim, pá! Isso é que foi animares-me a digestão! Quando queres, Joe, és um copincha pá! Bem haja, pá! Bem haja! Traz para cá esses ossos mal tu possas, pá!, e faz lá isso da OPA! Eu logo faço daqui as minhas jogadas, pá! Abração grande, ãh?, pá!
J.: Assim é que é falar, ò Luís! Grande abraço! E espera por amanhã! Que grande dia!
 

AQUI O GUME PERDEU A LIGAÇÃO...

O Gume acrescenta, a título de curiosidade científica, que o lagostim é um excelente comedor de algas. Portanto, se tiver excesso de algas lá em casa...
 

E foi a dica da semana...
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 21:18
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Progressos, Pessimismos, Constatação Inútil...


 

Sabes, Hamlet?, a vida perdeu o Norte. Seres ou não seres são dúvidas antigas... Os dias são pegadas dos teus passos, poeira das horas que deixaste de ter.... A Morte é o destino desses passos... Que ironia profunda há em viver!


 

 
 
(Lisboa, 16/09/98)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:01
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Sobressalto

I

Passos...
Ouço passos, lá fora, ò Solidão!
Corro a ver de quem são,
Quem chega - Não me viu, não o vi…

Nada...
Nada, nem ninguém...
Só passos rápidos de alguém
Que não vem por aqui...

Tenho a vida presa (que prisão!)
Desde que nasci...
Tenho uma ansiedade, inquietação...
Mas já passou, já esqueci...

Lisboa, 22/11/95

II

Sim, descansa...
Foi só um sobressalto.
Podes voltar a essa enorme angústia
Que define a tua natureza...

Pois quem virá comer à tua mesa?
Só esta hidra que voa dos planaltos,[1]
Só este monstro do medo e da incerteza…

A Solidão?
Que vileza!
A Solidão?
Que vileza!

Podes voltar a essa enorme angústia
Que define a tua natureza...

A Solidão?
Que vileza...

Lausanne, 22/09/04

[1] Nota do Crítico: Nova incongruência deste autor menor. Como é do conhecimento geral, as hidras não voam. Cf. National Geographic, programa XII, série 237, 19xx.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:28
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Na Hora Do Adeus - (Ou um Poema Fotográfico I)

Como fui insensato em quebrar-te o riso!...
Mas, como poderia adivinhar?!...
Como é triste ver-te deprimida!
Chega querida! Pára de chorar…

Lisboa, 29-05-96

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:21
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Tonturas

A tua saia
Redonda
Desmaia
Nas ondas
Maleáveis
Das marés.

O meu corpo
Inerte
Sem forças
Perece
Em frente
A teus pés.

O teu rosto
Escarnece
Do meu
Que apodrece
E se esquece
Que é.

Pudera
Eu ser grande,
Tal como
Um gigante
Domina
As alturas!

Mas, enfim,
Sou triste!
No ser mau
Consiste
A minha
Figura!

E por isso
Jazo
Sob o teu
Vestido
Que me dá
Tonturas…

Lisboa, 20-05-98

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:08
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Tradução De Uma Prece Condenada a Auto-De-Fé - (Quase Um Trabalho Poético - Original e Tradução)[1]

O Original:
 

 


 

Agnus Dei qui tolis peccata Mundi ora pro nobis!
 


 

A Tradução:
 


 

Cordeiro de Deus, tiraste os pecados do Mundo... E então e nós???!!!
 


 

Lisboa, 20-05-98

[1] Nota do Crítico Especializado: Inútil especificar que o autor errou a tradução do latim. Tanto trabalho (pretensamente poético) foi, afinal, consideravelmente vão. Felizmente, para urbi et orbi, o artista em questão não se dedicou à filologia - Por certo, redefiniria o vocábulo caos. Por Santa Ingrácia! Que o Céu me perdoe o pensamento tão escassamente cristão... Mas como eu tenho raiva a todo o autor menor!!!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:04
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Deslumbramentos - O Gume Experimenta a Poesia

Ah! Senhora, que chama me consome!
Como me alucino em convulsões!
É esse olhar, esse gesto, o sobrenome
Bordado nesses míticos brasões.

Não como. Não durmo. Não reajo.
Apodreço-me nas mesas dos cafés
A admirá-la, de longe, acorbadado
Envolta em lacaios, de librés...

Como os invejo! Bastar-me-ia tocar a vossa capa,
Seguir-vos fiel por toda a parte,
Como um vosso adorno, como um louco! –

Se amor é um fogo e cruel mata,
Então, grave mulher, de assim amar-te,
Não devia já de estar eu morto?

Lisboa, 14/10/94 – 14/03/98

P.S.: Odete, cara Odete,
Essa dama da Côrte que, por vezes, você veste,
Ainda que exaure sempre um'aura comunista,
Arrepia-me a pele de fundo entusiasmo!
Mesmo que, por norma, você seja uma peste,
Com uma tendência 'stranha para teatro e revista,
É o remédio perfeito p'r'ó marasmo...
É por isso qu'eu, sem ponta de talento,
Apenas por respeito e admiração,
Vos dedico (Odete, vem de dentro!),
O meu «Deslumbramentos» - simples composição...
Pode desdenhá-la, armar um pé de vento...
Mas foi pensada com o coração...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 06:49
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Domingo, 17 de Junho de 2007

Da Minha Tradição Popular...

Ora, o provérbio, era como, ao certo? … Quem tudo quer, na vida… tudo perco…
 

 


 

(Lisboa, 18/07/98)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 23:04
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Na Sombra

I

A força das marés arrasa os portos–
Destroços são a marca inquestionável.
A força das marés desfaz colossos –
A areia é a matéria irrefutável.
A força das marés revolve os corpos –
O sangue é uma prova insofismável.

II

A

Estar sozinho
Abraçado
Com o silêncio;

B

Conhecer
O suplício
De ser múltiplo;

C

Conviver
Com o lento
Movimento

D

Da vida
Que me abriga
No seu túmulo.

III

Vivo no abismo
Entre a terra e a onda,
Meu Negro Ostracismo
É seguir na Sombra…

IV

Então Deus criou a Terra
(Que me encerra)
E os Monstros
(São os outros!)
E os Quatro Elementos
(A Fúria, a Fome, a Sede e o Tormento)
E os pecados, que são três
(Sonho, Poente e Eternidade),
E inventou essa vil dualidade
De ser de uma só vez
Abel, Caim…

Nós descobrimos,
Ainda que a despeito da vontade,

Que não choramos apenas, também rimos[1],
Que não foi do mesmo ventre que provimos[2],
Que, por certo, a vida tem um fim[3].

Lisboa, 11-05-98

Notas do Autor: [1] O Ridículo
 

[2] A Imperfeição
 

[3] O Desespero

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 23:02
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Sábado, 16 de Junho de 2007

Grande Entrevista "à La Revista" - Emissão I

Jud. de S.: Boa noite, hoje temos connosco o Dr. Paulo Portas que vem falar-nos do que considera ser uma situação muito grave da Democracia Portuguesa. Boa noite, Dr. Paulo Portas...
P.P.: Boa noite Judite...
Jud. de S.: Explique-nos então o caso, Dr. ...
P.P.: Bom, Judite, o caso é gravíssimo. Como você bem disse, trata-se de um ataque profundo à Democracia Portuguesa...
Jud. de S.: Perdão, Dr. Portas, o que eu disse...
P.P.: Precisamente. Disse-o e disse-o muito bem. O que...
Jud. de S.: Mas...
P.P.: Evidentemente. Tem toda a razão. E o que me mais me preocupa nesta situação é o que este ataque particular ao meu partido, símbolo primeiro da Democracia Nacional, representa de nocivo para todo o português por quem sempre fiz tudo o que estava ao meu alcance, desde jornalista a professor; de professor a deputado; de deputado a líder partidário; de líder partidário a Ministro; de Ministro a pessoa risível, para defender e proteger. Se me dá licença, Judite, adianto-lhe desde já que me considero, nesse aspecto, o Zorro de Portugal...
Jud. de S.: Mas explique-me, por favor, Dr. Paulo Portas, e aos blogospectadores lá em casa em particular, de que se trata esse ataque...
P.P.: Com certeza que explico Judite. E com provas. Vim preparado com provas, para lhe mostrar, e aos blogospectadores, por A mais B, como há organizada uma Cabala contra a digna instituição democrática que eu tenho a honra de liderar e representar que é o CDS-PP.
Jud. de S.: Que tipo de Cabala, Dr.?
P.P.: Bom, é uma Cabala que é muito simples, Judite, muito simples e extremamente complexa, que é uma Cabala de interesses que andam a engendrar para nos prejudicar e que diz particularmente respeito áquela situação do endividamento contraído alegadamente indevidamente mais ou menos generalizado dos partidos políticos, ou não é bem um endividamento, vá, mas mais um branqueamento, por assim dizer, um branqueamento ligeiro, vá um alegado ligeiro branquemento de capitais, vá falcatruamento, assim é que é, em relação às contas de 2004.
Jud. de S.: Notícia já devidamente blogonoticiada pelo Gume a 5 de Junho de 2007...
P.P.: Exactamente, Judite, é mesmo isso... Ora, o vergonhoso desta situação é que isso é tudo uma grande mentira, pelo menos no que respeita ao meu partido...
Jud. de S.: Como assim, Dr.?
P.P.: Pelo seguinte motivo, Judite: O CDS-PP, em 2004, altura aliás em que era eu o seu líder, apresentou todas as suas contas sem qualquer tipo de incompletude ou irregularidade, e, repare, eu tenho aqui as provas, ora, dê-me só um instante... portanto... ora, isto não é que é a receita do médico... também não, o ticket do parque de estacionamento... não é isto, talão do clube de vídeo... isto também não é, o recibo da Almedina... não, a conta do restaurante... não, não, bilhete de cinema, talão da lavandaria... ora,... cá está!... Não, isto é o discurso para o meu irmão - nós vamos convergindo as nossas divergências por vermos que a magia da política é reduzir de sobremaneira as diferenças entre a quase-extrema-direita e a quase-extrema-esquerda -... olhe, não, está difícil Judite, mas bom, a prova, como vê, está visível aqui nestes papéis, e toda a gente lá em casa pôde comprová-lo sem dificuldades. E era precisamente isto que eu lhe queria mostrar a si e aos blogoespectadores, e aos Tribunais deste país e à Comunidade Internacional: Que, como acabei de mostrar, estamos a ser intimidados com o propósito maléfico e anti-democrático de arruinar a imagem deste partido indispensável à evolução da sociedade portuguesa e o seu líder, em particular, que sou eu...
Jud. de S.: Bom, não chegámos bem a ver as provas, Dr. Port...
P.P.: Não chegaram bem? Não chegaram bem?! Oh Judite, francamente, não me diga que também está metida na Cabala! O Gume também está metido na Cabala? Isso é que não Judite! Então não viu os papéis?!
Jud. de S.: Não claro!, de maneira nenhuma! E sim, vi os papéis, mas...
P.P.: Ah!, óptimo! Por momentos assustou-me! Está então tudo provado, como vê! Estamos inocentes e a ser perseguidos e intimidados! E eu tenho aqui, veja, eu trouxe comigo, a prova da Cabala, que já tiveram, inclusivé, o descaramento de editar! Esta gente, Judite, nem sequer tenta esconder-se! Ora leia, ora leia!:


 

Viu bem?
Jud. de S.: Realmente, pode ser suspeito... E o Dr. está de facto a parecer-me um pouco assustadiço. Sente-se mesmo intimidado?
P.P.: Pois naturalmente que sim, Judite! Numa situação destas?! Claro que sim! A Judite sabe, ãh?, a Judite sabe que apanhámos 3 indivíduos suspeitos a cirandar a nossa Sede ontem à noite? Ãh? Sabe? E eu tenho aqui fotografias! Ora repare: ... ora esta não que é da minha irmã com 14 anos numa passagem de modelos... esta sou eu em Ibiza, por acaso aqui o bronze ficou bem... mas não, também não é esta... ora... um pôr do sol em Cascais... o meu canapé na Assembleia da República... o protótipo do mig29 que guardei para expôr na minha sala de quando fui Ministro da Defesa... o Piloto, o cão de um bom amigo... as minhas meias brancas de verão, para a praia... não, bom não é nada disto... mas estão aqui entre estas fotografias e são mais uma prova gritante, como vê, do que estou a dizer. Porque nós, Judite, não estamos a brincar, e temos tudo registado. Nós, no CDS-PP (PP de Paulo Portas, naturalmente), trabalhamos por Portugal, e não brincamos. E como acabou de testemunhar, temos tudo registado... E já nos lançaram mastins, e mandaram cartas anónimas a ameaçar as nossas famílias, eu, em particular, recebi isto, por exemplo, olhe, olhe!:

 
 

e disseram-nos que ainda nos obrigavam a ir ao Big Brother com a Cinha Jardim, a Lili Caneças, o João Baião, o Canto e Castro, o Castelo Branco, a Catarina Furtado, a Teresa Guilherme, o Manuel Luís Goucha e a Manuela Moura Guedes! Se isto não é intimidação, então desculpe, Judite, não sei o que possa ser...
Jud. de S.: Bom, realmente o último exemplo, a ser verdade... E que medidas tomou?
P.P.: Olhe, não sei, de tudo um pouco. É claro que isto é um caso de polícia. Já particpei o caso às autoridades, claro está. Mas confesso-me, quero dizer, confesso-lhe, perdão, que, por agora, sinto-me assim pequenino!:
 


 

Jud. de S.: Caramba! Isso é realmente muito pequeno! Mas o Dr. Paulo, sentir-se assim, logo o Dr., que tem um ego deste tamanhão!!!:


P.P.: Ora aí está Judite! Só me ajuda! Está precisamente a provar o que lhe digo! Para eu que tenho um ego assim:
 

 

Estar a sentir-me assim:
 

Imagine!
Jud. de S.: Realmente deve ser muito complicado... E a acusação que lhe apresentam consiste mais especificamente em quê?
P.P.: Olhe Judite, vou ler-lhe mesmo a notícia do Público: Cá está: «T6, vista p'r'ó mar, bons acabamentos, bonitas assoalhadas...»... Não, desculpe, este é o «Regiões.».. Só um instante... Ah!: «Usado, como novo, Jaguar impecável, azul metalizado, 275 cavalos, pneus a estrear, uma pexinxa...»... Também não é este, desculpe, este é o «Ocasião»... Mais um instante...: « Miguel Veloso seduzido pela Premier League...»... Não, o «Record»... Ah, sim, agora é que é!: «(...)uma campanha de "intimidação" as notícias de alegadas irregularidades nos donativos ao partido(...)». Está a ver? Isto é uma notícia do jornal «Público» de hoje dia 16, e, como pôde ver pelo que eu li (o resto não interessa) a frase não foi retirada do contexto em que se encontrava. Isto vem mostrar que até os jornalistas do Público perceberam que se trata de uma intimidação que as nossas irregularidades são alegadas, que não existem! Trouxe inclusivé, para lho mostrar com todo o rigor, as contas do partido de agora e de 2004 e de antes disso - o que está riscado é o que não interessa, - para que veja, Judite, o descalabro a que isto está a chegar... E u fiz as contas todas, como pode ver aqui neste papel rabiscado, olhe, aqui, está a ver...

 
Jud. de S.: Sim, bom ,não, isto está um pouco baralhado, estas contas não parecem bater certo....
P.P.: Não, não, Judite, não é nada disso, está a olhar para o rascunho... Isso fui eu a testar a prova dos nove, não é isso...
Jud. de S.: Ah estranhei... O Dr. sempre foi tão bom com números... Quando era deputado apresentava com tanto rigor e sempre na ponta da língua todos aqueles dados entre o conjecturado e o deslocado da Solidariedade e Segurança Social...
P.P.: Ah, Judite!, Bons velhos tempos! Nessa altura tinha o Nobre Guedes a meu lado! Que belo apoio! Que saudades! Mas já tive os meus problemas com números... olhe o caso da Moderna... Só aqui entre nós, Judite, as contas sempre me baralharam muito... Mas bom, neste caso tenho a certeza de estar tudo bem, e também a Judite pode vê-lo. E é garantido, como mostrei a toda a gente, e também o Público veio mostrar pela frase que citei ipsis verbis e que, repito, não retirei, de maneira nenhuma, de contexto, - palavra de escuteiro democrata-cristão!, - que há uma Cabala vergonhosa contra nós e por isso, sendo contra nós, contra o povo português. Mas uma coisa lhe garanto, Judite: Palavra de democrata, isto não vai ficar assim!
Jud. de S.: Muito bem, senhor blogospectador, resta-me agradecer ao Dr. Paulo Portas a sua presença e os seus esclarecimentos e a si a sua atenção e fidelidade ao Gume e ao nosso programa. Até uma próxima «Grande Entrevista "à La Revista"», boa noite, e fique bem, com...
O SEGUNDO GUME!Até sempre...
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 20:41
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E É Tão Urbano Este Desgosto!...:

Sigo aos tropeções nas avenidas; passo sem acerto pelas calçadas sujas; empurro os transeuntes domingueiros por me doer o terem um domingo e o gozarem, assim, tão levemente; ofendo sem justificação plausível o agente da autoridade, pondo em causa a autoridade de que ele se diz ser agente; espanco brutalmente os mendigos que se insurgem contra a minha pobreza; grito às casas mortas a minha solidão: «Ò Gentes, venham às portas!, às janelas!, quero pão! Se pão já não tiverem, não dão um beijo, não?». Ninguém. Ninguém! Tanta vileza! A Vida está aqui, eu estou além. A Vida está alí, eu estou aquém. Isto é suspeito: Vivo sem Norte na bússola do peito… Vivo sem Norte... Que mágoa a incerteza!
– Não, não, … claro… é garantido!, passo aí para fechar o negócio amanhã…
– Vê por’ond’andas, cretino!
– Se eu mandei a carta? Mas se só ontem recebi o teu telefonema!
– Sim, amor, eu estou em casa, talvez, antes das dez… muito trabalho sabes… Espera, tenho outra chamada… Olá Mónica! Jantar hoje, sim, não, não me esqueci, está tudo tratado… sim, ela julga que eu estou a trabalhar…
 

 

Vvvvvvrrrrrrrrrrrruuuuuummmmmm… PpppAaaaMmmm!!!


 – OOOooooohhhhHHHHHH!!!!!!
– Não há nada para ver! Circulem! Circulem!
– Para a Sé?
– À direita… à esquerda… contorna… depois… e passando os semáforos… então sempre em frente… e vira na esquina da… com a… e então a direito… é muito fácil…
– E para a Morte? Para a Morte? Para a Morte?
– À direita… à esquerda… contorna… é muito fácil…

 

(Lisboa, 17/07/98)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:58
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Sexta-feira, 15 de Junho de 2007

Formas de Ver a Alma - Desabafo da Senhora das Limpezas…:


 

Quanto é preferível ao ódio o amor! O amor apaga-se. O ódio não...
 


 

(Lisboa, 05/04/98)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:35
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Gabriel Cravo e Canela

I
 


Tão só estirado com os sonhos no Poente,
Tão só galgando esta ponte de medo,
Remando rumo ao Cabo,
Cruzando e enfrentando monstros mudos,
Com os olhos postos no Capitão do Fim...

Tão só na rota do ouro do Oriente,
Nesta São Gabriel dos Portugueses.
No mar acobardado,
Deus conduz pela própria mão estes marujos
Que buscam Fama e Glória em Bombaím...
 


 

II


 

 


 

No Oriente do Oriente do Oriente,
Eu busquei Fama e Glória, insanamente,
Amei sobre lençóis de bom cetim,
Fumei o ópio, a planta transcendente,
Comi desses manjares de mandarim,
Provei todo o prazer inconsequente,
Vesti um manto branco, à Serafim,
Planei a ombros sobre a pobre gente,
Impûs a minha Lei suja e ruim,
Ganhei, pilhei, matei, impunemente,
Ladrei, rosnei, ferrei como um mastim,
E um dia dei por mim, tragicamente,
A entender que não dava por mim...


 

 
III


 

 
Fui conquistar o Mar do Oriente,
Goa, Calcutá, Omã, Cochim,
E vi-me escravo um dia desse intento,
E naufraguei no mar que havia em mim...
 


 

IV
 


 

Eu Portugal (eu, Miguel!),
Eu fui em S. Gabriel,
Eu fui em S. Rafael,
Eu fui no Berrio além-mar.
 


 

Eu fui e vim sem me ver
Fui procurar e querer,
Fui encontrar e perder,
Fui quebrar ventos e ar.


 

 
E depois de ter partido,
E depois de ter voltado,
Dei por mim roto, exaurido,
Pobre, fraco, acobardado,


 

 
Dei por mim na Solidão,
Sem sentido e sem razão,
Sem ouro, barca ou padrão,
A chorar o meu Passado;


 

 
E vou boiando, abatido,
No paúl adormecido,
No charco mudo e esquecido
Do meu país estagnado...


 

 
Ontem fui Rei Sem Juízo,
Hoje sou Bôbo com Guizo,
Peito farto, bolso liso,
E c'o miolo parado...


 

 
«Tenho pena, tenho pena,
Mas não tenho melhor Fado!»[1]


 

 
Lisboa, 15/09/98

[1] Nota do Autor: Para entendimento dos versos entre aspas, Cf. «Surrealismo Por Correspondência».
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:40
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Quinta-feira, 14 de Junho de 2007

BlogoNews - No Comment : Allgrave...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 21:26
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Estoicismos - (Imitando Sócrates)

Novo acesso de tédio –
É uma constante.
Desisto.
E desta vez é a sério.
Tenho medo.
Mas o medo
Permuta-se.
Abro-me e transformo-me em cicuta:
Beberei o veneno do meu próprio sangue...

Lisboa, 02-04-98

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 15:02
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E=MC2...

Numa equação matemática, o Homem, figura fixa, está no centro de tudo. A Vida e a Morte são as variáveis.
 

 


 

(Lisboa, 04/04/98)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:52
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Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Não Me Conformo!

In Público, 13/06/07: «Apito Dourado: Pinto da Costa acusado de corrupção desportiva
O presidente do FC Porto, Pinto da Costa, foi hoje acusado do crime de corrupção desportiva no âmbito das investigações do processo Apito Dourado ao jogo com o Estrela da Amadora, na época de 2004».

 

Eu não me conformo, amigos, simplesmente não me conformo com esta acusão ignominiosa. O Sr. Pinto da Costa nunca fez mal a ninguém. O Sr. Pinto da Costa é honesto e idóneo. O Sr. Pinto da Costa é justo. O Sr. Pinto da Costa é regrado. O Sr. Pinto da Costa é cívico. Se acaso ofereceu o que dizem que terá oferecido, e eu não acredito em boatos, nem nas provas improvadas que vêm apresentando, o Sr. Pinto da Costa só fez bem. Se fez o que dizem que fez, o Sr. Pinto da Costa distribuiu felicidade: viagens, riqueza, romenas de perna cheia, brasileiras de pele morena, francesas de peito farto, russas de mãos de fada, licores, charutos, festas privadas e públicas, boas relações camarárias em todos os sentidos do termo... Se fez o que dizem que fez (e eu, por minha fé, não acredito que o tenha feito), o Sr. Pinto da Costa foi o Pai Natal português e merecia ser referenciado como homem modelo para as criancinhas. Se fez o que dizem que fez (que não fez, por certo, estou seguro), o Sr. Pinto da Costa é um mãos largas, uma alma de ouro, um coração de manteiga... e... se fez o que dizem que fez (que não fez!, que não fez!) o senhor Pinto da Costa esteve a alimentar a gula desse povo e a mim, seu admirador mais profundo, nada deu, nunca, em tempo algum... A mim, eu, Leandro Braz Palmeirim, que tanto o quero e lhe quero bem, que tanto o estimo, que tanto o defendi, que tanto fiz por ele sem que ele o suspeitasse, que tenho as paredes das minhas águas furtadas forradas com as fotografias e recortes de jornais e revistas das suas aparições, dos seus discursos, das suas vitórias, das suas alegrias, das suas necessidades, eu, nada recebi, nem um incentivo, nem um abraço, nem um convite, nem um obrigado... E é então que me sobe uma amargura ao peito, e o amor se mostra no seu maior egoismo: Vem-me à boca o acre do insulto, às mãos sobe-me a fúria de o esganar, aos pés o incentivo do biqueiro, à mente o desejo de cumprir as maiores vilanias. E por causa desse amor que lhe tenho, nunca compensado, nem com a mais leve sombra de conforto, nunca valorizado por esse Deus absoluto do futebol português (e não só, e não só), por causa dele, desejo profundamente que esse homem inocente, esse mártir, esse santo patriarca dos mortais lusitanos (e um dia dos mortais do mundo) seja acusado pelos crimes mais soturnos e castigado do modo mais cruel, e enjaulado, e sodomizado à bruta na masmorra de Caxias pelos reclusos mais feios e selvagens. E que depois seja extraditado para as minas da Sibéria, onde trabalhará descalço e a tronco nu sobre o gelo frio daquela profundidade demoníaca. E que nunca mais possa voltar para, com a sua ingratidão insuportável, consporcar o meu coração sensível... E que entenda, como eu o peço, que entenda!, que tudo isto é feito por amor... E que, cumprido este caminho necessário para a sua santidade absoluta, o Sr. Pinto terá o meu perdão...
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:33
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Ser, Verbo Intransitivo…:


Na Gramática da Vida, morrer é um verbo que se conjuga no Tempo Imperativo.

(Lisboa, 02/04/98)

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:22
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Cara-Metade

I – Transformação

 

Lavoisier catalizado de inocências,

Eu ganho-me

E perco-me

E transformo-me!

 

Procuro-me, inconstante, nas experiências

Que ensaio,

Provo

E desvario…

 

Buscar-me só me causa impaciência

E não me achar impõe-me calafrios ...

 

Entro no jogo de amar, que inconsciência!

Perdi-me,
Achei-me,

Falta qualquer parte!

 

Faltas tu, figura que imagino,

Artéria do meu orgão doentio

Que bate insanamente por amar-te…

 

Lisboa, 16-03-98

 

II – Esperança

 

Estar contigo, quem sabe,

Para sempre, quem sabe,

Se durarmos sempre (quem sabe?)

Se existir um sempre (quem sabe?)

Em que quem sabe amar que ame esse que sabe (quem sabe?)

Para eu te ter (quem sabe?)

E tu me teres (quem sabe?)

E uma metade completar outra metade (quem sabe?)

 

Viver contigo, quem sabe,

Como um abrigo, quem sabe,

Livre da dor (quem sabe?)

De andar tão só (quem sabe?)

E então com isso conseguir a claridade (quem sabe?)

Para me teres (quem sabe?)

E eu te ter (quem sabe?)

E tendo, sempre, experimentar a Liberdade… (quem sabe?!)

 

III – Busca

 

Onde o vazio começa e a terra acaba

Busquei o que buscava não sabendo

Que o que buscava já nesse ante-nada

Já o buscava em ânsias de entre-sendo.

 

Na própria consciência, essa Nababa,

Que vive, qual Raínha, amolecendo,

Eu embrenhei na Terra Abandonada,

Onde o seu chão ao chão vai carcomendo.

 

Caminho sobre a argila requeimada,

Por sóis abrasadores de meios-dias

Mais quentes e mortais que qualquer lume!

 

Mas juro, mesmo assim, sobre esta espada,

Provar em mil Infernos agonias

Apenas p’ra sentir o teu perfume…

 

Lisboa, 05/09/02

 

IV - Encontro

 

Surgiste quand’ eu já não te esperava,

Quando negara, amor, que tu viesses

Quand’ eu não te suponha além do sonho,

Tão vívida, tangível e carnal!

 

Sou um vulcão (repara) e isto é lava.

O que não É ouviu as minhas preces,

O que não pode pôs-te onde me ponho,

O que é Ideia, só, fez-te real…

 

Lisboa, 20/03/02

 

V - Partilha

 

O meu amor fechou-se subtil como as palavras –

O meu amor é daqueles que não revela o seu mundo.

Espera amor! – Fecharemos juntos este livro imundo;

Folhearemos, rasgaremos juntos estas páginas!

 

O meu amor! Fechou-se subtil como as palavras!

Guardou-se a sós na terra que nos espanta!

Espera amor! Fecharemos juntos esta campa!

Choraremos juntos estas mágoas!

 

O meu amor fechou-se subtil. Como as palavras,

Encarcerou-se nesses manuscritos,

Contos apócrifos de parcas existências.

 

O meu amor fechou-se. Subtil como as palavras,

Bebeu-se em sangue lúbrico dos ritos;

Espera amor! Vivamos juntos a sobrevivência!

 

Lisboa, 16-03-98

 

VI – Não-Fim

 

Senti que me faltavas:

Encontrei-te

E vivemos.

Cavámos uma cova

Juntos

E morremos.

Tapámo-nos com a terra

E na terra

Dormimos.

Nas mãos, flores de cidreira

E, nos lábios,

Sorrimos.

Por mais que os anos corram

Sobre os nossos

Sentidos

(Ou vermes que nos roam!),

Estaremos

Unidos...

 

Lisboa, 28-03-98

 

 

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 02:59
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Terça-feira, 12 de Junho de 2007

Depois de Portugal, o Dia do SIlêncio...

In Publico, 12/06/07: Associação de Matemática foi convidada a deixar comissão após criticar ministra:
 


«Um comunicado da Associação de Professores de Matemática (APM) em que criticava declarações proferidas pela ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, levou o ministério a sugerir à organização o abandono da comissão de acompanhamento do Plano da Matemática.
 

 
"Pela primeira vez o país associará os resultados não apenas à performance dos alunos, mas também ao trabalho das escolas e dos professores, para o melhor e para o pior", disse a ministra a propósito dos exames nacionais do 9.º ano, no final de uma reunião de balanço do primeiro ano do Plano da Matemática, a 11 de Maio. Poucos dias depois, a APM reagia em comunicado, criticando a "ausência de sentido pedagógico" e a "leitura muito simplista e redutora do que é esse trabalho e a educação."
 

 
"No dia em que a notícia saiu no PÚBLICO, recebemos um telefonema do director-geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular [, o dr. Luís Capucha,] a dizer que deveríamos sair da comissão", conta Rita Bastos, presidente da APM. »
 
 
 
 
 
 



 
Os Cravos já eram. Os tanques vêm já a seguir...
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:49
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Poema do Último Refúgio

Viveste como o Sol numa Alvorada

E  o Sol anoiteceu.

Na noite  vagueaste sem morada

E Deus criou o céu.

 

--------

 

Coloquei a minha casa sobre o nada;

É por isso que o Mundo inteiro é meu...

 

(Johann Wolfgang von Goëthe, 1749-1832)

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:42
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Exortação Breve e Amargurada:

E prossiga a Vida, filha do Acaso, escrava do Capricho, géma da Demência, perdição do Homem!
 


(Lisboa, 01/04/98)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:34
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Submissões (Junto aos Restauradores)

Que enigma, no teu seio, amor, havia?

Qual o mistério ocluso em tua boca?

Teu brilho, teu olhar, escurece o dia!

De ti defronte, Laura abaixa a touca!

 

Que mágico poder foi celebrado?

Que fera abocanhou os meus sentidos?

Meu coração, esse motor, parado!

A vida, esse acidente, posta em perigo!

 

Mal eu te vi, fiquei petrificado,

Sorvendo esse teu rosto de Medusa!,

Agradecendo a Deus tamanha graça:

 

De estar alí, esperando ser pisado,

Num transe irregular de paixão pura,

Sob o teu pé de deusa, em plena Praça...

 

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 00:02
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Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

Carbur-a-dor…:

Desejar a Morte é dar desculpas à razão para que esta se mantenha viva...
 

 


 

(Lisboa, 28/03/98)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 16:03
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Poema de Convicção

I

 

O Homem:

 

A noite é escura e nada faz sentido;

E eu, sem sentido, ando à espera d’alguém.

Dentro de mim ouço um grito incontido –

Mas dentro de mim não existe ninguém.

 

Nem longe, nem perto ou à minha beira;

Nem nos meus sonhos, no meu pensamento;

A vida é parte d’outra parte inteira,

E eu, parte à parte, um breve momento…

 

A Mulher:

 

É dia alto e nada aqui se explica:

Não haver ninguém, haver quem não chega!

Anos sentada sobre esta barrica,

Só tédio, tédio, que mais me aconchega?

 

Nem sonho feliz ou bom pensamento;

Nem Lord ou herói de magra algibeira;

É tanto o que sinto! Quase rebento!

Mas sinto-o sempre da mesma maneira…

 

II

 

O Homem:

 

Já vai longa a espera e ainda estou comigo;

Não existe a Paz.

Mesmo assim há estrada e por isso sigo –

Já tanto me faz.

 

Talvez ‘inda encontre uma outra alma

Que se ajuste à minha;

E entretanto o Tempo envelhece e palma

A vida qu’eu tinha.

 

A Mulher:

 

Estou a sós comigo, só pó e vento  

A Paz não existe!

Porque sou Humana não me contento

E sou sempre triste…

 

Mas irei em frente p’la estrada fora

Até ao Abismo.

Porque há outro Tempo p’ra lá da Hora

E é nesse que cismo.

 

O Homem:

 

Porque há outro Tempo além do que vivo

Viverei Além;

Nâo me importa a dor com que (hélas!) convivo

Não m’ela contém.

 

Nessa Terra vasta, val’ sem limites,

Cavarei um prado.

E saciarei esses apetites

Que roubou o Fado!

 

A Mulher:

 

Oh Deus tu nos deste o mais negro fardo:

Ser mulher e mãe!

Mas tenho uma força, e cá dentro a guardo:

Viverei Além!

 

Onde a terra é seca e a luz se apaga

Porei uma flor.

E há-de ter forma essa coisa vaga

Que se chama “Amor”…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 16:02
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Domingo, 10 de Junho de 2007

A Origem da Tragédia

I
 

 


 

Deus quer, a mulher sonha, o Homem nasce.
Depois lavam as mãos dessa vergonha,
Adormecem neutrais como Pilatos...


 

 
II
 


 

A tragédia nasceu com a invenção do espelho.
Eu, Ballester, é claro, não sou eu;
Apenas o terror a que assemelho...
 


 

III


 

 
Dionísio inventou o frenesim das uvas,
Deu-nos a beber esse licor,
Para esquecer o fustigar das chuvas,
O vergastar da dor...
 


 

Mas não esquecemos, mágico, o horror!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:23
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Diário do Caçador de Sonhos:

Escrevo directamente no papel com uma caneta nova. Anoto as sensações tal como as recebo, sem reparos, correcções ou ajustes de razão e de estilo. Escrevo por escrever, sem um motivo. Isto equivale a dizer que o faço porque tal é, para mim, absolutamente necessário. Penso um pouco nas coisas. O que é estar aqui? Um bocejo… Expectativa apenas, um denso nevoeiro que esconde dos sentidos o que a vida nos dá.
Tão tarde! Duas da manhã… E pensar que tenho preguiça de dormir! Que absurdo!
Gostaria de deixar neste texto a marca do meu génio imaginado, do meu génio presumido de ser grande, maior do que a minha altura (como dizia o Caeiro), uma mensagem profunda e simples que enchesse o coração dos homens. Mas nenhuma mensagem de nenhum génio poderá preencher tamanho vazio…
Imagino-me um artista, e penso, no contexto dessa imaginação, como gostaria de ser original. Mas a originalidade é cada vez mais inviável como tema - pois já tudo foi dito. O original limitou-se ao como e não ao objecto exacto de que se fala. Eu sou portanto a repetição de um protótipo de homem que de tanto se manifestar é degradação e tédio, e a minha unicidade consiste apenas na minha teimosia em declarar-me único. A prova de isto ser mentira está no meu inevitável enquadramento no sistema. A prova de isto ser verdade está na minha inegável e tortuosa inadaptação. Qual das duas provas me está a mentir?
Cheguei há pouco ao quarto… Lembro que saí para ver a paisagem urbana. Caramba, que frio! Como odeio o Inverno! Ter de passar os dias com a paisagem a brincar maldosamente ao Negro Espelho do Homem!

Quase dez anos volvidos, releio o texto, revejo a paisagem e vejo Lisboa a nevar como já não se via há 49 anos! Há 49 anos! Ena! Nunca tinha visto Lisboa a nevar… Quase dez anos depois reentro no quarto (mas esse quarto não é já o mesmo e também eu sou diferente) e lembro o quarto de há dez anos atrás, em que a lâmpada se fundiu quando premi o interruptor e me deixou às escuras: «Foi Deus que me deixou às escuras», pensei para comigo, «foi Deus». Um culpado tem forçosamente de existir se não puder ser eu… Um culpado, um culpado… Porque nos consola tanto a transmissão da culpa para um outro, a justificação das nossas frustrações?
Viver é simplesmente limpar o pó à tristeza, puxar o lustro à amargura, sacudir os trapos do sono, alinhar o vinco das estrelas em que pomos a sorte que dizemos faltar, dar graxa aos sapatos da resignação, sacudir as solas do conformismo à entrada da casa de luto que escolhemos ter. E pensar que de uma janela aberta poderia entrar luz! Mas como vencer o obstáculo das longas persianas?
Tantas contrariedades às nossas determinações! E há quem diga ser possível ser feliz!
Improbabilidades, coisas impossíveis… e ei-las sempre por aí a acontecer! A normalidade é então a anomalia repetida dos nossos imprevistos. O anormal é a excepção da estabilidade. Mas como poder estar estável se o Universo é um corpo em movimento?
Tanta raiva! Bonito serviço! Mais uma lâmpada fundida! No meu quarto de há dez anos parti um objecto que me era caro. No meu quarto de hoje parti o coração de quem me achava bom. E se eu te contasse que todo eu sou Inferno? Estou perdido como Dante, sem um Virigílio na vida que me guie. A verdade é essa. Olho em redor, contemplando, friamente, indiferentemente, as marcas de toda a destruição: uma tábua com pregos, uma tábua com pregos, uma tábua com pregos, tirar os pregos e gostar da tábua, assim, como ela está, esburacada e inútil, feia, arruinada. Comprazer-me com a ideia cruel de que essa tábua é o meu peito ou melhor, melhor, a ideia de que ela é o peito de um outro. Amar ser cruel como quem ama o amor, como quem ama uma mulher ou um homem. Imaginar atrocidades incríveis com um sorriso nos lábios.
O meu quarto de hoje: estou acompanhado como se estivesse só.
O meu quarto de há dez anos atrás, em que não era senão um sonho de um homem: Cacos de algo de que antes gostei e que agora não tem mais modo de me cativar.

Olhei então em redor: estava só como quem estava acompanhado.

Espelhei a minha fúria no vidro e vi-me monstruoso no reflexo da janela entreaberta. Escondi o rosto para não me olhar: acobardei-me com medo do monstro. Fechei-me em copas dentro do meu mundo e joguei espadas (para o defender) no mundo dos outros. Estou num jogo de cartas, somos quatro (como convém nos grandes jogos de cartas). Sentados na mesa quadrada ao centro do quarto pequeno, da esquerda para a direita: Eu, o Meu Deus, o Meu Demónio, Eu. Da direita para a esquerda: Eu, o Meu Demónio, o Meu Deus, Eu. Invariavelmente: Eu, Eu, Eu, Eu.

Copas, copas, corações destroçados; ouros, ouros, subornos à Ventura; espadas, espadas, os outros chacinados; paus, paus, a raiva que perdura…

E eu sempre perdendo na aventura, e eu sempre perdendo na aventura…
Essa derrota que vislumbro de longe (na distância inefável de dez longos anos) vê-se nas coisas mais simples.
Desejei ser sublime. Lembrei o mito de Deus: o mito que evapora como o vinho, o mito que sou eu…
No meu quarto de outrora: a lâmpada fundida, a solidão profunda, a vida triste… Gritei então original e divino: «Faça-se luz!» - e a luz fez-se. Depois sentei-me, dividi-me em dois, e a minha alma partiu-se…
No meu quarto de hoje abro a gaveta da mesa de cabeceira e tiro uma capa velha de cartão. Solto os elásticos que a mantinham fechada e tiro dela as folhas que continha. Aí estão guardadas com cuidado extremo essas colagens da alma que era minha. Mas juntá-la de novo era um esforço que não quero ter. Ela partiu-se, pronto!, não vale a pena falar mais no caso. Guardei por recordação e nostalgia essa relíquia dos restos que a compunham como um excêntrico zeloso dos seus antepassados guarda num frasco, embalsamados, os restos dos seus tetra-tetra-avós. É no fundo uma coisa de museu. No máximo é de contratar um historiador ou antropólogo que queira sacudir-lhe a poeira e traçar-lhe o retrato. Até lá está muito bem onde a deixei, colada, fechada e poeirenta. De que me serve uma alma se afinal, com ou sem ela, a vida é vazia e triste e lazarenta?
Oh, sim, no meu quarto de hoje, no meu quarto de outrora, o mesmo quarto, outro quarto, eu o mesmo de a criança de ontem, ou o homem de hoje que ainda parece um menino mas está velho e triste e se fez vil, que importa?!

Tudo não resulta em mais do que impressões num texto com caneta nova anotando memórias muito antigas, coisas vagas que se confundem no tempo, anotando impressões por simplesmente anotá-las ou por simples necessidade ridícula de compensar o meu enorme absurdo de existir, que não tem razões que o justifiquem nem precisa delas! Que me importa tudo isto afinal?
Porque a razão sucumbe ao medo que a devora, como sempre o Bem sucumbe ao Mal…
 

(Lisboa, 24/03/98)

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:45
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Sábado, 9 de Junho de 2007

Reminiscências do Absurdo dos Homens - Há uns Meses...

«Pinochet em Câmara Ardente» - Há uns meses, notícia dos media.


 

Logo a seguir, na TVI: «Explosao no Iraq mata 80 pessoas»

A reflexão possível:

 

 

TODOS OS PORCOS MORREM COMO HOMENS.

SÓ OS HOMENS MORREM COMO PORCOS...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 23:55
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Solidão - O Que Faz Falta…


 

A pior solidão é quando sentimos falta de nós próprios.
 
 
(Lisboa, 07/10/97)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:17
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Surrealismo por Correspondência

I

Georgette é a filha da vizinha
Do prédio em frente, no terceiro andar;
Por norma está no quarto ou na cozinha,
(Locais onde a mulher costuma estar);

É bonita; sempre penteada;
Não tem irmãos, nem cão, nem namorado;
Discute muitas vezes com a criada
Sobre a Política Interna do Guisado.

Fala muito; especialmente ao telefone.
(Talvez por ele busque um sobrenome…)
Gosta de gatos, planta girassóis.

É arrogante; tola, impertigada.
Costuma passear sempre alheada,
E pensar muito com os seus caracóis…

Lisboa, 25/05/97 – Lausanne, 03/09/04.

II

Georgette tem de permanentemente fazer permanente
Para poder continuar inteligente.

III

Mas eu amo Georgette.
E não me envergonho de amá-la.

Eu grito: Eu amo Georgette!
O meu grito: Eu amo Georgette!
Meu grito: Eu amo Georgette!
Magrito (como sou), amo Georgette.
Também ama Georgette?
Mas grite: Amo Georgette!
Magritte ama Georgette.
Georgette ama Magritte?
Georgette não ama Magritte.
Georgette não ama ninnguém.
Georgette não ama.
Ninguém ama ninguém.
Ninguém ama.
Nem mesmo Magritte amou.
Magritte pintou:

Le Mal du Pays.
Le Mal du Plat Pays.
Le Mal de la Belgique.
Le Mal:
La Belgique.

Magritte pintou o Inferno.

Que tem isso com amor?

Georgette…

IV

Georgette,
Georgette,
Georgette,

Três vezes o teu nome se repete
Pelas três ocasiões em que te vi.

Cansaço enorme de gostar de ti!

V

Omelete, Gay da Dinamarca,
Desenhou com sua espada a marca
Com que me defini.

Era um Z de Zorro e de Zapata.
O Z tocou-me.
O Gay gritou-lhe: – «Mata!». –
O aço rasgou-me a vil carcaça
E eu morri…

VI

Amar,
A mar,
A Marte.

Três zonas por que a mágoa se reparte…

VII

Estavas num terceiro andar a penteares-te;
Estavas num carreiro a andar, depois tombaste;
Estavas a dar, depois nunca mais daste;
Estavas-te a dar, mas logo t’acabaste.

VIII

– O que é tacabar?
– Do latim taco, tacas, tacare, tacaui, tacatum est;
Significa um pouco este delírio que alastra como a peste.

IX

– Como suportá-lo?
– Estar imóvel.
Ser como uma estaca.

Ser um móvel,
Ser objecto.
Ser estátua.

Admirem-me!
Venham ver-me!
Sou uma Obra de Arte!
Contemplem-me!
Contemplem-me!
Contemplem-me!

Olhem-me sempre:
Quero morrer com um enfarte de gente,
Quero morrer com um enfarte de gente,
Quero morrer com um enfarte de gente,
Quero morrer com um enfarte…

Se não doer,
Se não doer…

Se doer quero esquecer
Que já o tive ou senti.
Se doer prefiro ver
Que ele se dá em ti…

Tornei-me assim altruísta
Depois que te conheci…

X

D. Afonso V, O Africano,
Depois de pelejar por muitos anos,
(Como um leão),
Conquista:

Damasco,
Tangerina,
Bananos
E Feijão.

Depois foi plantar tudo
A uma herdade em Azeitão…

Sacrista!

XI

Onde enterrou ele o ouro da nação?

(Falo do miolo…)

XII

Não procuro que me gasto, mas aguardo uma visão…

(Fotografo a Solidão,
procuro a visão no rolo…)

XIII

A visão era Georgette:
Vinha com fato de artista.
Ela dançou, na revista,
E eu fiz de marionete…

Vida La Feria apresenta:
«P’ro que Jamais se Contenta,
Um Passatempo: O Regret».

XIV

Já o previa…
Tudo começou,
Era uma vez um dia…
Quando te vi, Georgette.

O mundo terminou…
E eu dormia!
C’est chouette!

XV

Estavas tu numa esplanada a beber um J.B.,
Eu estava numa barraca com a placa W.C.;
Pela porta da barraca, buraco da fechadura,
Pude ver, além das roupas, toda a tua formusura…


XVI

O fogo que me ateaste
(Foste tão cruel, Georgette!),
Queimou-me a pele quanto baste,
Fez do coração miettes…

Precisava de apagá-lo:
Mergulhei-me na retrete…

Melhor assim suportá-lo,
Melhor assim to forget…

XVII

O amor é uma merda.

XVIII

Eu vi-te Georgette,
A fazer de Gigante.
A fazeres-te de grande,
Com um coração pequeno.

Eu vi-te e vi em ti o medo:

Estavas a fazer d’ haste.
Estavas a fazer d’ haste.
Estavas a fazer d’ haste.

E eu a fazer de Rochedo…

XIX

Estamos todos.
Somos estagnação e lodo.

Somos paúl.
Devemos ser parados.

Pântano em si mesmo afundado,
Pântano em si mesmo afundado,
Pântano em si mesmo afundado…

XX

Sentir amor,
Estar cansado,
Sentir a dor,
Estar cansado…

– Aspira a dor!,
– Estou cansado,
– Inspira a dor,
– Estou cansado,
– Conspira a dor,
– Estou cansado,
– Respira a dor!,
– Estou cansado!

E tenho o pulmão parado,
E tenho o pulmão parado…

Tenho pena, tenho pena,
Mas não tenho melhor Fado…

XXI

Tenho pena, fico triste,
De saber que o amor existe
E de não saber usá-lo.
Mas depois de amar um pouco,
De sentir o que sentiste,
Surge-m’isto, como um sôco:
O amor em que consiste?
Em dormir. Dormi. Dormiste.
E depois despertei louco…

Melhor assim suportá-lo…


XXII

Mas Georgette,
Georgette,
Georgette,
Nome em que a mágoa se repete,

EU SOU ADAMASTOR,
EU SOU A DAMA ESTÔRE,
EU SOU A DANDYS’ STORE
EU…

E tu a dares-te uns ares de…
Se algum dia eu te amar terás de…

XXIII

Busco o resto de mim que se perdeu…
Amei.
Caí.

XXIV

Com’hei-d’amar se me desvaneci?

Joguei. Joguei. Joguei.
Joguei até me cansar.
Perdi.

XXV

Ser Livre!
Ser Doido!
Alucinar!

Delirare humanum est.

Errauit, erro, errabo.

XXVI

Enrabo quando posso,
Quando não, sou enrabado.

Ser Gay, ser Gay,
Tremendo fado!…

(Lamento da Monarquia)

XXVII

– Quando serei Gay?
– Já o és Duarte.
– E importante?
– Um dia.
Quando o português perder a sua parte
De reflexão sadia…

– Oh, Santa Isabel!,
Não fosses tu que seria!
– Aquilo que tu já és
Mas mais virgem que Maria…

XXVIII

Georgette,
Georgette,
Georgette,

Náusea, horror que se repete,
Tão negra foi a hora em que nasci!

XXIX

Náusea, horror que se repete…

XXX

TO BE
IS NOT
TO BE…

Lausanne, 03/09/04 – 09/09/04.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:15
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Sexta-feira, 8 de Junho de 2007

Hackers: Ninguém Está Seguro!

O Gume descobriu os verdadeiros responsáveis pelo colapso da nossa Economia:
 

 


 

Lusa apud Público: «"Hacker" diz que um terço das redes sem fios tem problemas de segurança». Um teste feito nas ruas de Lisboa por um “hacker” profissional «mostrou que cerca de um terço das redes de acesso à internet sem fios (“wireless”) detectadas tem problemas de segurança, entre as quais a do Partido Socialista (PS)».


 

Naturalmente, o profissional interrogado, que fez aquela descoberta por acaso, entre outras inocentes descobertas ocasionais, nunca tentou intencionalmente, a não ser a pedido (e a soldo) violar os códigos de segurança das mais diversas instituições. O Gume veio recuperar esta notícia de 04/06/07 porque entendeu necessário trazer à luz a razão mais do que explicada das dificuldades da nossa vida partidária que se estende, infelizmente, para o partido da nossa vida privada. O "hacker" é uma lombriga no organismo da nossa progressão tecnológica e dele têm vindo a resultar as maiores desgraças. Eles têm um plano para conquistar o mundo através da aniquilação da bios do nosso computador. Do caso particular e privado partem para os Governos, dos GOvernos partem para o Caos, o seu objectivo final. Esta notícia do Público isenta o nosso Governo de qualquer responsabilidade da ignóbil acusação de má gestão, uma vez que se tornou evidente que todas as suas boas acções foram pirateadas. Aos "hackers", que ousam quebrar os códigos que não lhes pertencem, lanço 3 maldições furibundas e, em honra deles, reclamo a restauração da pena de morte. Ordem e Progresso!, como reclamam os nossos quase-irmãos de além mar! Inteligência ou Sorte!, como exigia de forma tão viril o grito do IpiTanga!


 

Porque é claro, e o pirata maldoso vem prová-lo, que o português nasceu burro e com azar. Há que mudar algo e depressa. É preciso agir com urgência! O "hacker" está por aí! Ele faz tudo pelo seu computador: desvia ficheiros, grava conversas, fana meias do estendal, tira a chave da porta, espreita às janelas, rouba bifanas, surripia loiça. Se nem os nossos governantes se protegem, imaginai o povo! Aos abrigos minha gente! Aos abrigos e lestos! Que estes bandidos têm antenas e radares com que encontram tudo! E já publicitaram que têm armas de neutrões e de néon, importadas de além de outros planetas, com que pretendem, em actos terroristas, sugar os cérebros cansados dos mortais! E agórá... É o drama! É a tragédia! É o horror! Este blog já foi contaminado pelos virus Artur Albarran e Manuela Moura Guedes... Por motivo de segurança vai encerrar indefinidamente... A todos os blogonautas, um apelo urgente: Não pensem duas vezes (não há tempo!, não há tempo!) A sério, é consigo!, sim, você! Está a ouvir-me? Desligue já o seu computador!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 19:36
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A Linha do Tempo:


 

Não existe Passado nem Futuro, apenas um Presente Interminável.


 

(Lisboa, 15/05/97)


 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:15
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Outra Insónia

Acordo do sono mal dormido
E vou à janela.
Nada se distingue no escuro
Senão a silhueta de um poste sem luz.
Está frio – Fecho a janela.
Se ao menos esta aragem
Pudesse refrescar-me toda alma! Mas
Sou tão soturno! Nada me seduz!
Tenho raiva às coisas e um terror da gripe –
Melhor será voltar ao leito
E sonhar, enfim, com a boa vida antes
Que me constipe!

Ah!, odeio esta consciência de falta de sono!
Odeio esta necessidade de sono para poder dormir!
Odeio a necessidade de ter de dormir!
Odeio qualquer necessidade!
Odeio a possibilidade de poder odiar!

Não quero anestésicos; soporíferos;
Não quero conselhos.
Não quero nada, absolutamente, que não implique o vazio
Da percepção de um corpo com movimento
Mas já sem alma que o justifique activo.
Não quero esta angústia que trago comigo:
Não quero senão a solidão de um convento.

Exijo um Confessionário.
Exijo um padre particular.
E a força interior, e o cutelo
Com que o possa esventrar.

Exijo alguém que me ouça e que se cale;
Alguém que possa vir pegar nas minhas mãos
Sem depois querer trepar ao meu pescoço;
Alguém que sare a minha Solidão
E as feridas do corpo.
.
Quero alguém que me empreste um ombro amigo
E não venha cobrar essa amizade;
Alguém que suporte por mim o castigo
Da minha Humanidade.

Pois ser Humano
É cada um conceber um Cristo
E por Ele dar a outra face,
Por Ele o Jardim das Oliveiras,
Por Ele conhecer Judas
E ser beijado por Judas,
E ser traído por Judas,
E blasfemado por Judas,
E flagelado por Judas,
E por Ele crucificado
(Depois de enforcado no tronco mais alto da maior figueira)
E morrer feliz com o grito triunfal de uma bondade possível,
Promessa de um lugar num Céu idealizado
Mas superior a qualquer ilusão:
Um Céu tão real, tão palpável,
Que seja mais do que um reflexo na água –
(A água da minha perdição)…

Mas ainda sem dormir.
Ainda sem ter os olhos pesados.
Levanto-me.
Visto o robe.
Calço os chinelos que não gosto de usar e que não sei onde tenho;
Avanço no quarto onde durmo mas que nunca conheci bem;
Vou até ao armário que abre para trás e não fecha bem as portas;
Escancaro-o.
Tiro de lá um qualquer objecto que descobri depois não ser tão necessário.
Afinal, procurava outra coisa –
Era Eu.
Era Eu!
Não o que fui,
Não o que sou,
Mas o que um dia poderei vir a ser.
Talvez por fazer parte do Futuro,
Eu,
Não me achei no armário.
Eu, não me achei no armário –
Que fique assente –
Levanto-me e escrevo:
«Eu…»

Mas de que serve assentar impressões, descobertas, realidades?
De que adianta justificar o Mundo?
Eu não existo mais por assenta-lo num papel pintado de tinta.
Eu não sou mais Homem por expressar num texto a minha Humanidade.
Nem sou menos Eu por não declarar a minha Individualidade.

Sou ou não sou
(Porque duvido também da existência)
Por ser ou não ser
E segundo apenas a circunstância possível de existir realmente
(Vivido e não sonhado)
Num determinado tempo num preciso espaço.
Sou decomposição de um sentimento
No que sinto de mim.
Sou inacção, preguiça, tédio, esgotamento físico da mente,
Aniquilação gradual das ideias.
Não me concebo por fora nem por dentro.
Não me imagino em nada de realização plena
Em nada que se conceba seriamente
E de que possa dizer-se à boca cheia:
«Gentes olhai a criatura! –
É o filho de Deus tentado p’la serpente
Que apesar da maldição de Eva
Vive e perdura! –

É o coração que palpita num corpo inundado de artérias!
É o espírito oriundo do Éden que abençou Homero e Shelley
E Camões e Goëthe
E Wilde e Pessoa,
E Hugo, Mallarmé
E Milton e Shakespeare
E Petrarca e Dante!
É a mão divina a descer sobre o corpo e a dizer-lhe que ande…

Mas não sou nada senão o desejo de sono
Que não tem modo possível de chegar.
Não sou nada para além de um Outono
Que apodrece os frutos mais belos do pomar.

Porque definho.
Porque abomino a inércia
Mas é com ela que vivo;
Porque desejo uma vontade minha
Uma música minha,
Uma luz que brilhe apenas para mim,
Que tenha origem na minha consciência,
Sem ter nada, no entanto, que deseje; assim,
Destas horas de tédio em que me vejo absorto,
Em jeito de penitência,
Concebo para a minha Humanidade
O suplício da lança, da chibata e da cruz,
Antes, durante e depois do Calvário.

Assim, Eu,
Objecto material da minha insónia,
Declaro-me Sobre-Humano
Por oferecer aos Homens este esboço de luz: (…)

Eu,
Que não sei onde estou,
Que não me conheço,
Que já não tenho ambições para a vida
Nem vida que ambicionar,
Aqui,
No escuro e no frio do meu quarto,
Por onde vagueio em círculos,
I n t e r m i n a v e l m e n t e
Estipulo deliberações urgentes para se operar a matança:

Conciliemo-nos:

Agarraremos o boi pelos cornos.
Atar-lhe-emos as patas.
Prendê-lo-emos a uma mesa de pedra (coberta com uma toalha de linho)
E diremos com pompa: «É um altar!».
Tomaremos nas mãos os Eternos Punhais afiados pelos anos;
Mataremos o boi –
Dirá uma voz de dentro: «Matámos a dor!»
Dirá uma voz de fora: «É tarde! Está na hora! Acordar!»

Há insónia afinal até enquanto durmo.
O homem que me sonha, quando irá despertar?

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:36
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Quinta-feira, 7 de Junho de 2007

Desta Gestão... Ao Futuro... - O Gume resolve um Mistério

O Gume no Futuro - Ano 2075 d.c.:
 

 


 

Mensagem transmitida por rede pirata, capturada, por acaso, pelo Gume, da responsabilidade dos auto-intitulados «Sobreviventes do Fim»:
 


 

«...Saramago estava errado. O que sobrou nem nos deu para uma jangada. O mar é salgado e o horizonte é negro. Já comemos as vestes. Este lugar é incerto e transmitimos a pilhas e antenas de máquinas que sobraram nem sabemos de quê. Depressa vão acabar, como tudo acaba. Esperamos; mas, se esperamos, não nos entendemos nem ninguém nos acha ou achará aqui. Estamos perdidos e tudo está perdido. Sobrevivemos ao Fim, mas ao Fim nada sobrevive. Quem nos ouve agora há-de seguir-nos. Para onde vamos? Não sabemos. Mas não é essa questão que nos 'tormenta. Só um enigma há-de tirar-nos o sono, mesmo no fundo cemitério destas águas: A Hecatombe foi há dias, num assombro - Mas... Para onde foi Portugal?»

Aqui o sinal morreu - Fim de Transmissão.
 

Dias depois, o Gume resolveu o mistério, por meio desta imagem recolhida por um dos seus satélites (este chamava-se António):
 

 
 
Desta gestão, meus amigos, não nos resta senão este Futuro. Nada temais. O Mundo não notará que falta Portugal...
 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:49
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Surpresa, Surpresa, Surpresa, Surpresa...

E pensar que é a dor que nos torna Humanos!
 

 


 

(Lisboa, 01/05/97)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:45
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Acordo do meu Sonho e Não Sou Nada [1]

Num Reino mais distante que o Pensado,
P’r’álém das fronteiras do Impossível,
Vivia um soberano atormentado
Por ânsias de Infinto e Imperecível;

Passava horas sem pegar no Sono,
Cismando planos p’r’álcançar o Vácuo;
Mas, quanto mais se punha ao Abandono,
Mais queimava em si um Fogo-Fátuo.

Queria ser etéreo, inatingível,
Domar o Caos e consagrá-lo ao Cosmos,
Vergar os sentimentos tão a esmo;

E transformou-se em sombra imperceptível,
Sopro de um homem caminhando a rojos,
Quixote encoberto de si mesmo…

Lisboa, 28/08/01
 


[1] Nota do Autor: Verso de Florbela Espanca.
Para a Prof. Isabel Almeida, minha professora de História em 94-95. (Não o verso de Florbela Espanca, que não posso dar por não me pertencer, mas o poema). Nunca cheguei a agradecer-lhe aquele antigo poema… Proponho assim este como paga. O último verso, há-de reconhcê-lo como seu. Eu, em vez disso, reconheço-o como sendo "eu próprio"…
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:29
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Dúvida de Consumidor

«O laboratório está fechado para férias – de 6 a 24 de Agosto» - E a vida? Quando fecha para férias? – De preferência sem data fixa…

 

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:16
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Sugestão

Já que todos os métodos falharam
(Mesmo aqueles que julgámos mais absurdos),
Vamos ser quais barcos que encalharam
Em rochedos p’ra lá do fim do Mundo;

Já que não resulta o comprimido
Ou a droga simples do café,
Dêmos, do corpo, o que resta, por vendido
E desmontemos o velho estaminé;

Já que a carne está p’ra lá dos ossos
E que os ossos estão além da pele,
Enlacemos cordas aos pescoços
E subamos por eles!

Já que cansam demais as dores da vida
E não há vidas, aí, para trocar,
Vamos injectar insecticida
Na artéria pulmonar;

E, se mesmo assim, após tantos projectos,
A Morte, a própria Morte, não chegar…
Partilhamos a dor com os objectos,
E bebemos o spleen em qualquer bar?[1]

Lisboa, 20/08/01

II

E Ela um dia há-de vir,
E Ela um dia há-de estar
Aqui mesmo, onde respiro,
Seja qual for o lugar…

Lausanne, 21/09/04

[1] Nota do Autor: Versão Alternativa: Partilhemos a dor com os objectos/ (e) bebamos do spleen em qualquer bar.
O conjuntivo, denuncinado a certeza, carrega afinal tanta dúvida quanto a forma interrogativa acima escolhida. De facto, para qualquer dos casos, é necessário um consenso, e a minha esquizofrenia não acha modo de estabelecer um quorum. Cf. a política nacional e internaconal para melhor compreensão deste problema.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 02:55
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Já Chegámos à Madeira! - Capítulo I

PORTUGUESAS E PORTUGUESES: ALERTA! -

De acordo com informação da Lusa (06/06/07), o Tribunal Administrativo e Fiscal do Funchal - segundo o Gume apurou, de forma absolutamente imparcial, democrática, independente e idónea, - reconheceu ilegitimidade nas acusações apresentadas pelo Governo Central (do Continente) e obriga, em consequência, «o Ministério das Finanças a devolver 24,6 milhões de euros em fundos congelados à Madeira, em relação aos limites de endividamento da região».

O grande Tio "Adalberto", em traje habitual carnavalesco, marca preponderante da sua burlesca personalidade, veio já reajir. O Gume, como sempre em cima do acontecimento, registou:

- Eu baim vius disss, qu'eist fórróbódó ãind' ía ácábár male pêr' eisss guiuvâirniu die iestrebâriâ! Âgoura, mêis mnâinus da mãmã diu côntnent, pânham-se bâim â páu, pâurque já falta pâuquiu, nótãe bâim iu que vius dâigu, pêra â Mâdâir cânquistár Pâurtiugál!


 

AH, MEUS AMIGOS, O FUTURO É NEGRO! TUDO SE ENGUIÇA! PELE E CARNE NOS FUGIRAM COM O SUSTO! SÓ NOS RESTA REZAR...
 
 
 
 
 
 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 20:18
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Imperfeições

Somos carne, é certo, e da mais vil,
Em busca da matéria com que cumpra
O desejo mais torpe, o tom servil
Da revolta das células que a juntam.

Somos tábuas, boiando, de navios,
Ou dispostas a arder numa fogueira,
E intensamente somos, existimos,
Até que o fogo torne cinza a lenha.

Restos de ser, disposições de estar,
São a tua e a minha triste sorte
Que suportamos num esforço largo e fútil.

E agora é a fúria, o praguejar,
Que ficam vivos entre nós e a Morte;
E da vida, nada, vão retrato inútil…

Lisboa, 06/02/00

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 15:05
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As Palavras e O Peso...:

Não há palavras mais difíceis nem palavras mais fáceis. Há simplesmente palavras mais completas do que outras.
 


 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:50
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Nas Bocas do Mundo

I

Disseram que havia morte,
Aí, onde moravas.
Disseram que passara um vulto pelas ruas
E que voara, depressa, sobre as casas,
Uma bruxa horrenda que devorara a lua.

Disseram ver o céu a transcender-se
E a pousar à noite nos quintais –
Era o Anjo de Deus a arrepender-se
De invejar a sorte dos mortais.

Disseram que o Olimpo rejeitara
As três irmãs, escravas do Destino,
Condenadas à pena do tear;
E elas, coitadas,[1] lá se resignavam
A estar num canto, com o seu ar franzino,
Mudas, imóveis, a fiar,
Esperando que rompesse o que fiavam.

Disseram que choravas junto ao cais
Com soluços de abalar o Mundo.
Não chores, amor, não chores mais:
Se puseres no peito aquela tábua
Não saberás mais o que é a mágoa
Não te moldarão mais como chumbo!

Lisboa, 19/09/99

II

Nas bocas do Mundo anda a notícia da Morte.
Parece haver aí um cavaleiro
Com uma foice dourada e um portentoso porte
Colhendo em vez do trigo
O próprio ceifeiro.

Nas bocas do Mundo anda o horror do jazigo.
Parece haver aí uma caverna
Com um bafo a azedo e um frio inimigo
Que sopra sobre a vida
E lhe apaga a lanterna.

Nas bocas do Mundo anda um agoiro de ferida.
Parece haver aí um precipício
Com um monstro hediondo de fome incontida
Comendo, (com garras tão peludas!)
Os mortais, em bulício!

Nas bocas do Mundo anda o tormento de Judas:
Parece haver aí a consciência
(Com espasmos, orações, súplicas e juras)
De um terrível erro
Sem remédio ou clemência...

Oh!, Talvez se redima a alma na fervura
– A fogueira padres!
Ah! Talvez se corrija pelo fogo a essência
– Ardes ou não ardes?
Uh! Talvez ainda me retrate o enterro!
– Mas há uns vermes alarves que me metem medo...
Há uns vermes alarves que me metem medo
Nem me servem grades...

Arre! Mando as bocas do Mundo p´r’ó degredo –
Que o pesadelo da conjectura acabe!

Lisboa, 12/01/02
 


[1] Nota do Crítico: Versão alternativa: Sentadas. Esta versão, originalmente rasurada pelo autor, foi depois reescrita a caneta vermelha. O manuscrito denuncia ainda uma mancha de chá. Provando-se que o autor tomava refeições em concomitância com a redacção dos seus poemas, muito pode ser explicado. O «Manifesto Anti-Panças», por exemplo, contrariando a originária interpretação de que seria uma paródia da paródia de Almada, vem, à luz deste facto, revelar que o autor sofria, severamente, do mal de indigestão. (Vide biografia).
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:46
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Terça-feira, 5 de Junho de 2007

Do Relatório ao Sanatório - Grandes Males, Grandes Remédios, e Uma Pequena Homenagem...

In Diário da República, apud Público, 05/06/07:

 

O Tribunal Constitucional (TC) detectou "ilegalidades e irregularidades" nas contas anuais (referentes a 2004) dos partidos.~

P.S. (diligentemente acompanhado pelo PSD): «Falta de controlo interno sobre as acções das estruturas do partido ou de registo de quotas e das receitas do "produto da actividade de angariaçãoo de fundos"».

PSD: «Falta de extractos bancários e de cartões de crédito e "incertezas quanto a um saldo no montante de 3.160.713 euros, que corresponde ao valor de subsí­dios atribuídos às distritais, concelhias e secções».
 

CDS-PP: «Falhas ao controlo das acções desenvolvidas pelas estruturas, a falta de extractos de conta e de cartõees de crédito, listagens deficientes quanto às listas de imóveis propriedade do partido, erros - o itálico é do Gume - no depósito de donativos nas contas destinadas a esse fim, entre outros problemas» - ligeiros e por isso não dignos de grande nota, claro está...
 

PCP: «Não reportou a globalidade do funcionamento "corrente e promocional" das estruturas do partido, não registou todas as receitas de angariação de fundos, com a identificação e data necessários, diferenças de verbas de património, "registado a valor de mercado e não ao custo de aquisição"».

 
Bloco de Esquerda: «Nem todos os donativos foram depositados em contas bancárias exclusivamente destinadas ao efeito: faltou "controlo interno" das acções de todas as estruturas do partido e registaram-se diferenças entre a lista de acções de angariação de fundos e os registos contabilísticos do partido».
 

Parece-me claro que os membros destes partidos políticos e, subsequentemente, os nossos quase-governantes e deputados, são a face quase-visível (ainda que não na generalidade, numa proporção assustadora) da enorme taxa de insucesso escolar no ensino da Matemática. Urge por isso uma reforma substancial do ensino desta disciplina, de modo a que estes diligentes cavalheiros e estas airosas damas dos círculos partidários não mais se vejam a braços com o Papão dos Números e consigam acertar as contas. Conheço uma boa porção de bons professores de matemática que está no desemprego e pode trazer grandes melhorias à apreensão cognitiva dos números e suas peculiares vicissitudes aos nossos confusos co-cidadãos das rodas partidárias, em particular aos tesoureiros e mandões.
 

É também em consideração a esta conjuntura que anuncio com alegria indisfarçada que uma boa amiga, também ela matemática competente, está prestes a lançar para as poeirentas mas indispensáveis prateleiras do conhecimento humano uma tese de Mestrado cujo objecto de estudo minucioso e iluminado é, precisamente, O RACIOCÍNIO PROPORCIONAL DOS ALUNOS DO 2.º CICLO DO ENSINO BÁSICO - de Matemática, claro está.
 

E porquê o Ensino Básico? Porque esta minha amiga, com grande perspicácia e sentido de análise crítica (como é de esperar num bom matemático) percebeu (sem grandes dificuldades, confessou-me, aliás, num café que tomámos há uns dias na esplanada da Graça) que este teria de ser forçosamente o limite de dificuldade a considerar, tendo em conta o nível intelectual e a capacidade de compreensão e execução - a chamada relação competência-performance - dos ilustres supra-mencionados.
 

E, enquanto ansiosamente aguardamos por esta lufada de ar fresco na crise computacional portuguesa (que tanto tem prejudicado a tesouraria particular e geral), deixo, como remédio provisório (ao bom estilo português do desenrasca), esta solução extraordinária inspirada numa seca australiana (as fotos foram-nos gentilmente enviadas pela Reuters e por António, respectivamente à ordem de aparição):
 

 


Pode ser provisório; mas este pontapé australiano naquela apatia imberbe, parece-me a mim, é providencial. Abençoado elixir de Sanatório! E esperneia mais povo meu! Ripa na Rapaqueca da placidez geral! Estas contas até eu com a minha barriguinha, não é Perestrelo?

 

Comenta tu o resto de onde estejas, cá te ouviremos...
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 20:17
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Pela Estrada Fora…1

Cap. I - O PRINCÍPIO:

Estou a viajar no meu carro que não sei guiar,
Ao longo de uma estrada nocturna,
Com destino ainda por estabelecer.

Estou onde não sei se quero estar.
A paisagem é mais bela quando não é diurna.
A noite é um terrível que inicia o prazer.

Não reparo nos sinais de trânsito;
Não olho para as tabuletas que,
Iluminadas pelos faróis,
Assinalam persistentemente os nomes de localidades que não conheço
E onde nada me interessa...

Tudo por onde passo tem a cativante Felicidade do Desconhecido...

O que fazer? Passar!
Sentir a atracção do Indefinido!

Cap. II – A EXPLICAÇÃO:

Atravesso paisagens monótonas de cimento,
Campos com árvores e animais de pasto,
Casas isoladas onde não sei se alguém mora,
E nunca paro,
E não olho quase,
E não aprecio
Porque não quero,
Porque o amargo de boca que me deixou a vida
Não me deixou alguma vez apreciar.

Por isso escolhi não provar dos seus frutos…

E não olho.
Não paro.
Não contemplo.

Ao longe,
Em frente,
Vê-se apenas estrada
Diminuindo mais e mais no seu ponto de fuga,
Fechando-se à minha frente,
Confundindo-se com um céu sem côr.
O conta-quilómetros que não sei ler
Acusa progressivamente a distância percorrida;
Mas na verdade,
Não tenho um modo efectivo de calcular a distância;
E que lucro, mesmo que soubesse medi-la,
Me traria esse cálculo?

Por isto abomino a matemática:
As suas resoluções claras,
As suas lógicas bem medidas,
As suas verdades científicas;
Elas
Ocultam a verdade maior de não haver Ciência
Ou Lógica
Ou Resoluções,
E de existir apenas a dúvida.

As Ciências
São uma outra forma de religião.
São uma fé que pomos nas coisas que nos rodeiam,
Nas coisas que imaginamos,
Para sossegar
Um curioso coração inquieto.

A Lógica
É uma alucinação da inteligência,
Uma paternalização do ego,
Estabelecida para afirmar uma ordem
Onde ela por si mesma
Não pode ser possível.

A Resolução
É uma afirmação após um cálculo
Que surgiu de um Sistema imaginado
E, por isso,
Como efectividade,
Irreal.

Por isto,
Apago esses três monstros da criação sistemática
Da memória das coisas que fazem parte de mim,
E sigo em frente, na estrada,
Sem certezas, só bruma,
E uma falta de noção das direcções:

Norte, Sul, Princípio, Fim…

Onde estão estes deuses das nossas Sensações?
Onde os contornos de nós, monstros de espuma?

Algures em frente;
Algures no inexplorado;
Algures por aí.

Assim,
Eu sigo em frente,
E nunca paro;
Porque é em frente que está
(Sei, pouco claro)
O caminho que me faz progredir.

Assim,
Sou claramente
Pouco claro.
Mas é em frente que está
(Além do breu das sensações com as quais me deparo)
A ideia de luz que me vai definir.

Assim,
Primo no pedal
Acelerador:

(…)

Vozes de Mim: Antecipo o mal
Antecipo a dor.

(…)



Cap. III - DIVAGAÇÃO:

No fim quero a paz.

(Vejo o fim ao fundo
Um mover ao longe)

Que monstro ma traz?

(Tem um ar imundo,
Um capuz de monge)

Virão coisas más?

(Não há muito tempo
Sentia sossego)

Será que existia?

(Mas do céu cinzento
Caiu um bruxedo)

Eu então dormia…



(Primo no pedal
Acelerador.
Antecipo o mal
Antecipo a dor).



INTERLÚDIO:


Vozes da Noite: De que foges fugitivo?
Porque segues nessa estrada?
Que deus te pôs de fugida?

Foi o Carnaval?
Foi o Amor?

Vozes de Mim: Isso de que falas é a Vida…



Cap. IV - O INFINITO:

E aquela distância antiga,
Já bem mais perto de mim,
Dá lugar a uma outra
Que eu jamais percorri.

(…)

(Primo no pedal
Acelerador.
Antecipo o mal
Antecipo a dor).

(…)

Não sei se algum dia poderei conhecê-la…

(…)

(Primo no pedal
Acelerador.
Antecipo o mal
Antecipo a dor).



Cap. V - REVELAÇÃO:

Porque a distância a percorrer é infinita
Mas é finita a nossa capacidade de correr por ela.



(…)

(Primo no pedal
Que me atira em frente.
Ser-me-à fatal?
Ficarei contente?)

(…)

(Primo no pedal
Acelerador.
Antecipo o mal…)

(…)

Cap. VI - PERCURSO:

Deixo árvores e casas para trás.
Abro a janela.

(…)

(E quero paz, quero paz!
Onde está ela?!)

(…)

Passar pelas coisas, passar por mim o vento.
Avançar esquecendo a velocidade.
Deixar um pouco de mim no que contemplo.
Fazer parte de tudo… Liberdade!



Cap. VII - A VONTADE E O CHAMAMENTO:

Abstrair-me.
Sentir as coisas todas como sendo elas.
Depender o eu ser desta viagem.

Reconstruir-me.
Ser um Mapa-Mundo: Lisboa, Paris, Bruxelas.
Viver por dentro, nunca estar à margem.

Sentir-me
Inteiramente
Nesta estrada.
Todo eu ser percurso.

Confundir-me
Com tudo
E por isso
Ser nada.

Ser um outro animal:
Cavalo, tigre, urso…

Ser o motor do meu automóvel.
Banhar-me em óleo, chupar combustível:

Vrrrrrrrrruuuuuuuum!
Vrrrrrrrrruuuuuuuum!
Vrrrrrrrrruuuuuuuum!

Fios hidráulicos, cabos, porcas, chapa, rodas, parafusos!
Coisas do meu corpo, o seu suporte móvel!
Maravilhas eternas do Incrível!
São vocês a carne, vocês dão-me uso!

Ah!, metafísica!
O som do motor cola-se-me nos ouvidos!
O rugido do coração do meu carro ecoa pela noite acordando os mortos!

Hei lá!
Hei lá!
Hei lá!

Vamos irmãos!
Acordai do Sonho, da Calma, da Exaustão!
Sou eu que passo o meu motor pelos campos!
Há uma festa cá fora!
É a vida que promete esgotar-se na vida
E renovar-se na noite que tudo renova!

Restaurai as mentes!
Ressuscitai os corpos!

Vrrrrrrrrruuuuuuuum!
Vrrrrrrrrruuuuuuuum!,

Hei lá!,

Acordai!
Acordai!
Porque dormis ainda?

Eu sigo nesta estrada até não poder mais!
O meu querer corre-la nunca finda!

O que esperais?!
Que esperais??!
Segui comigo, irmãos!,
Segui comigo!!

Que não vos pare o chão,
Que não vos prenda o jazigo!

Tenho mais a ter da vida do que o caminho que sigo!,
Tenho mais a ter da vida do que o caminho que sigo!,
Tenho mais a ter da vida…



Cap. VIII - O OBSTÁCULO:

Espera… Abranda um pouco…
Vejo agora um cruzamento, logo a seguir a um troço.

Há uma linha de comboios guardada com cancela.
A viagem
Trouxe-me a um desses sítios sem espaço realmente efectivo,
Por não vir nunca mencionado nos mapas:

Que tenha gente feliz que possa ensinar-me a sê-lo!

Quem sabe,
Fora do alcance das noções e medições cartográficas,
Esteja também fora do alcance das contrariedades da vida,
E das desilusões,
E dos desgostos,
E das insónias,
E das frustrações inerentes a todas as circunstâncias da Natureza Humana.

Olho em frente.
Assalto de pé firme no acelerador
Os ferros cinzentos da passagem de nível.

Por um cruel infortunio das circunstâncias
(Aquelas que nos perseguem mesmo nas localidades não cartografadas),
A minha hora de passagem
Não conseguiu coincidir
Com a hora de passagem do comboio.

As circunstâncias têm o condão de operar
Contrariamente às nossas expectativas:

Não esperes.

Por conhecer nesta máxima a sua sabedoria,
Eu nunca espero no caminho que sigo
E vou sempre em frente.



Cap. IX - A CONSCIÊNCIA:

As curvas são a diversão
Que te leva ao antigo caminho.

E eu,
De antigo,
Quero só a lembrança
De ter sido novo
E não conhecer nada
E de não precisar de horas para existir.

Hoje, que ganhei consciência,
Desejo apenas o desconhecido
Por onde passarei só uma vez:

Se não repetir experiências,
Como posso dizer que sei verdadeiramente das coisas?

Pode ter sido tudo um grande sonho
Como se nunca tivesse deixado de dormir...

E sigo em frente,
E nunca paro
Porque é em frente que está
(Sei, pouco claro)
O caminho que me faz progredir.



Em frente está o sonho prometido
No consolo do sono mais cruel.

Em frente está a sombra do abrigo,
O néctar que põe de parte o fel.

Em frente está o ar mais respirável,
Está a promessa de abrigo;
Está o Olimpo, Sublime e Inalcançável,
Está a escrita –

(Sublimação da desdita
Que trago sempre comigo).

Em frente a promessa de passagem
Além da porta interdita.

(Em frente o perigo…)



Por isso,
Vou em frente,
Em frente,
Ditoso sigo.

Estou feliz porque não estou aqui.
Estou feliz porque não estou aqui.
Estou feliz porque apaguei o real
Cortei assim a raiz do mal
Cortei assim a raiz do mal
Cortei assim a raiz do mal
Cortei assim…

Sigo.



Último Capítulo - DESPERTAR:

As luzes do meu carro
(Que não tenho)
Confundem-se com todas
As luzes da noite.
Caso estranho!, O cinzento de mim…

(Tanto pó em mim, tantos ácaros!,
Tanto pó em mim, tantos ácaros!,
Usem-me!, usem-me!,
Tirem-me da prateleira!
Usem-me!, usem-me!,
Tirem-me da prateleira!)

E o cinzento de mim…

(Mas usem-me!, usem-me!,
Que não me sinto ser!,
Usem-me!, usem-me!,
Que não me sinto ser!
E se eu voltar a mim
E não me conhecer?!
E se eu voltar a mim…)

Sim. O cinzento de mim
Confunde-se com este céu cinzento –

(No céu sou eu,
É o que eu tenho dentro,
No céu sou eu,
É o que eu tenho dentro,
No céu sou eu…)

Espera;
Pára no semáforo…
Como escrevo e guio ao mesmo tempo?


10/01/02 – 29/04/04

(…)

(De Lisboa onde ainda bate o Sol, ao decadente cinzento de Bruxelas)…

1 Nota do Autor: A metáfora tem já escamas de tão velha: A estrada é a vida, evidentemente...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:48
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Carta para Correio Azul - (Parca Adaptação de um Poema de Eugénio de Andrade)[1]

É urgente o amor!
É urgente um barco no mar!
É urgente dar-lhe asas de condor
E pô-las a voar!

É urgente destruir certas palavras,
Ódio, Solidão e Crueldade,
Que se atiram de pontas aguçadas,
Prontas a matar a Liberdade!

É urgente fazer do peito um ninho
E multiplicar beijos e searas!
É urgente descobrir rosas e risos
E desabrochar as manhãs claras!

É urgente cultivar a alegria
E não deixar a planta esmorecer!
É urgente uma flor nas nossas vidas!
É urgente o amor…permanecer!!!


Lisboa, 17/01/98

[1] Nota do Autor: De facto, é impressionante o efeito de uma parca adaptação

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:33
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Α – Ωmem:

Não somos nada, não podemos nada, mas fazemos parte de tudo:

Somos o princípio e o fim do Mundo.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:21
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«A Mancha Humana»

O Homem? O ser perfeito manchado de imperfeições…

 
 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:07
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Segunda-feira, 4 de Junho de 2007

Blogovisão do Absurdo - Telaéjornal - Conferência de Imprensa - Entrevistas

JORNALISTA 1 (devidamente credenciado com aval do Estado): Senhor Ministro, hoje, 04-06-2007, difundidas pela agencia Lusa, começaram a circular noticias sobre uma grande medida do governo no que respeita à promoção além fronteiras do nosso país. É finalmente agora que vamos reduzir o défice e relançar a nossa Economia?
J.S.: Com certeza que sim. Repare: Como sabe estamos num período de contenção, e portanto não estamos para loucuras. Por isso começámos desde já por promover uma linha de crédito ao turismo de 120 milhões de euros através da assinatura de diversos protocolos bancários visando a abertura de uma linha de crédito (é importante, creio, realçar que a linha é de crédito) do valor que indiquei para apoiar "projectos turísticos viáveis e que contribuam para os objectivos do Plano Estratégico Nacional do Turismo (PENT)". E estamos tão confiantes e tão entusiasmados com a ideia, que a cerimónia de assinatura dos protocolos com 15 instituições bancárias será presidida pelo ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho, e realiza-se já na próxima terça-feira. Não é maravilhoso?
JORNALISTA 2: Bom, mas Senhor Ministro, como pode uma linha de crédito promover o progresso do país e o relançar da nossa Economia num plano internacional?
J.S.: Minha senhora, é muito simples: o Estado é um negócio. Se há linha de crédito estamos a falar de um empréstimo. Se há empréstimo há juros. Se há juros, nós ganhamos. Nada mais linear. É upa! upa!
JORNALISTA 2: Perdão? Mas, bom, Senhor Ministro, a linha de crédito vai ser em favor do Estado, isto é, é o Estado quem contrai o empréstimo e não quem o concede. Não estará eventualmente, com esta medida, a aumentar o passivo? Nesse caso o «upa, upa» como lhe chama, esse big boom económico poderá estar a causar um desiquilíbrio na economia, não é verdade?
J.S.: Bom, começo a distinguir alguma impertinência nas suas observações. Mas sobre isto devo dizer o seguinte: Independentemente do sentido do crédito, o que importa é que tomámos medidas. O povo precisa de ver um Estado de acção. O resultado vai ser mau invariavelmente. Que tenha então movimento. Quanto ao equlíbrio de que fala com tanto sofisma, devo dizer que o equilíbrio é pernicioso à democracia e apela a um sistema de regras que restringe, que sufoca a liberdade de expressão. E essa liberdade de expressão é, como sabe, uma das premissas substanciais de defesa do meu Governo. Creio aliás ter deixado isso bem claro no exemplo que dei ao vir apoiar aquele professor meia-leca que achou divertido fazer, em hora de convívio, na sala de professores, uma piadita fácil à legitimidade da minha licenciatura. Naturalmente ficará com a carreira congelada e terá uma reforma a pão e água. Mas eu vim apoiá-lo! Outro assunto.

(Muitos gritos, muitos braços no ar)

JORNALISTA 3: Senhor Ministro!
JORNALISTA 4: Senhor Ministro!
JORNALISTA 5: Aqui, aqui, Senhor Ministro!
J.S.: Aí, a senhora de azul, qual é a sua questão?
JORNALISTA 9: Bom, Senhor Ministro, a Lusa também divulgou hoje, 04-06-2007, que os professores ameaçam entupir os tribunais com uma contestação generalizada ao concurso de titular, que poderá constituir-se por milhares de processos. O que tem a dizer sobre isto?
J.S.: Bom, minha senhora. Vejo já que escolhi mal e que a senhora é também uma dissidente. Tenho de fazer mais visitas à Madeira e aprender mais com o Alberto João. Mas por agora, para si, tenho só esta resposta, que é muito simples:


 


Está a ver? É o novo DezInTopX10000. Traz dez processos para o cimo da pasta de arquivo a uma velcodade de 500 km por hora, atingindo os 10000 volts por segundo. Uma beleza!

TODOS: Ena!

J.S.: Efectivamente, nada melhor! E em caso de dificuldades no processo de restabelecimento das vias respiratórias da canalização processual, recorremos ao Crédito. Há mais perguntas?
JORNALISTA 6: Senhor Ministro! ...
JORNALISTA 7: Senhor Minstro! ...
JORNALISTA 8: Senhor Ministro!...
J.S.: Muito bem. Está encerrada a conferència...


 

 


 

(...)


 

 


 

... Por tudo isto, cautela, que um político sabe-as todas, caro blogoespectador! Olho vivo!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 22:55
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Diário de um Criminoso - «Do Relatório do Meu Caso de Polícia»:


O ódio tem razões que só se entendem p'las cicatrizes do corpo.

 

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:45
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Alucinações

I

Foi no Chiado que eu te vi, ò diva!,
Altiva, má, segura, confiada;
Atrás de ti corria a comitiva,
E tu, tão presumida, tão mimada!

Ardeu em mim a febre, a inquietação,
Senti que me fremia um tremor bruto;
Desceu, enfim, sobre o meu coração,
O frio da morte, o tenebroso luto!

Perdi o chão andando e, num momento,
Senti no peito um estrondo e em plena rua
Saltou-me o coração descompassado!

O caso, de tão raro, é um portento!
Por um simples olhar, por  graça tua,
Um coração jaz morto no Chiado…

Lisboa, 08/04/00

II

Felizmente passou, junto a uma grua,
Um casal de agentes da polícia,
Trajado com o máximo cuidado.

Nas suas botas limpas de perua
(Tão próprias da brigada e da milícia),
Reflectiu-se um lindo céu estrelado.

Recebi de chapa a luz da lua
Que me acordou de cena tão suspícia,
E me ensinou que eu estava embriagado -

Alucinei-me, claro, em sub-reptícia!
Esse delírio é que me dava a pua…
O álcool sempre foi um bom diabo!

Lisboa, 02/01/08

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:23
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Domingo, 3 de Junho de 2007

Amigos Para Siempre...

In Publico: 03-06-2007 - 14:26Abraço em Havana O Presidente cubano, Fidel Castro, abraça-se ao líder do Partido Comunista do Vietname, Nong Duc Manh, numa fotografia tirada ontem em Havana. Castro apareceu em imagens televisivas transmitidas pela televisão de Cuba, as primeiras nos últimos quatro meses. Foto: Juventud Rebelde/Reuters.

A Imprensa é bela porque os seus vários braços se estendem, alargam e complementam. A Reuters fotografou, o Publico noticiou e o Gume registou o que mais ninguém viu ou ouviu, porque o Gume está equipado com olhos de visão raioX e ouvidos ultra-sónicos. E, enquanto os dois hermanos sorriam para a fotografia, era esta a conversa que mantinham (às vezes por sinais atrás das costas):

(Ao fundo, em música ambiente, o Carreras e a Sarah Brightman cantam a área dos Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996)

FIDEL: Ai Manh, cuidadito con los dedos en terrenos peligrosos que me dan calafrios!
MANH: Anda lá, não te faças rogado... Tens feito isto aos cubanos desde 1959. Eu sei que tu gostas!
FIDEL: Si, pero por Dios, no con la tele por aqui, Nong, no con la tele!
MANH: Oh Fidel, tem juízo, tu és dono da TV aqui em Cuba. E o Chaves também já está a seguir-te o exemplo lá na Venezuela ao encerrar a única rádio livre de Caracas. Estava a estranhar-lhe o toque de democracia ao deixar que aqueles arruaceiros se mantivessem em antena!
FIDEL: Ai Manh, caramba, que tu sabes como hablar a un ditador! Estoy lleno de tremuras! Por la Santa Virgine, quando termina esta maldita session para que subamos a mis aposentos?!
MANH: Tem paciência e sorri. Sabes como as câmaras gostam de sorrisos. Entretanto temos de combinar um copo numa boite local para discutir uns pormenores de somenos sobre a gloriosa expansão do comunismo. É tempo de fazermos da fama proveito e começarmos realmente a comer criancinhas. E depois damos um ou dois pezinhos de dança com dois dedos de Baccardi a apimentar a coisa. O que achas meu doce?
FIDEL: Uhhhh, Manh, que marotito! Mi pones piel de galina depenada! Que diablo mas gostoso! Mi Nong querido, esta decidido: Vamos a casarnos y es hoy! Non se discute mas este tema! Oh si, sorri, mi amor! Fumamos despues dos charutitos y incendiamos Cuba esta noche con este amor de fuego y nuestros planos futuros. Dos Neros extraordinarios e modernos mirando las ceneres del mundo! Y amigos para siempre! Que tal?
MANH: Fidel, és um profeta! Esquece lá as câmaras e manda cá um chocho!

(...)

Que o leitor tire as suas elações...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 18:28
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Sim, Porfia...

Esforçar-me, forçar-me, levantar-me, um estoupo… e de novo tombar nesse implacável fosso…

(...)

Há uma Força assombrada que me puxa;
É uma alma penada?
É uma bruxa?
É de tudo e de nada... Luta, luta!
 

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:55
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Propensões para o Sentimento Vindas do Leito e do Sono

Tenho sentido[1]
A Solidão completa da minha poesia.
A minha alma abstracta, esmagada de agonia,
Tomba sem sentidos.[2]

O meu desgosto é sentido;[3]
Não o finjo. Apenas finjo a vida;
Mas como tudo me passa, à frente, de fugida,
Já não fico sentido.[4]

Faz lá isto sentido![5]
O quotidiano é chato, é uma porcaria!
E a necessidade diária de ir à tabacaria
Põe-me a ira em sentido...[6]

Este frenesim inquieto
Que me exige o tabaco é de morte!
Maldita propensão para o vício! Pouca sorte
Ser de coração inquieto!

Queria mais estar estendido,
Sem sombra de arrelias, numa praia límpida;
Mas a imagem dessa probabilidade, longe de ser nítida,
Impossibilita-se. Só o tédio é estendido:

(--------------------------------tédio------------------------------)

Mas do tédio não quero a companhia.
Nem quero relações de circunstância.
Que se danem este pasmo, esta agonia!,
Três poderosos «Vivas!» à jactância!

Que maçador ser poeta!
Juro hoje mesmo que de hora em diante
Não mais escreverei. Tornar-me-ei asceta.
Até estala esta ideia alucinante!

A minha solidão
É grande e profunda porque antes de mais é pensada.
Não é daquelas ausências que se sentem com a emoção:
É uma racionalização incontrolada.

Por este motivo,
O meu maior desejo é não pensar em nada;
Mas também na ausência há um motivo
De deliberação. A ilusão é, pois, justificada.

Pensar será, portanto,
Um exercício de não pensar em nada:
Um estar ausente de mim num qualquer canto
Onde toda a consciência é sufocada.

De facto, não quero fazer sentido –
Que sentido existe no existir?
O melhor, com tudo, é não reflectir,
E rir de tudo sem ficar sentido;

Partir à deriva, sem qualquer sentido[7]
Determinado, decidido antes –
Os cálculos da vida são p'r'ós ignorantes
Que passam, só, dormentes dos sentidos.

Sou vago, mas sentido;[8]
Sou um abstracto, sem recurso a matemáticas;
Mas as minhas loucuras, manifestações práticas,
Deixam-me sempre em sentido:

Estou acordado p'r'ó Mundo,
Mesmo se vivo no fundo
Do fundo abismo de mim:

Mesmo se não me sinto
Nesse sentir do concreto
Sinto que sint'outro corpo,
Do Outro que tenho perto:

O outro homem de luto
Que mora dentro de mim;
O outro ser com que luto
P'r'álém do Tempo e do Fim –

Sem ti do ar que respiro
O que respiro porém?
Contigo do ser que vivo
Sinto viver-me ninguém.

Mas isto não tem sentido,
É uma névoa em suspenso –
Que 'é então este alarido
Sobre o que sinto ou o que penso?

É a vida que está doente,
Sou eu num sonho que passa.
E um sonho inconsequente,
Qu' importa o senso que faça?…

Lisboa, 28/10/02
 


Notas do Autor:


 


[1] Experimentado.
[2] Percepções sensoriais do corpo, que não os orgãos; ausência de consciência.
[3] Sincero.
[4] Magoado; com ressentimentos.
[5] Nexo.
[6] Desperta; em posição de rigor militar.
[7] Direcção.
[8] Vivido, apreendido pelas sensações.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:40
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Sábado, 2 de Junho de 2007

Quo Vadis, Portugal?

Resposta ao PNR:

- PORTUGAL, EMIGRA!

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 20:20
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A Consciência de Nero

Eu sou Nero,
Imperador Supremo da Vergonha!
Dos Homens e do Mundo, Eu
Fui Rei.
Agora, só reino entre a peçonha!

O que regi pereceu.
Caí
Porque sonhei:
Mas o que é um Homem que não sonha?
Que ser da Terra não deseja um Céu?

Agora,
De mim, já nada espero
Senão o fim da dor (tão doentia!)
De suportar este suplício de anos…

(Vida fora)
Fui feito deus na hora
Mais sombria
P’ra descobrir que sou um mar de enganos!

O meu mal maior nem foi a culpa
Ou o teor da minha natureza:
A índole do Homem não avulta
Nem adoça a vileza
Que o Destino lhe dá:
Não era Eu,
Mas a Vida
Que era má!

Não tive nunca um espelho.
A verdade que me deram
Não era a que as coisas possuíam.
Os que me olharam não
Me conheceram…
Os que por mim passaram… não me viam!
E todos entre eles me temiam…

E nesta hora infame em que estou velho
(No pensamento em que me concebi,
Porque na alma, mais que no corpo, engelho
E nesta Terra de Midas me perdi),
Esqueço tudo o quanto me diziam
Os vis cortesãos que me cercavam:

Foi Séneca o Mestre da Mentira
E das palavras que me torturavam!
Foi Petrónio o árbitro dos vícios
Que a minha alma pura maculavam!

Como deus, que sou, jamais eu minto:
Quem vier depois de mim que infira
Estas minhas razões, estes princípios!

Matei uma mãe.
Mas a mão que a matou veio de cima!
Só eu sei (d)a dor qu ‘ind’hoje sinto!
Bem sabes que eu te amo, oh, Agripina!
Não sabes é do fel que trago em mim...

Chamam-me assassino, ignóbil, louco;
Quem sabe sou de tudo um pouco e mais…
Mas há também um génio neste corpo
Que como um rio transborda dos caudais!

Prendeu-me o negro Fado a este cargo
De ser, num mar de fracos, Sobre-Humano…
Mas porque sou maior larguei o fardo
E toda a minha essência agora emano:

Não foi Roma que eu ardi ao vento
Que soprava naquela noite escura –
Foi esta Humanidade, este Tormento,
Que moram nesta feia criatura...

 

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:38
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Reciprocidades

Trocarmos tudo: O corpo e a saliva,
Como dois comerciantes seiscentistas.
Tocarmo-nos e andarmos à deriva
Nesse mar de perdas e conquistas...

 

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:35
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Breves Exposições da Dor de Alma

II

Tenho medo do medo que me quer devorar;[1]
Meu amor, que não tenho,
Vem comigo
Ver o mar…

Ainda há tantas ondas por contar!

Lisboa, 10/11/01

II

Amigo da Fortuna
Que eu nem sequer conheço:
De onde vem o teu medo?
Que Deus te dá guarida?

Amigo da Fortuna,
Com o teu desgosto espesso:
Qual o teu segredo?
De que lado abre a tua ferida?

Amigo da Fortuna
Com a alma do avesso:
A Loucura tocou-te com que dedo?
Para quando, a tua despedida?

Do teu corpo, em que duna
Bate o mar do degredo?
Qual é o teu preço
Por andares na vida?

Lisboa, 25/04/03

III

Tenho a certeza de experimentar repulsa
Nas coisas e também
Nas sensações.

A repulsa
É um sinal de ausência
(Nos frágeis corações)
Da almejada paz
No interior.

Eu não quero a repulsa –
Por isso
Repugno
As coisas
Materiais:

Só no espírito
Há paz,
Só lá
Está o Amor:

Sarça infindável que arde os vendavais...

Lisboa, 25/04/03

IV

É este horror de ter a estupidez
E de viver à vez e à vez e à vez…

É este horror de ter a Solidão
E de ver rebentar o coração…

É este horror de ter a consciência
E de ser tudo tão imprevisível...

Mas não há mal,
Afinal,
Pois há duas certezas:

Só a Morte é Ciência;
Só a Dor é Imperecível –

Ser pó doído é a minha natureza…

Lisboa, 01/11/01

V

Não me conheço –
Quem se conhece?

Queria saber quem sou…

O que quero?
Porque quero?
Como quero?
Quanto do que quero me apetece?

A verdade,
Se existia,
Já passou…

Lisboa, 25/04/03

VI

Sou,
Não sei bem como,
Sensível à minha própria voz...

Responda o senhor:
O que tem a minha poesia?

«Tem um pouco de dor, tem um pouco de azia…»

E o que temos nós,
E o que temos nós?

«Temos o rabo entalado no fedor de uma pia…»

É aí que corre a vida,
Foi aí que Deus nos pôs...

Lisboa, 10/11/01

VII

Talvez um dia
Possamos ver o mar;
Talvez um dia
Possamos apostar
Um pouco mais em nós;
Talvez um dia
Haja lugar
P’r’á nossa própria voz:

A Liberdade de Mim só me dá pelo cós...

Lisboa, 10/11/01

VIII

A dor é feita de pequenos nadas…

Lisboa, 24/10/03
IX

A materialização das coisas
É a perdição das coisas.
O prazer está no eterno e o eterno é o espírito.
O segredo vital do nosso amor imperecível
É termos sabido nunca o consumar…

Lisboa, 10/11/01

X

Mas consome-me amor
Que eu quero a combustão!
Mas come-me amor
Que eu quero a perdição!
Mas bebe-me amor
Que eu quero secar!

Lisboa, 25/04/03

[1] Nota do Autor: Versão Alternativa: Assustar.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:32
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Ficções da Vida – Outro Auto-Consumo

Já me queimas por dentro.
Acaba o serviço e vem queimar por fora:

Crava-me as unhas, põe-me as mãos no ventre,
Arranca-me a víbora que há anos me devora:
É o Eterno Monstro dos Primeiros Dias,
É o Anticristo da Antemanhã;
Julgou-me o Adão, depois o Messias
E crê-me agora a própria maçã.
Já roeu a alma que sei que não tenho,
Já roeu o corpo que não sinto ter;
Mas tudo é normal; aquilo que é estranho
É que há muito, já, eu me vi morrer…

Talvez nos meus sonhos de névoa e de fumo
Tenha aparecido uma sombra encantada,
Soprando uma brisa, traçando outro rumo
P’rá minha figura já desfigurada.
Talvez essa sombra de um outro Destino,
Talvez esse gnomo, duende ou anão
Tenha chorado ao ver-me estendido
E tenha enterrado o meu coração…[1]

Lisboa, 10/11/01

[1] Nota de um Leitor Céptico: Talvez, ou talvez não…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:17
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Mais um Plano

Espero que acordes. De novo, estás cansada…
Eu não, pois fui à praia e nada fiz;
Mas havia, escondida nesse nada,
Uma vontade atroz de ser feliz.

Fiquei ali, na areia, a ver o mar,
E tu no Corte,[1] a abrilhantar soalhos!
Tu tinhas, claro, mais em que pensar;
Eu procurava para a morte atalhos…

E achei um, ò alegria imensa!,
De que então fiz um esboço inacabado
E que depois guardei dentro das calças:

Era um archote de uma luz intensa
Que eu acendia com um sórdido agrado
E me ateava ao ritmo de valsas!

Lisboa, 10/11/01

[1] El Corte Inglês, novo Centro Comercial em São Sebastião da Pedreira, Lisboa… Quem diria que em Lisboa ainda há vida e coméricio!…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:10
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Por Culpa da Distância

Aproxima-se a Procela do cimo da Serra,
Aproxima-se o Trovão do negro chão do Mar;
Aproxima-se um Tremor do coração da Terra
E uma excessiva Urgência de Gritar!

Aproxima-se a Raiva desta Consciência,
Aproxima-se o Ódio!
Aproxima-se, horror!, o Fim da Paciência
Servido com Sulfatos d’Asco e Sódio!

Aproximam-se sete anos de Desgraça,
Aproxima-se a certeza de uma Dor;
Aproxima-se de novo a Ameaça
De não haver Amor!

Aproxima-se um Nevoeiro Denso
Que há-de pousar até à Eternidade…
Aproxima-se um Desgosto (e ele é imenso!),
E o Tempo da Vontade sem Vontade…

Aproxima-se essa Carreira Antiga
Que viaja de um a outro Tédio;
Aproxima-se a queda dessa Viga
Em que assentava o meu Antigo Prédio:

Esse meu Prédio de ser um Homem Novo
Melhor que o Outro donde outrora vim;
Aproxima-se o Esmagar-me como um ovo…
E o Morrer, meu Deus!, Dentro de Mim![1]

Lisboa, 27/08/02

[1] Nota do Autor: As maiúsculas reforçam o meu Fim…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:05
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Três Sonetos

I

(A Aparição)

Vieste como Chuva desejada
Cair sobre esta Terra ressequida
E abriste com os teus braços a Alvorada
E derrubaste a Treva Desmedida![1]

Vivi dormente todas as Estações,
Passei já quase morto pelos Dias,
Esperei[2] em ânsia a Benção[3] das Monções
Que prometia[4] vir mas não surgia!

Mas eis-te agora aqui, vinda do Nada,
Suportando a minha tez pesada,
Aguentando firme os meus furores!

Se o meu Amor pudesse tomar forma
Erguia um novo Éden e, por norma,
Mandava o Mundo aí morrer de Amores!

Lisboa, 07/09/01[5]

[1] Nota do Autor: Versão Alternativa: Rasgando a Treva que era em mim escondida.
[2] Nota do Autor: Versão Alternativa: Esperando.
[3] Nota do Autor: Versões Alternativas: a) Graça; b) Volta; c) Vinda.
[4] Nota do Autor: Versão Alternativa: Ameaçava,
[5]Nota do Autor: Dedicatória: (Para o Amor que, eu sei, ‘inda há-de vir…
Além de toda a dor há-de surgir,
Há-de abraçar-me e amar-me, sem fugir,
E há-de curar-me a cisma de existir!
E eu hei-de rir, hei-de rir, eu hei-de rir!)

II

(A Cómoda)

Há uma cómoda de madeira antiga
Disposta no meu quarto aos pés da cama;
É enorme, rija como um velho auriga,
Domando todo o espaço e que me chama.

Sobre ela se ufana um grande espelho
Que reflectiu poeiras seculares;
E este atrai-me a si como um centelho[1]
De fogo é atraído pelos ares.

Não tenho mão no corpo que me envolve
E deixo-me ir, apático, a seu gosto,
Até ficar sentado à sua frente;

Depois, vejo aterrado o que devolve:
Olho p’ra mim mas não vejo o meu rosto:
Sou sentimento num ser inexistente…

Lisboa, 07/09/01

[1] Nota do Linguista Especializado: É absolutamente lamentável o tratamento que este artista inferior faz da Linguagem. O desconhecimento do género feminino do substantivo centelha é de levar à náusea qualquer cidadão consciencioso. Haja algum agente autoritário da Santa Autoridade que penalize este homem! Pelo amor de Deus!!!
Carta Interceptada do Procurador Geral da República: «Caríssimo Linguista, depois de devidamente consultadas e auscultadas as autoridades competentes e com voto particular na matéria especifica tão diligente e cientificamente exposta, achou por bem, esta Procuradoria, com base nos artigos… de… (…), autuar o dito criminoso da nossa língua mãe com a soma de… até… de modo a… (…), acrescentando ainda prisão de… em… até… (…) Mais lhe agradecemos o seu esforço e o encarregamos da missão pátria de vigiar com atenção esse patife que assim despreza o dialecto de Camões – E abençoados estes génios que louvamos, mesmo se antes tivemos de os matar! (…) Muito grato e muito, muito seu, o seu Procur-a-dor…»


III

(A Chegada)

Ao fim da tarde, com o Sol a dar no porto,
Vem o Bliss, embarcação famosa,
Dar à costa no Cais; e eu, absorto,
Nem vejo os outros correndo em polvorosa.

Espero o Outro, o Perfeito, o Acabado,
O Homem que saiu de mim um dia,
P’ra descobrir no Mundo Inexplorado
A Infinitesimal Cosmogonia.

De cada canto do Cais acena um lenço
Celebrando em vivas a Chegada
Que demorara Séculos de Espera...

- «É o Novo Mundo!» - diz um - «Queimem incenso!»
- «É um Novo Dia!» - diz outro - «É a Alvorada!»
Mas tudo se fez pó… Era a Quimera…

Lisboa, 13/09/01

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:49
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

De um Amor Recriado de Jorge de Sena

I

Amo-te muito, meu amor, e tanto
Que, ao ter-te, amo-te mais e mais ainda.
Depois de ter-te o meu amor não finda.

Que encanto é o teu se continua enquanto,
Deitado à tua beira,
Me esqueço da tormenta à cabeceira?

Lisboa, 22/05/01

II

Amo-te muito, meu amor, e tanto
Que, sem te ter, o meu amor não finda.
Porquê sofrer esta dor ainda?

Que encanto é o teu que possa ter tal espanto,
Que além da tua beira,
Eu pense nesta vida traiçoeira?

Lisboa, 14/03/03

III

Estou hoje fora
De mim, do Mundo, do que sou por dentro.

Hora por hora
Estás no meu pensamento.

Lisboa, 22/05/01

IV

Ou o fim do Mundo está perto
Ou sou só eu que rebento...

Lisboa, 16/03/03

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:45
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Um Poema de Amor

Não. Não é um poema.
Porque nas margens livres de um poema
A linguagem flúi como se de um rio se tratasse;

E não há frases mas versos,
(E o verso vale a pena!)
Sentidos, não pensados,
Qual brisa sobre a face.

Mas as palavras estão presas neste texto
Por cordéis de inépcia e de protesto.
As palavras estão atadas com desprezo
E qualquer coisa mais que cheira a medo
E sobra do seu resto.

Não. Não é amor.
O amor é uma partilha
De algo que não se conhece
Mas que desperta vulcões.
E aqui não se divide,
Apenas se coincide
Egoísmo e Traições.[1]

E, se há duas mãos, estão velhas
E são as mãos de um só corpo,
Uma casa já sem telhas,
E um coração tão morto
Que a alma luta sozinha.
Por um descanso ou um porto
(E um porto não se avizinha!)

Mas Não. Não é repouso.
Nem há gozo que valha isto que sinto!
É apenas uma vala, uma trincheira
Onde pugno Guerras Mundiais
Por ânsias que consistem em ter mais,
Apenas pelo júbilo indistinto
De possuir o que outros não me dão.
Apenas pelo gáudio com que minto
À minha singular Introspecção![2]

Cavei a vala com estas letras feias
Destes meus versos pouco originais,
Para acalmar a minha Inquietação,
Para sossegar[3] as minhas veias…
Não é amor: São ódios viscerais!

E dizem p‘r’áí que amar é fácil.
E que faz bem o Bem a quem o sente;
Que o afecto por outro traz calor
E que é em dar que se acha a Liberdade –
Que qual perfume invade
Seja quem fôr, onde fôr:

Mas como causar pode, em seu favor,
Nos corações Humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?


Não, não é um poema.
Num poema a vida vale a pena.
Não. Não é amor:

É só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor
Só a dor…

E nunca amar, porém, soube melhor…

01/04/01
 


[1] Versão Alternativa: Irritações.
[2] Versão Alternativa: Constituição.
[3] Versão Alternativa: Poupar.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:43
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Ficções do Amor (Parte Um) – A Ressurreição de Lázaro

Sou cego.

Nas tuas fúrias, com ou sem justificação,
Não descortino o amor.
Por isso,
Também eu me enfureço, com ou sem justificação.

Por favor:

Sou crente no Livro de Fé que professas;
Sou crente na Vida Futura que profetizas;
Sou crente na Terra Prometida
Que está algures entre o teu olhar e o teu peito.

Mas,
Mesmo profundamente crente,
Profundamente devoto,
Com plena esperança,
Não posso,
Não consigo
Esquecer que sou Humano
E que por isso preciso de um Milagre
Que me faça enfim ver um Sol
Brilhar em pleno,
De frente,
Sobre as coisas...

Promete-me:

Depois da tua fúria,
Da minha fúria,
Do cansaço adjacente às nossas explosões,
Se tivermos sobrevivido,
Fazes-te o meu Cristo,
Vens até mim,
E dizes-me: «Abre os olhos e vê!»?

(Nesse instante dar-me-ias um beijo)…

E eu regresso do meu antro de morte
Com o inesperado prazer de tanta Luz…

Lisboa, 11/10/01

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:38
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Constatação

Eu sou inútil.
Tu, minha querida, és inútil.
Tudo é inútil
No amor.

De útil,
(E porque dá experiência)
Fica apenas a dôr.

De útil
Fica só
A consciência;

E o torpôr
E o torpôr
E o torpôr…

Lisboa, 11/10/01

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:28
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Arca de Noé

Diz o Público: Mais de 250 apreensões de animais em solo português em 2006.
 

Perfeito. A evolução começou. Já só faltam 9.999.750.


 

Aléluiia Sócrates!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:28
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Quando as Trevas Caíram sobre o Mundo…

Quando as Trevas Caíram sobre o Mundo…

I

(A Rua)

A Rua tinha a largura de um campo
E era abençoada pelo Sol;
Dela brotavam fontes e rios e nascentes e mares interiores
Onde todas os Homens viajavam sem a necessidade de barcos,
Ou o constrangimento do esforço.

Da Rua podia ver-se todo o Mundo
Mas ela mesma era o único local de onde podia ser vista.

Porque a Rua estava ao mesmo tempo no sopé de um monte
E coberta por árvores muito altas,
E muito largas,
E muito cheias
Que a isolavam da corrupção do Mundo;

E para além desse monte
Havia muitos rochedos
E muitos Abysmos descendentes,
Intermináveis
Devoradores,
Que não permitiam o acesso ao comum dos mortais.

A Rua era o lugar onde moravam todas as crianças
E todos os animais
E todos os Homens que não esqueceram o modo de segurar um balão
E que desprezam as obrigações.

A Rua era o lugar dos que procuravam o Amor,
Daquele tipo de amor em que o proveito está no poder dar,
Daquele tipo de amor
Em que o prazer está no fazer rir,
Daquele tipo de amor
Em que a carne, o espírito, o desejo, a necessidade, o conforto,
São intermináveis,
Daquele tipo de amor
Que cada um constrói apenas na sua imaginação
E que nega na prática.

A Rua era o Lugar Verdadeiro que descrevem todas as Bíblias e todas as Religiões
Como o Éden, o Idílio, a Paz, a Terra Prometida, a Utopia.

A Rua
Era um mundo interminável de escadas,
De níveis,
De degraus,
De consciências,
Cada nível revelando um sonho
Que se materializava, mal sonhado, na sua realização.

A Rua era a Luz Infindável e Universal,
Sempre viva,
Sempre em emergência.

A Rua era Real
No meu Coração...

II

(O Incêndio)

Um dia,
Os Homens sem amor que falharam a entrada neste lugar de Luz,
Invejosos do Bem que não sabiam alcançar
(Por não entenderem que era de dentro que lhes vinha aquela Felicidade),
Fizeram-se Monstros Invencíveis
Por força da sua Maldade
E treparam todos os Abysmos
E cortaram todas as árvores
E entraram na Rua:

Mataram todas as crianças,
Devoraram os animais,
Escravizaram os Homens Sem Obrigações,
Corromperam o Amor com o seu Ódio Interminável,
E cobriram a Luz com as suas Trevas.

O sangue sujou todas as fontes e inundou os rios.
O Sonho
Foi transformado num Pesadelo de Milénios.
E, ao Coração que tudo imaginara,
Pegaram sem remorso
Um inconsumível fogo...

A ferida desse Incêndio nunca sara;
A Paz de outrora é hoje um grande logro...

III

(A Prisão)

O Coração-Sonhador arde ainda
E para além da Eternidade ainda arderão as chamas.

A Rua
Não está já rodeada de árvores
Mas de muitas, incontornáveis grades.

Os animais extinguiram-se.
As crianças morreram numa maturidade artificial e forçada.
Os Homens tornaram-se escravos de si mesmos.
Os rios secaram.
As escadas partiram-se.

Os sonhos
São imagens nocturnas que assustam;
Os prazeres são momentâneos, artificiais, fingidos, simulados,
Para afastar, fazer esquecer a Dor.

As pessoas usam-se;
Os frutos apodrecem
Antes mesmo de caírem das árvores:

E as árvores,
Depois do princípio da Perdição Eterna
São apenas três:

A Desesperança,
A Solidão,
E a Permanência:

A primeira cansa;
A segunda causa a Exaustão;
A terceira leva-te à Demência.

A Noite é Eterna;
O Amor uma Promessa Adiada.
A Prisão é a Vida-em-Si-Mesma,
Prometendo Tudo onde já não há Nada...

Lisboa, 07/01/95

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:26
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O Leão Sem Juba

Sopa de Facas, Chafurdar na Lama

 

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