Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Sétima Sessão - A Angústia da Estupidez

Uma vez mais o meu Tomé veio até mim embrenhado de tristeza. Estou preocupado com o meu santo. Desta vez, por força da sua amargura, e fazendo uso da sua cultura milenar e da sua facilidade poliglota inspirada, claro está, pelo Altíssimo, no dia de Pentecostes, veio, pasme-se, ò leitor!, com um paleio pesado e filosófico e todo ele compilado numa doce língua estrangeira em que em três tempos me versou e a que chamam, parece, "o italiano". E foi este o seu discurso, justo e exacto como sempre:
 

 Mi sembra chiaro che in ogni vita l'attesa è inevitabile, come una cellula che constitua un corpo. Non sò però precisare se è un frutto imprevisibile di una qualunque fortuna in cui non credo, se il risultato inamissibile di una brutta intenzione. Gli anni passano e lentamente mi fanno diventare un vecchio. Ed io rimango senza capire il più grande mistero di tutti - L'afetto e le donne che lo circondano come chi circonda le chine delle vie per guadagnarsi servilmente il suo pane.

 

Chi è stato il buggiardo a dire (ad assumere, quasi, sciagurato!) che la vecchiaia è il passaporto e lo strumento del saggio?!

 

L'ignoranza è l'unica saggezza. Socrate aveva raggione: Essersi un saggio è assumere senza riserva l'inevitabile ignoranza di tutto. Peccato che Socrate andassi facendo l'ironico! Altrimenti avrebbe addirittura capito l'essenza pura ed esatta dell'unica verità universale:

 

La Stupidità Umana...
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 19:19
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Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

Sexta Sessão - Que Justiça?!

Tomé estava fora de si. Como chegou, partiu, amuado e virulento, sem justificações de maior no intervalo entre o seu discurso e os seus silêncios. O motivo que gerou esta lição, é-me e ser-me-à, temo bem, desconhecido. Mas foi assim, irmãos, que ele prégou:
  

- O corrupto divide-se em dois grupos: O que vigariza para sobreviver e o que vive a vigarizar. O primeiro, merece a minha condescendência porque faz o que pode e não o que quer. O segundo, merece o meu desprezo porque pode o que quer e abusa desse Poder. O primeiro, não conhece bem os seus direitos. Sabe que tem obrigações, que precisa de comer e de dar de comer aos seus, e a Lei não é mais do que qualquer coisa institucionalizada, pela vontade de poucos, que vem tomar o lugar da Justiça.
O segundo, sabe dos seus direitos e dos direitos dos outros, mas prefere ignorar tais direitos para além da esfera de si mesmo. Não tem obrigações porque tudo recebe o estigma de uma operação comercial e é pensado para obter um lucro. Quando come, rodeia-se do que julga ser o requinte, procura a opulência, cria excedentes, ingere a melhor parte e deixa os restos para os cães (que não têm forçosamente de ser de quatro patas).
Quanto à Lei, é o reposteiro onde pousa descansado a sua cabeça de pedra. Porque ela é o instrumento por meio do qual ele comete, com segurança, todas as suas irregularidades.
De facto, o corrupto deste segundo grupo, comete as suas ilegalidades legalmente: através das ambiguidades, contradicções, omissões e flutuações da Lei; através das suas deficiências; através dos seus desníveis sociais. E é nesta desigualdade autorizada, neste desiquilíbrio fomentado pelo Estado, que reside a sua satisfação mais profunda, o seu maior lucro, e o seu epidémico conceito de Justiça…
 
E eis, num só instante,a Sociedade, produto acabado do Homem, e o retrato final da sua própria invenção putrificada: O Homem-Deus (que é o Homem e que é Deus)...
 
E ainda me perguntam porque não creio eu nas chagas...
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Golpe por Miguel João Ferreira às 16:56
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Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

Quinta Sessão: O Sombrero da Aparência...

Desta vez, Tomé, convidou-me para um copo. Comecei por estranhar tal convite num santo. Não supus que a santidade se amigasse com o álcool. De tal modo essa impressão me fez espécie que não me contive e, chegado à esplanada do alto de Santa Catarina onde ele já me esperava, antes da hora marcada, com uma caipirinha e um sombrero entalado até aos olhos, antes mesmo de puxar da cadeira e de me sentar, perguntei-lhe:
 

 - Tomé, vais desculpar-me - sim, confesso, com muito agrado meu, que a nossa intimidade, a dado ponto que não sei especificar, nos levou a este tratamento - mas não entendo o teu convite. E essa caipirinha, não me parece, se me permites, não me parece que se adeque à tua santidade... Não devias conter-te um pouco mais? Afinal, o que dirá o Altíssimo?
 
..........................
  
Escusado será dizer que o meu Tomé se exaltou:
  
- Olha lá, meu parvo! Que sabes tu do Altíssimo? Este estróina, que não tem outro nome, é o maior bêbedo que conheci até hoje! Que julgas tu que foi a Criação ???! Naturalmente, tinha de dar asneira! Ninguém constrói nada de jeito em sete dias! Está bom de ver o resultado...
  
- Tomé, francamente, mas isso já nem é cepticismo, é heresia! O álcool deixa-te agressivo, anti-social e, acima de tudo, sacrílego! Como podes implicar tal coisa de quem te criou?
 
Que fui eu dizer, meu querido amigo? Que fui eu dizer?! Tomé bateu-me como nunca o tinha feito, e em público! Em público! Bateu-me com uma violência inédita, insultou-me com uma verborreia inaudita, vilipendiou-me sem perdão! E eu, cabisbaixo, abismado, dorido, envergonhado, pedi desculpas, fui pagar (até paguei pelos dois, tal o meu estado!) e fui-me embora de volta ao meu humilde lar. Pensei, ressentido e triste, que o Tomé se perdera em definitivo, que já nem o seu cepticismo incial tinha valor filosófico ou Cristão, que tudo até aqui não fôra mais do que episódios de um bêbedo devasso que eu, por minha ingenuidade, considerei genial.
Chegado a casa, ainda com o ressentimento e a dor a atormentarem-me, estendi-me no sofá esgarçado e acendi o televisor. Umas notícias, umas novelas, uns episódios fortuitos da vida pública e privada de umas quantas vedetas, publicidade. E foi então que a treva clareou:
Meu Deus! Que injusto fui! E que soberbo afinal é o meu santo! Continuava envergonhado e dorido, mas a vergonha agora não era a de ter sido agredido em público (o que considerei já um justo castigo) mas a de ter duvidado (eu, o crente!), do meu cétptico Tomé; e a minha dor já não era a do rosto, mas uma maior abaixo dele, e mais por dentro, no que há em nós de mais Humano e interior. Eu entendera, por uma simples sucessão de imagens num televisor antigo, o plano genial do meu Tomé.
 
Ele, que não bebia por hábito (apenas por prazer), que sempre era recto, mesmo se excêntrico, que abominava sombreros (por questões de alergia), que não apreciava em particular o miradouro de Santa Catarina (por rivalidades políticas no mundo da hagiografia), lá estava, cumprindo este cenário e convidando-me a um copo. Tudo fôra magistralmente forjado. E, com tal teatro, que queria este Santíssimo dizer? Nada, senão isto:
  
- Vê, meu amigo, para além das aparências. Um homem calmo pode ser um monstro no mais por dentro de si. A placidez de um cenário pode ser a bomba de napalm sob a sombra de um sombrero. A mesquinhez e a vileza estão por norma vestidas da melhor Santidade - É um tecido da moda para muitas figuras cujo modus vivendi se rege, antes de mais, pela imagem e por uma crucial publicidade. No fundo, caro amigo, o sentido do mundo é uma fenomenal telenovela em que os seus actores concorrem ferozmente pela primazia da representação... E tu, que queres ser justo e honesto, onde cabes aí? Nisto: na atenção. No afastamento. Na distância imprescindível ao observador. Não julgues, observa. E do que vires daí conclui. É neste ponto que começa toda a acção.
 
Ora, perante isto, meus amigos e irmãos, digam lá se o meu Tomé não é um santo? E se, mais do que um santo, não é um grande génio???!
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Golpe por Miguel João Ferreira às 17:46
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Quarta Sessão: De Uma Outra Forma de Agir

Há dias, como hoje, em que o meu santo está triste e pouco quer comigo. Nesses dias pareço constatar (nunca sem surpresa, por mais que se repita) que mesmo um santo, por mais morto e milenar e etéreo, também tem (ò assombro!) sensibilidade e alma. Foi esta, pois, a sua missiva (assaz sentimental e melancólica) que recebi, quase por engano, depois de várias peripécias com as vizinhas e um grande atraso dos correios:
 

 «Meu amigo,
 
Hoje não estou em mim. Como quem diz: hoje anulei qualquer disposição para descer à terra e para, por mera caridade, dirigir-me aos Homens. A caridade, aliás, é mesmo dispensável e é também, como pretende Nietzsche, um meu antigo discípulo, um cancro do desenvolvimento. Hoje escrevo, o que é uma raridade, e apenas para anunciar que nada hei-de dizer. Tudo é desprezível nos cenários de sempre, nada nos convida à alegria de ser. Aqui nesta núvem onde estou, aturando as birras do Tirano-Deus, aí em baixo onde te vejo, desorientado nos labirintos de ti próprio, há só tempestade, uma borrasca agreste que nada promete ou dá. O dia foi longo como outros antes dele, e só é curta a força de vivê-lo. E nessa distância comprida e por cumprir, assistiu-se ao mesmo de sempre, a essa habitual degradação do carácter, ao pôdre dos Juízes Sociais de cada vida. Por isso, caro aluno, descansa e faz descansar. Senta-te sobre ti mesmo (se te puderes sentar) e deixa passar a núvem como quem escolhe, numa estação, não apanhar um combóio e vê-lo partir para longe, além da linha. É o que eu faço, meu caro, é o que eu faço... E, curioso, neste somar de milénios, não é que me dei bem? E esta, hem?!»


 O sentido da carta, eu não o acho. Mas talvez o sentido seja mesmo o ser forçado a entender que, para certas descobertas se darem, o segredo delas é... NÃO PROCURAR. Já dizia Paul Nougé: Voir est un acte. Lóeil voit comme la main prend. - Há alturas em que agir é estar atento.

  
E Tomé, meus amigos, o meu Tomé, pode estar longe e estar triste; mas vê sempre tudo e está alerta. Fica alerta com ele!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 17:19
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Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

Terceira Sessão -Crime e Castigo

A Sessão de hoje (vaticinou-me o Tomé) é inteiramente didáctica. Comecemos por este quadro:




 

 (Será que o mafarrico, já fingia aqui ler a Bíblia, para estar afinal a ler a Alexandra Solnado? Rafael, neste retrato que tirou, não nos esclarece...)
  
Bem se vê uma cena plácida, com a virgem emoldurada numa bela paisagem, sustendo no colo um ternurento Cristo que, apesar de uma expressãozita algo traquina, promete obediência, diligência e respeito. Ora, reza a lenda, porém, que, a dado ponto da sua juventude, o Cristo encrava incautamente na idade dos namoricos e das paixonetas descabidas. Por força disto, começou a frequentar locais mais duvidosos, e a dar-se com as piores meninas do bairro, as mais lascivas, as trapaceiras, as sanguessugas! E, entre esta mulherada da má vida, o bomdo Cristo vai de se pôr à conversa, veja-se bem, com a Alexandra Solnado! A notícia, como é óbvio, chegou depressa aos ouvidos da Virgem sua mãe, que, rubra de natural indignação, mal deitou garras ao malfadado catraio, achou por bem impôr a disciplina, através de um tradicional correctivo. O fotógrafo Max Ernst registou o momento:
  


 
(Breton e Éluard também estão a assistir. Abstiveram-se porém de testemunhar on the record para o Gume...)

 Ora então - gritava a Virgem, desvairada, -ora então, meu mafarrico, a andar pela noite, nos bares, nos copos, na canabis, e a dares-te com essa lambisgóia da Solnado?! De tanta mulher rameira, tens de escolher a pior, meu doidivanas?! Meu devasso?! Ora toma! - e era ver a vigorosa virgem a arrear o pobre cotomiço... - E então a falares-lhe do Mundo?! - continava a mãe, indignada, - E a recomendares a Bertrand?! A Bertrand, meu burro?! E do Chiado?!!! Ora anda cá que eu já tas canto! - E, dito isto, enfiou mais umas chibatadas no gaiato que chorava a bom chorar. - Lágrimas de crocodilo! - repreendia-o a santa, inamovível, - pensa no choro antes de asneirares, meu bronco!!! - E tumba! Mais uma vergastada fervorosa... Enfim, meus amigos, não quero entrar em pormenores desagradáveis. O que sei (porque o vi com estes dois que a terra me há-de comer...), é que, depois do castigo dado pela Virgem ao crime irresponsável do gaiato, ele ficou neste estado lastimoso, como tão bem representou Rembrandt (que também esteve lá):




 
(Os amigos mais chegados, alguns deles habitués da noite, ajudam, com esforço, à recuperação do maltrapilho...)
 
Ora, dado isto, é esta, irmão, a lição de hoje:
 
VÊ BEM QUEM SÃO AS TUAS COMPANHIAS.
 
O Mundo é um antro agreste, e cada gesto teu tem consequências que podem ser bem desagradáveis: a melhor delas é apanhares uma boa surra. A pior... nem é aqui mencionável... Pois que se o próprio Cristo leva tamanho enxerto, imagina tu, ò desgraçado!, que não tens a benção de uma cunha!
 
Salvé!
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Golpe por Miguel João Ferreira às 17:10
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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Segunda Sessão - As Mudanças

«Hoje - explicou-me o meu amigo quando veio a minha casa - estou de mudanças: Ando a mudar-me da direita para a esquerda do Pai por mera conveniência política. Noutros tempos era no próprio colo do Senhor que eu me sentava (um pouco ao jeito do que o Márinho fez com aquela tartaruga!) , mas o velho já não está para cantigas. O que comprovo destas mudanças de lado, é que, quer na núvem da direita quer na outra da esquerda, me vejo mal instalado. E isto de mudar a tralha e a camisa com o mudar constante de uma e outra ideologia, é uma estafa! Não tivesse eu um importante papel a cumprir, e descia lá do alto onde estou, para viver calmamente entre o comum dos mortais... E, no entanto, vendo bem, isto por aqui anda tão miserável! Aliás, essa miséria vê-se bem no que comemos! - eu protestei, mas Tomé logo me fez ver a razão - Como podes tu contrariar-me quando este chá é quase um copo de água? E que dizer dessas bolachas, de há uma semana, sem açucar nem sal? E desse pão ressequido? E dessa manteiga com sabor a ranço? É isto que se oferece a um santo?! Pouca vergonha!» Tentei explicar ao meu amigo que era difícil ter boas coisas em casa quando se tenta viver apenas do seu trabalho honesto. Desta vez o meu Tomé zangou-se a sério: «E julgas tu que eu não sei? Eu tenho dois mil anos! Quem pensas tu que ensinas?! Porque achas tu que há mais de dois milénios eu ando de núvem em núvem, sempre a trocar de camisa, com a tralha toda atrás das costas e a decorar novas frases de ordem, novas ideologias? Para aconchegar a asa ao Criador? Para lhe ver as vestes remendadas? Para apreciar a paisagem de um e de outro lado do Céu? Não! Eu sigo o curso das estrelas, vejo os sinais dos tempos, adequo o meu ânimo descrente à crença de cada tempestade! É por isso que a minha vida é um conforto! Francamente! Um calmeirão desse tamanho e ainda não aprendeste! Ora deixa lá que tu assim vais longe! Vê mas é se tens juízo, em vez de andares com ideias, e se começas a transmitir às gentes deste mundo que o sensato na vida é mandriar e estar apenas atento a quem se vai sentando n'A Cadeira para lhe engraxar as botinhas, lhe ajeitar o colarinho, lhe pentear o cabelo, mudar a côr da camisa para aquela côr que ele veste, e estar na direita ou na esquerda ao sabor das correntes! Entendeste?! Olha o paspalho! Eu venho aqui comer para o educar, e o inútil a largar postas de pescada! Quem lhe desse com o peixe nas ventas!». E assim foi: do assombro do nada surgiu uma pescada e, num golpe digno de um lutador de sumo, o sacana do santo vai de me dar com a maldita pescada na vista, e de tal modo, que ainda conservo um olho negro! Confesso, irmãos, que me doeu mais o coração do golpe do que o olho inflamado que ainda me assusta no espelho. Quase chorei, emudeci arrasado. O meu amigo, pensei, o meu próprio amigo, a atentar-me deste modo ao olho?! É pungente... Mas com Tomé é comum: o seu método de ensino reside no choque. Se por choque se entender adequado eu ser espancado até à exaustão, será então essa a medida a tomar. Para o meu santo é importante a disciplina e é evidente que qualquer disciplina exige sacrifício. De facto, agora, ao longe, reparo que um ou outro espancamento ocasional nos dá certa clarividência. É espantoso! Senão, veja-se o exemplo: Estou em casa, sozinho, depois de ele ter já ido embora, amuado e bruto, e acendo a televisão para espairecer. Como um poltergeist enclausurado, surgem-me de lá, horrorosas, a voz e a figura do Sócrates, esse ministro que temos por estranho hábito designar por primeiro. Ele fala. Ele explica. Ele desenvolve. E eu reconheço nele, por força da lição do meu santo, um colossal ascetismo: tantas vezes vimos este herói da boa vontade e da perseverança mudar de camisa! Tantas vezes o vimos a resgatar da poeira antiga (ou da Futura!, anacronismo excelente!) novas, remendadas, reachadas ideologias! Tantas vezes se desdisse desdizendo que dissera o que o ouvimos dizer dizendo que não diria o que disse! Tantas vezes nos falou em levantar Portugal! E de todas essas vezes o que ele afinal fazia era caminhar da direita para a esquerda do Pai (cujo nome real é Despotismo), passear de núvem em núvem, de mentira em mentira, para nos dar a entender (oh!, Sublime!, também tu és santo!) um novo ideal de Homem... Agora pergunto: Teria eu entendido este ascetismo se não tivesse Tomé tido a bondade de me aplicar aquele bofetão? Esta é, irmão, portanto, a lição de hoje: A disciplina é tudo. A gentileza é uma coisa bonita, mas, de quando em quando, todo o Homem precisa de um golpe. A Humanidade dorme e tu, mais iluminado, tens de fazer por acordá-la. Não te restrinjas, não te coíbas: Vai pelo Mundo e Age. Sê verdadeiramente Cristão: Espanca e Educa. Amen.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:00
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Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Primeira Sessão - Um Paradoxo...

São Tomé foi Santo porque negou Cristo para além das evidências, e não por não ter acreditado nas chagas. De facto, é preciso ser-se superlativamente obstinado para recusar a matéria palpável. Essa obstinação é um atributo do mártir. Tomé jura, porém, que não foi o Cristo-Homem que negou mas a sua transcendência. A meu ver, isto está certo. Porque foi então que o santificaram? Ainda hoje ele se faz essa pergunta, entre o creme de beleza da manhã e o sono reparador da noite. Perguntará o blogonauta mais desconfiado e precavido como tenho eu acesso a tais informações. Poderia, legitimamente, recusar-me a revelar a fonte. Por honestidade, porém, não o faço. A verdade é que, pela hora da ceia, o amigo Tomé vem visitar-me, com um chazinho de menta e umas bolachas de cacau e mel. Empanturramo-nos os dois severamente e conversamos pelas tantas da manhã. Este São Tomé que Me Fala (como eu gosto de dizer e já publiquei em livro - pela editora Papiro, creio eu, mudando o me para vos para lhe conferir um carácter mais geral) é moderno e jovial e sabe falar sobre tudo. Tem, todavia, a tendência irritante de desembocar no cepticismo; ainda assim, não obstante tão enfadonha e triste limitação, dá gosto falar com ele. Contou-me muitos segredos do Universo e da Vida, explicando-me e demonstrando-me como era tudo mentira. Eu creio que, por vezes, o meu amigo exagera. Mas tenho de lhe dar o crédito de uma sabedoria milenar e do infalível vaticíno da experiência. Afinal, quem pode negar a primazia do empirismo sobre a metafísica? Pelo meu amigo Tomé eu soube, não sem algum constrangimento, que fui escolhido por Zeus (ou por Deus? ou por Ateus? ou...?) para liderar as ovelhinhas do globo para o abismo do Cepticismo Absoluto onde encontrarão a Salvação Eterna. A promessa, como qualquer promessa, é paradoxal e estranha. «Não faz sentido, Tomé!» - gritei-lhe eu perplexo - «Como pode ser que o abismo nos salve?». A que ele me respondeu: «Bem se vê que estás cego.» - Tomé gosta de falar por imagens e enigmas - «O Abismo do Cepticismo não é mais do que o poço fundo onde se deitam fora os fatos velhos das crenças. Não há verdades no Mundo, apenas convicções profundas. Porque tens de viver de acordo com as convicções dos outros? Pensa por ti próprio». Foi então que percebi que também Tomé era um crente, um idealista. De facto, como podemos pedir à simples ovelhinha tresmalhada que deixe de seguir o pastor e que canse muito o neuroniozinho (programado apenas para a capacidade motora) para tomar por si mesma as suas decisões? Qualquer ovelha gosta que se lhe mostre o caminho do pasto. A ovelha portuguesa, prefere até, se possível, que se lhe arranque a ervinha e se lha dê já mascada, pronta a engolir. Se engolida vier já, melhor ainda. Com que direito e feitiço se lhe há-de então exigir que escolha um rumo, que reflicta, que discuta, que construa? Foi aqui que Tomé se zangou comigo e partiu. Muitas noites, pelas sextas-feiras, ele vem ter comigo, me revela coisas sobre o Princípio, o Meio e o Fim dos Tempos e depois parte amuado com qualquer coisa feia que eu lhe digo. Poderão dizer que sou eu que sou duro. Talvez seja verdade. Mas a minha convicção mais profunda é que Tomé não acredita em si prórpio; ou talvez não seja mais que um paradoxo...
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Golpe por Miguel João Ferreira às 13:06
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O Leão Sem Juba

Sopa de Facas, Chafurdar na Lama

 

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