Sábado, 16 de Agosto de 2008

Passaporte 2

...Naquele tempo, grande Khan, tive de viajar com urgência atávés da Tartária. Era muito provável que a viagem, longa, implicasse travessia de diversos desertos áridos e não áridos, pertencentes aos mais diferentes Estados.

 

Porque as sociedades se constroem sobre leis pesadas (e nem por isso boas), foi-me exigido, para que pudesse seguir viagem com eficácia e maior segurança, que apresentassse documentos, em particular, um Passaporte. Deu-se porém que, um ou dois meses antes, eu tenha tido de viajar para a Flandres onde me envolvi em determinados negócios. Numa dessas operações flamengas, tive o infortúnio de perder os meus documentos de identificação, estando o Passaporte entre eles.

 

Naturalmente, foi-me imposto que arranjasse um outro com urgência. Tinha uma semana, Grande Khan, para conseguir um novo salvo conduto. Pus de imediato maos à obra.

 

Informei-me sobre o local a que deveria dirigir-me para conseguir os ditos documetos e foi-me dito, por fonte segura, que teria de subir ao cimo do Monte Gólgota, onde estaria o Bairro do Processo. Nesse bairro, poderia achar o Castelo de Kafka, e aí se trataria de tudo.

 

Ajeizei o meu burro, compus o meu alforge, preparei o meu farnel, juntei os meus pertences, ajeitei mais um ou dois negócios e pus-me a caminho do Grande Castelo.

 

Lá chegado, informei-me mais um pouco e soube que deveria ir à chamda «Loja do Cidadão», invenção brilhante do Governo Tártaro. A Loja fechava às 19h30 e eu cheguei às 16 horas e 30 minutos. Havia a nº2 e a nº1. Por se encontrar mais próxima de onde me achava eu, segui até à nº1, na Praça dos Roedores.

 

A viagem e o trabalho  (os negócios durante a semana podem prolongar-se até horas inconvenientes) forçaram-me a chegar, como disse, às 16h30. A hora, sendo moderada para uma tarde de praia, é bastante tardia para um serviço tártaro de carácter público. Assim, a 3 horas do encerramento, já se podia ver a mensagem: «Devido à forte afluência de público e à fraca capacidade dos nossos recursos humanos, já nao será possível recolher senha». Fiquei frustradíssimo e bastante irritado, mas fui felizmente informado, pela Sra. D. Funcionária Pública nº1 (depois de perguntar, claro está) que podia pedir o Passaporte também no Governo Civil que se encontrava na Rua dos Burocratas, junto à Praça dos Camelos. Neste Grande Castelo, até as salas recebem nomes de ruas, devido ao seu tamanho e à dimensão dos corredores. É efectivamente necessário, Ò Sol na Terra, percorrer uma longa distância para viajar entre eles e elas.

 

No Governo Civil voltei a deparar-me com o problema das senhas que não podiam ser tiradas a partir da hora tal, apesar de o estabelecimento Civil só fechar à hora tal e tal. Cheguei depois da hora tal, mas tive sorte e pude ainda tirar senha  e esperar a minha vez. E esperar. E esperar. E esperar. E esperar. E foi a minha vez.

 

A Sra. D. Funcionária Pública nº2 perguntou-me o que queria. Eu respondi. A Sra. D. Funcionária Pública nº2 pediu-me o BI. Eu nao o tinha. Tinha entao de voltar no dia segunte, com BI. Impossivel fazer o Passaporte.

 

Voltei, Grande Khan, porque era preciso. E levei BI. Mais uma vez, devido ao meu trabalho, não pude chegar à hora que queria. Mais uma vez, tive sorte e consegui receber uma senha fora de horas, fornecida simpaticamente (na atitude e não nos modos) pelo Sr. Agente da Autoridade nº1, para pedir o meu título de viagem.

 

Estava o Sr. Funcionário Público nº3 a tratar do dito, quando dá de caras com uma horripilante estranheza: a minha altura, Grande Khan, nao estava a coincidir!! Parecia que o astuto investigador estatal decobrira que no BI nº1 que eu lhe apresentara eu media 1,78 (a minha altura normal), mas que, no BI nº2 registado no sistema, eu media 1,76 (a minha nova altura) e que, na verdade, o BI nº1, em termos cronológicos, era o BI nº2 e o nº2 o nº1, o que provava que eu perdera tambem o nº1, nao me servindo para isso o nº2, mesmo que se encontrasse dentro da validade. Concluiu-se ainda perante estes  factos que eu, perdendo os dois, e reencontrando um deles, confundira os BIs, e que tinha agora de fazer novo BI (o nº3, que era afinal, desde a minha infância, o nº13, número malvado!) para poder ter o Passaporte nº1 que, contando com renovações e extravios atenriores, seria, na verdade, o nº4.

 

Em primeiro lugar, como lhe terá quase acontecido, Ò Khan, eu fiquei confuso. Depois fiquei zangado e vociferei uma série de disparates que não devia num tom que não devia. O Sr. Funcionário Público nº3 foi chamar a Sra. D. Funcionária Pública nº2 que, pelos vistos, era manda-chuva, enquanto a Sra. D. Funcionária Pública nº4, algo entediada, para se entreter, me deu conversa mole (e na sala, mais utentes à espera).

 

Chegada, em pompa e circunstância, e bem emoldurada em porte autoritário, a Sra. D. Funcionária Pública nº2 informou-me da impossibilidade de se proceder à execução do meu requerimento, visto estar-se defronte a uma anomalia das mais irregulares e incontornáveis. Era portanto legal e kafkaniamente evidente que eu teria antes de mais de requerer e consecutivamente  obter com sucesso um novo título de identificação nacional, a fim de requerer e consecutivamente obter com sucesso um novo Título-de-Viagem-Internacional-Extra-Desunião-Europeia. 

 

Confrontada com este discurso, a minha calma frágil ficou ainda mais nervosa, e eu vi-me forçado a retirar-me com carácter de urgência, de modo a não fazer uma asneira grave que me desse problemas mais graves do que a asneira com a autoridade local.

 

Tinha portanto agora, esquecendo momentaneamente o Passaporte, uma nova missão: Fazer um BI.

 

Voltei à Loja do Cidadão nº1.

 

Ora, quer-me parecer, Ò Magnificente, que o Demo andava a seguir os meus passos. Porque outra vez tive, na Loja nº1, de lidar com o  problema das senhas. Como? Simples:

 

Fui ao Serviço Especial de Fabricação de BIs na Praça do Areal.

 

E que foi que encontrei? É verdade! Outra vez o problema das senhas! Desta vez perdi as estribeiras. Desbaratei com o Sr. Agente da Autoridade nº2 que desbaratou comigo com razao por ter desbaratado com ele sem razão, fui ao balcão nº1 onde a Sra. D: Funcionária Pública nº5 me encaminhou para o balcão nº2; corri ao balcão nº2 e.... e, naturalmente, assistido pela Sra. D. Funcionária Pública nº6, apontei  uma reclamaçao no Livro-Especial-De-Recamaçoes-Do-Cidadao-Viajante-Já-Completamente-FodXXX.

 

Reclamação apontada, aproveitei ainda para me informar convenientemente com a Sra. D. Funcionária Pública nº6 de quais seriam todos os requisitos burocráticos necessários à emissão de um Bilhete de Identidade de Cidadão Nacional com Emissão de Urgência. A Sra. D. Funcionária Pública nº6, a única efectivamente prestável e informada, explicou que, para a emissão de um cartãozinho estatal, eu precisaria de (dois pontos)

 

Duas fotografias recentérrimas.

Um documento de identificação, de preferência fotografado com o meu belo rosto mediterrânico, igualmente recentérrimo, isto é, dentro da validade.

7,55 euros para impressos.

1,50 euros para taxa de urgência, susceptível de aprovação, consoante razões indicadas.

Comprovativo de urgência (fosse ela médica, profissional, pessoal, íntima, superíntima, top secret ou que-porra-tem-você-a-ver-com-essa-merXX?!).

Certidão de Nascimento.

 

A Certidão de Nascimento, grande Khan! De imediato, esqueci momentaneamente a necessidade do BI e abracei, concentrado, a minha nova missao: obter uma Certidão de Nascimento...

 

Com isto, Grande Khan, já quase me esquecera de que aquilo de que eu realmente precisava era... um Passaporte...

 

Segui então para a Conservatória do Registo Civil, no Grande Salão dos Homens Sem Cabeça, onde deveria obter a imprescindível Certidão. Estava agora numa enorme torre, um dos pulmões da Hidra Burocrática, e sentia-lhe, ó Imenso, o bafo azedo.

 

No piso 0, viam-se coladas ao longo de uma larga parede várias placas, cada uma delas ostentando uma Freguesia da Cidade Olissiponesinfernalis, nome comprido, mas poético e revelador. Cada utente deveria dirigir-se à Freguesia do seu Nascimento para aí requerer a respectiva Certidao. Eu dirigi-me portanto ao andar correspondente à minha, a Freguesia de São Teotónio de Veneza, que, de acordo com a placa, se achava no 5º andar. 

 

Chamei o elevador que levou 5m a chegar ao piso 0 do piso-não-imagino-qual-seja. Carreguei no botão do 5º andar. O elevador parou em todos, não fosse por acaso enganar-se, e lá me deixou no 5º.  Entrei na sala, tirei a minha senha e... Esperei. E esperei. E esperei. E esperei. E foi a minha vez. 

 

Sou então informado pela Sra. D. Funcionária Pública nº7 de que no ano do meu nascimento, em 1578, e no ano do meu registo, em 1581, o que contava para registo era, não a minha Freguesia, mas a da mãe.

 

Ligeiramente transtornado, mandei-a a ela para outra Freguesia e voltei ao piso 0 para reavaliar as placas na parede e assim descobrir o andar correspondente à Freguesia da mãe: era a da Sta. Embuchada, o 9º andar.

 

Chamei o elevador que levou 5m a chegar ao piso 5 do piso-não-imagino-qual-seja. Carreguei no botão do 9º andar. O elevador parou em todos, não fosse por acaso enganar-se, e lá me deixou no 9º.  Entrei na sala, tirei a minha senha e... Esperei. E esperei. E esperei. E esperei. E esperei. E foi a minha vez. 

 

Dirigi-me à Sra. D. Funcionária Pública nº8 e apresentei-lhe a senha e a situaçao. E... bom...

 

Todos os registos anteriores ao ano 1600 não se achavam ali mas... no 1º andar. A Sra. D. Funcionária Pública nº8 deve ter um santo padroeiro, porque, apenas devido à indigestao que tal acto provocaria no meu estômago sensível, por ter pouco antes comido uma chamuça, nao a engoli viva na hora.

 

Chamei o elevador que levou 5m a chegar ao piso 9 do piso-não-imagino-qual-seja. Carreguei no botão do 1º andar. O elevador parou em todos, não fosse por acaso enganar-se, e lá me deixou no 1º.  Entrei na sala, tirei a minha senha e... Esperei. E esperei. E esperei. E esperei. E esperei. E foi a minha vez. 

 

Falei com a Sra. D. Funcionária Pública nº10 que substituiu a Sra. D. Funcionária Pública nº9 que foi coçar a micosa para uma secretária com computador avariado. A Sra. D. Funcionária Pública nº10 precisou de 5 minutos para encontrar a minha Certidão, e conseguiu fazê-lo nesse tempo record, porque eu disponibilizei a seguinte informação:

 

O Meu nome é Marco Alexandre Génio Magno Super Polo, profissão mercador e explorador, ao Serviço do Grande Khan do Mundo Civilizado. Tenho 29 anos, mas vou fazer 30 em menos de uma semana. Sou génio e imortal. Tenho 1 metro e 77 ainda por confirmar, cabelos loiros (mais ou menos) e olhos azuis (menos mais). Calço o 43 ou o 42 ou o 44 dependendo do sapato e da altura do ano (se o pé incha ou não com o calor e o couro do sapato diminui muito ou pouco no Inverno). A minha mãe tem por nome Agripina Virulenta Peste Negra Bubónica Botifarras e nasceu na Fregueisa de Santa Embuchada, em 1453, ao passo que eu nasci na Freguesia de São Teotónio de Veneza em 1578, com ano de registo em 1581, tendo ficado o respectivo documento guardado no assento 9500/35b da 3ª gaveta do 2º armário do 7º balcão do 23º móvel da coluna do lado direito, 2º nível.  É a quarta ficha a contar da frente.

 

5 minutos, portanto, com estas poucas iluminações. Depois precisou de mais 15 minutos para fazer cópia autenticada da referida Certidão. E precisou de mais 10 minutos para receber os 8 euros de que me extropiou e passar o respectivo recibo. Por mais incrível, Ò Khan, que te possa parecer, doeu-me mais a espera do que a bolsa.

 

Ainda assim, tudo corria mais ou menos bem, ate que expliquei que precisava de justifcação para apresentar ao Director do Centro de Comerciantes Europeus. Não havia folhinhas de justificação. Tinha de se tirar cópia. Que drama! Precisou de pedir auxílio à Sra. D. Funcionária Pública nº9 que não tinha a quem pedir ajuda e tinha dificuldade em consegui-la de si própria.

 

Depois de muito debate, conseguiram ambas as Sras. concluir que importaria recuperar o documento a partir do PC nº1, imprimindo-o primeiro na Impressora nº1 e tirando depois cópias (várias) na fotocopiadora nº1. Mas o PC nº1 estava com avaria e a Impressora nº1 nao tinha papel. Felizmente a fotocopiadora nº1 estava em ordem. Mudou-se a Sra. D. Funcionária Pública nº9, com um "Ai meu Deus!" para o PC nº2 - estava ocupado. "Ai meu Deus!", tentou o nº3, não tinha o documentozinho, "Ai, meu Deus!", seguiu para o nº4, ufa!, tudo em ordem,  "Graças a Deus", mandou imprimir para a impressora nº2, não tinha tinta, "Ai meu Deus!", mandou para a nº3, não havia ligação, "Ai meu Deus", tentou a nº4, funcionou, "Graças a Deus!", quis fotocopiar, enganou-se, fotocopiou o lado branco da página, "Ai meu Deus!", virou e... funcionou!, "Graças a Deus!", entregou o fruto do seu trabalho suado à Sra. D. Fucionária Pública nº10 com grande expressao de orgulho, aplaudiram-se e rejubilaram, e acrescentou a nº9: "Já está, bendito seja Deus!", voltou para a secretária onde antes, tao compenetradamente, coçava a micosa... E explica a Sra. D. Funcionária Pública nº10 enquanto tenta preencher (com dificuldade) a informação relevante à justificaçao:

 

"Bem vê, nós damos o nosso melhor, nao podemos trabalhar mais depressa; mas isto está tudo uma desgraça, nada funciona! Nao há condiçoes! E se nós trabalhamos no duro!".

 

E, dizendo isto, reforça a lentidao do gesto e os olhinhos de carneiro acoçado e lânguido. A incompetência e a burrice acopuladas, Ò Senhor dos Senhores, dão, efectivamente, um curioso espectáculo. Se o visse no cinema, rir-me-ia muito. Todavia, naquele caso de urgência, confesso, com alguma vergonha, não lhe achei muita graça; e com prazer agraciaria a Sra. D.  PutX, perdão, Funcionária Pública nº10, com uns valentes tabefes, numa espécie de exercício de representaçao de todo o Serviço Público. Algumas cabeças sensíveis verão nisto motivo de choque. Eu vejo nisto uma medida a tomar e entendo que tal violência chegaria mesmo a constituir, para a referida nº10, uma tremenda honra, que se veria  subitamente retirada da sua insignificância executiva e subalterna para uma diginificante e visível tarefa de representação de uma Mais-Ou-Menos-Distinta-Comunidade-de-Párias.

 

Mas prossigamos.

 

A Sra. D. Funcionária nº10 enfrentava agora um novo obstáculo, por certo criado pelo Malvado-Fantasminha-do-Serviço-Público: por mais que tentasse (e se tentava!!!) não conseguia encontrar a minha senha; e sem a minha senha, que pelos vistos se extraviara (como o meu Passaporte) entre as outras, nao poderia a dita vacX, digo, Sra. D. etc., passar a justificação, ja que a hora era absolutamente essencial e a hora estava na senha que não estava alí!!!

 

Que mistério! Pensei em Sherlock Holmes, em Miss Marple, Inspector Clousot, Hercule Poirot, Perry Mason, Columbus, no herói de Simenon, em Jessica Fletcher, Mr. Quinn, sei lá mais! Mas nenhum destes génios indutivos da observação, e dedutivos da investigação, se mostrou disponível para viajar até tão assombroso Castelo para resolver o enigma.

 

A gravidade do caso ameaçava tomar proporções animalescas, até que me ocorreu falar à Sra. D. nº10 da minha situação clínica: Devido a uma perturbação da circulação da minha corrente sanguínea, eu era, em situações de stress, atormentado por fortes espasmos involuntários, que me levavam a, subitamente, erguer e projectar um ou os dois membros superiores em directa direcção do elemento que, de mim, se achasse mais próximo. Aferindo-se, naquele instante, que o elemento mais próximo seria a Sra. D. Funcionária Pública nº10, e aferindo-se igualmente o meu elevado nível de stress,  facilmente se concluiria que, apesar da involuntariedade indiscutível, seria ela o alvo do meu humano projéctil, vulgarmente conhecido por tabefe.  O meu caso raro e preocupante suscitou na boa senhora uma profunda compaixão e essa compaixão suscitou por sua vez um milagre; e, quando menos eu e ela (ò cépticos!) esperavamos, ele (o milagre) deu-se divina e inteiramente; e...

 

 "Graças a Deus!", encontrou a senha, mas "Ai meu Deus!" não achava a caneta, mas "Graças a Deus!" tinha uma suplente, mas "Ai meu Deus!" caiu ao chão e nao podia curvar-se, mas "Graças a Deus!" emprestei-lhe a minha e expliquei: «se deixa cair essa»... e Aleluia! preencheu o que faltava, mas "Ai meu Deus!" não encontrava o carimbo, mas "Graças a Deus" enfim lá estava... bom, está a ver a cena, nao está, Ò Glorioso?!

 

E eu, devo dizê-lo, era já uma caldeira prontinha a explodir, quando a Sra. D. Funcionária Pública nº10 se sai com a pérola final: «Não passo justificaçao a contar com a hora a que entrou no edifício, porque não posso saber a que hora entrou no edifício, mas a contar  com a hora da senha, porque, por causa da senha, só posso saber a que horas entrou com a senha».

 

Vi-me forçado a apresentar-lhe uma ou duas frases mais viris. Exigi medidas. Foi chamar o Superburro, o Sr. Dr. da Mula Russa Funcionário Público nº11, figurão pequenino com fronha de boi, que coordenava a pefeição da desordem local. O respectivo, talvez por ser Dr. e Superburro, tentou espingardar, mas eu mostrei-lhe, com outra bonita associação de frases inflamadas, que estava a falar de coisas sérias e pronto a tomar medidas drásticas. Ele, por sua vez, amainou e eu massagei o ego, mas continuei a ter a justificação com a hora errada. Para não partir tudo (uma vez mais), porque achei (erradamente) que não tinha tempo para o autografar com mais uma reclamação pública e, finalmente, para nao me prejudicar gravemente com a autoridade local, retirei-me com a preciosa Certidão e ganas de mandar a Torre abaixo.

 

Era hora de recuperar a missao BI.

 

Tive de voltar à Cidade para tratar de mais alguns negócios (de novo o trabalho a impedir-me a resolução da burocracia) e voei para o tratamento do BI. Uma atenciosa colega (agora convenientemente de férias para estrategicamente se furtar à minha ira) aconselhou-me, solícita, a, para não voltar a correr o risco de não ter senha, ir à Loja do Cidadao nº2, na Rua dos Laranjais dos Mongos, onde tudo se trataria em menos de um "ai", na secção "Perdi-A-Minha-Bolsa-de-Negócios-Quase-Medieval". Segui a indicação. Dirigi-me à Sra. D. Funcionária Pública nº12 que informou que eu deveria ir ter com a Sra. D. Funcionária Pública nº13 que me disse que naquela situação o responsável seria o Sr. Funcionário Público nº14 que... não se encontrava no seu posto.

 

Aguardei. Aguardei. E voltei a aguardar. Ele chegou e eu esperei a minha vez. Pude então ser informado de que deveria tirar senha no Guichet nº1 para seguir para o Guichet nº2 comprar os Impressos, podendo finalmente tratar do pedido no Guichet nº3. Mas, depois de tirar senha no nº1 e de aguardar a minha vez no nº2 fui informado pelo Sr. Funcionário Público nº15 que, se eu pretendia emissão de urgência, não me serviria seguir para o Guichet nº3, porque a Loja do Cidadao nº2 nao passava BI com urgência, apenas com emissão regular, o mesmo se passando com a nº1, e que, para conseguir a emissão de urgência, deveria dirigir-me à... Praça do Areal onde já estivera anteiormente...

 

Bufei, meditei, inspirei, expirei, suspirei, irei e...

 

Fui.

Cheguei.

Uma vez mais não havia senhas.

 

Eram as cinco e meia da tarde. Lancei-me que nem um tigre malásio ao balcão nº2 (o das reclamações) onde reencontrei a Sra. D. Funcionária Pública nº6. Estava já para voltar a pedir o livrinho amarelo, quando recebo a informaçao de que o Sr. Funcionário Público nº16 ia distribuir, à mao, algumas senhas extra. Muito conveniente. Os restantes utentes, apinhados em filas que não tinham sentidos, mal souberam da noticia, atiraram-se ao homenzinho com bestial ferocidade. Até eu me assustei, e estou habituado, como sabe, às mais terríveis feras!

 

Consegui a minha senha. Respirei com algum alívio. Agora só tinha de esperar.

 

E esperei e esperei e esperei e esperei...

 

Estava a chegar a hora de fecho e havia ainda muita gente com senha para atender. De súbito, como milagre, Srs. e Sras. Ds. Funcionários e Funcionárias Públicas nºs X, XL e XXL brotaram do solo sem recursos humanos e apareceram nos seus inúmeros Guichets vazios onde, à velocidade da luz, despacharam duas centenas de utentes provando, contra todas as más-línguas, que o Serviço Público e os seus empregados sao altamente eficientes.

 

Chegou assim a minha vez. Apresentei-me, apresentei o meu propósito e os meus 1100 documentos oficiais disto e daquilo. Fui medido e fui digitalizado. Estava a lidar com a Sra. D. Funcionária Pública nº17. Era agora chegado novo momento crítico. A sra. D. Funcionária Públcia nº17 tinha de aprovar o meu pedido de urgência. Aguardei que a dita, com ar circunspecto, lançasse a respectiva aprovação na minha justificação de...

 

"PorXX-MerXX-Para-Esta-Grande_CarXXXXXX-Será-Que-Você-Não-Vê-Que-Eu-Estou-Mesmo-Com-Pressa???" 

 

Depois de finalmente aprovada a minha justicação com a Sra. D. Funcionária Pública nº17, justicação que implicava, como se viu, exposiçao da minha vida privada, no caso de um e-mail, pude seguir para a Sra. D. Funcionária Pública nº18 para comprar o impresso da urgência.  Mais aliviado (e mais sujo de tinta identificadora), procedi à dita aquisição no balcao nº1, junto da Sra. D. Funcionária Pública nº18. Eu não tinha dinheiro vivo, e ela não tinha multibanco (morto?). Tive de ir levantar.

 

Voltei para junto da Sra. D. Funcionária Pública nº18 e esperei que um outro utente (o nº 796 desse dia, para aquela secção nº1) fosse atendido. Rechegou a minha vez. Paguei. Preenchi o malfadado impresso e regressei à Sra. D. Funcionária Pública nº17 (onde foi que já vi isto?) para que fosse requerida a malfadada urgência e concluído o malfadado processo. O que faltava ali fazer-se foi feito, o que faltava assinar foi assinado, o que faltava dizer foi dito, só faltava mesmo conseguir fugir dali. Fugi.

 

Podia agora regressar à Praça do Areal no dia seguinte para levantar o meu puerilíssimo BI, o que fiz.

 

Tirei a minha senha - desta vez já havia!, esperei a minha vez na fila. E esperei. E esperei. E esperei. E esperei.

 

De novo confusões com as ordens de quem estava primeiro (mesmo com senha) e lá chegou a minha vez. A Sra. D. Funcionária Pública nº18 (sim, a tal do dia anterior! e eu rejubilei com uma cara conhecida!) precisou de alguns minutos, mas encontrou o meu BI novinho em folha com o meu confirmado metro e sententa e seis oficial (merda, estiquei e encolhi como a Alice no País das Maravilhas, mas acabei a história mais pequeno!), e cá estou hoje, Ò Khan, diante de ti, para te dar novas frescas de um mundo que está pôdre, informaçoes riquíssimas sobre um Universo que nao vale absolutamente nada, como hoje se apresenta aos teus olhos.

 

Ainda tenho de fazer o Passaporte, que deu origem a toda esta aventura, entretanto foi feriado, depois fim de semana, e nao sei (restam-me apenas dois dias) se vou conseguir tê-lo pronto a tempo. Até agora já gastei cerca de 25 euros, muita saúde e muitas pernas, ainda tenho mais 90 euros para gastar, e nao sei se vou conseguir ter o documento que tanta falta me faz. Sei apenas que ainda me aguarda uma valente dor de cabeça e mais confrontos com os Srs. e as Sras. Ds. do Fabuloso Serviço Público Tártaro.

 

O Castelo de Kafka é um verdadeiro Castelo dos Malditos e precisa, Ò Khan, de ser derrubado. O Governo Tártaro fala muito de um Simplex, e diz que é mágico, mas o Governo Tártaro nunca me inspirou confiança alguma.

 

O Mundo Não Civilizado precisa de ti, Kublai Khan, e tu, que tudo podes, nao podes voltar-lhe as costas: nao sou eu, que, miserável, to peço, mas a tua sabedoria que o exige. O Teu Reino é bom, porque tu és Supremo, e os outros povos merecem a Luz do teu Bem. Os domínios Tártaros merecem ser conquistados...

 

Sê generoso, Khan! Invade a Tartária! Livra o Mundo das Trevas!

 

Sinto-me, Sento-me, Ressinto-me...: De rastos, mas erguendo-me
Sem Som: Épica, naturalmente
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 16:00
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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Sobre os Manos Siameses

Hoje, ò Ilustre, vou contar-te uma pequena história curriqueira. É uma parábola ilustrada sobre aquelas pessoas tão amigas, que não se largam em circunstânciaalguma; mesmo quando parecem inimigas, amam-se incondicionalmente, e, o que uma faz, a outra faz também:

Na casa do PSI20, encontramos, frequentemente, os manos BCP e BPI, no seu sofá, a ver televisão. E, não poucas vezes, podemos assistir a esta conversa:

Mano BCP: Estou cansado de ver este programa. Acho que vou lá abaixo.
Mano BPI: Espera que eu já desço!!!!´

 
(Mais tarde:)
 
 

Mano BPI: Estou cansado de estar aqui em baixo. Vou voltar lá para cima.
Mano BCP: Espera que eu já subo!!!!!
 

(Mais tarde:)

 
Mano BCP: Acho que hoje não me apetece mesmo sair daqui. Até se está bem com a TV e a cervejinha, ãh?
Mano BPI: Sim, está-se muito bem. Mas hoje esta programação da DAX não está grande bisca. Faz lá um zapingzinho, mano - Espreita num instanteo o CAC ou o IBEX... Parece que hoje ia dar um filme de acção... Era com a AXA ou a TELEFONICA?
Mano BCP: Ora deixa cá ver... Olha, entretanto liga aí ao Constâncio! Pergunta-lhe se quer vir ver o filme connosco!
Mano BPI: Epa, que grande ideia!!! Vou já ligar... Tô Constâncio?... Óptimo! Porreiro pá! Cá te esperamos! ... E olha, não te esqueças das pipocas!!!!

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É assim a Banca em Portugal... Que país maravilhoso, ò Grande Khan! Deixa saudades de lhe ter saudades! Que pena não ser parte do teu Reino!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 01:51
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Sobre o Milagre do Fim do Indefinido

Aleluia, está decidido!!!! Parece que o Aeroporto Internacional de Lisboa na Ota, de Portela + 1 a Freixo de Espada à Cinta, vai ser em Alcochete!, essa bela localidade!!!! Aleluia, Altíssimo!!! (Perdoa-me, ò Khan, invocar o Cristianismo!) Kyrie, Hossna, Hossana, Kyrie!!!

 

 
 
P.S: Para quando o Parque Infantil, Sr. Ministro?
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 01:44
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Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Il Milione/ Il Millenium BCP - Sobre as Artes Invisíveis

Oh Grande Kublai Kan!, enfim venho falar-te das maravilhas do Mundo! Além dos teus domínios, numa outra Tartária, existe um Reino Quase Fantástico a que os homens que lá vivem dão o curioso nome: Portugal. Originais em tudo quanto fazem (até na sua preguiça), estes homens têm um talento particular para o exercício das Artes Invisíveis. São capazes das maiores barbaridades sem que ninguém, mesmo sabendo delas, possa vê-las, afinal, acontecer: Os seus actos detectam-se pelas consequências que têm e não pela sua execução.
 


Esta Arte da Invisibilidade, praticada e aperfeiçoada ao longo dos séculos, é aplicada nos mais variados meios com os mais variados fins. Não me crês? Pois vê, ò Grande, este singular exemplo: Nesta Tartária (não muito longínqua - pois afinal, além do teu Império, o Mundo é tão pequeno!) dá-se, neste momento, uma Guerra singular pelo controlo do Mercado Bancário. Uma Guerra que, como todas as Guerras, é política, ainda que, em todas elas, haja quem queira falar de sentidos humanitários, e religiosos, e sociais, e comunitários, e económicos... Por mais que as razões apelem ao sentimento ou, numa forma mais crua, às simples leis do Mercado, há sempre uma Razão de Estado (isto é, de Poder e da Vontade de obter o seu exercício) a interferir sobre a pertinência e o sentido de todas elas. Assim, depois de um curioso historial do que se supõe geralmente ser corrupção interna e externa (com conivência passiva das autoridades regentes ao longo de uns bíblicos sete anos), do que se imagina ser tráfico de influências, do que se observou ser guerrilha por conquista de uma e outra parte concorrente (OPA-Assumida VS OPA-Camuflada BCP-BPI e vice versa), chegam estes Mestres do Disfarce ao ponto alto da sua Arte do Invisível: Despoletar uma Guerra Partidária, de subtilíssimo (mais uma vez só se distinguem consequências!), subtilíssimo perfil, em pleno campo económico e privado.

Por um lado, um Governo com elementos sem força própria que, para a mostrar, precisam de usar as armas mais elementares do Totalitarismo; um Governo que, vendo-se subitamente em cheque pelo estalar de um escandalo que por sucessivas administrações deixou passar, procura encobrir a mancha no soalho da sua imagem exterior com um recurso de última hora que, a um tempo, possa garantir a impressão de estabilidade, controlo, segurança, intervenção, conhecimento e sageza: A medida? Recruta um alto funcionário da Banca Pública para o controlo do maior Banco Privado Nacional.

Efeito prático previsto para um futuro próximo? Pois já se vê, ò Grande Kan, qual deve ser!: Num impressionante gesto de invisibilidade (afinal, até, algo visível!) esse Governo controla uma percentagem impressionante do mercado financeiro dessa original Tartária, por ter nas mãos os cordões de titereiro do Banco Estatal e da mais representativa fatia da Banca Privada. Todos querem o teu Ceptro d'Ottokar!

E a Oposição, por seu turno (que muito democraticamente varia -numa riqueza de opções nunca vista - entre duas grandes forças que se alternam e "desalternam" no Poder [PS-PSD]), agora encabeçada pelo Sr. Dr. (porque,outro pormenor notável da cultura deste povo, até o sapateiro é Doutor) Luís Filipe Menezes (PSD) - este Sr., por acaso, só para contrariar, é realmente médico mas não está, segundo creio, em exercício -, parte também ao ataque, engendrando, sobre o minuto final, este magnífico plano: Cria uma outra Lista, paralela àquela Oficialmente-Não-Governamental, com um outro lider em consideração, lista essa e lider esse, cujos membros são, por mera coincidência (enigma do Destino), filiados ou simpatizantes do...PSD.

Em todas as culturas, Grande Kan,se acham maravilhas e lições. Deste povo eu te proponho, ò Rei dos Reis, a inspiração da subtileza, instrumento da Invisibilidade, e elemento revolucionário da Arte Sublime e tão difícil (mas que tu, ò Sábio!, bem conheces) de Bem Governar... E por hoje deixo aqui o meu relato... Que as estrelas te tragam um bom ano, Kublai Kan, e a todos os teus súbditos, de Aquém e Além Tartária, sem distinções, por agora, da sua idoneidade..
 
 
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