Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

O Homem Perfeito (Segundo Rudyard Kipling)

                                   IF

 

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

 

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

 

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

 

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!

 

----------------------------

 

O Homem Perfeito é feito por um se...

Golpe por Miguel João Ferreira às 18:45
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Em Tempo de "Crise" O Gume Homenageia Alberto Pimenta Com...

Discurso do Filho da Puta


O pequeno filho da puta
é sempre
um pequeno filho da puta;
mas não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho da puta.
no entanto, há
filhos-da-puta que nascem
grandes e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho da puta.
de resto,
os filhos da puta
não se medem aos
palmos,diz ainda
o pequeno filho da puta.
o pequeno
filho da puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho da puta.
no entanto,
o pequeno filho da puta
tem orgulho
em ser
o pequeno filho da puta.
todos os grandes
filhos da puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
dentro do
pequeno filho da puta
estão em ideia
todos os grandes filhos da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
o pequeno filho da puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho da puta.

é o pequeno filho da puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
de resto,
o pequeno filho da puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho da puta:
o pequeno filho da puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho da puta.

        II

o grande filho da puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho da puta,
e não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
no entanto,
há filhos da puta
que já nascem grandes
e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho da puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande filho da puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho da puta.
por isso
o grande filho da puta
tem orgulho em ser
o grande filho da puta.
todos
os pequenos filhos da puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
dentro do
grande filho da puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos da puta,
diz o
grande filho da puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos da puta,
diz
o grande filho da puta.
o grande filho da puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho da puta.

é o grande filho da puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa para ser
o pequeno filho da puta,
diz o
grande filho da puta.
de resto,
o grande filho da puta
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho da puta:
o grande filho da puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja,
o grande filho da puta.

 

(Por Alberto Pimenta)

Golpe por Miguel João Ferreira às 18:42
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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Poema do Condutor Embriagado

O homem agoniado de si mesmo

Ficou em frente ao semáforo a ver piscar o sinal intermitente.

O sobrolho franziu-se-lhe numa contracção involuntária.

O pé pisou o pedal de uma maneira impossível - todo o corpo invertido, o pescoço caído para o lado como o de uma galinha morta.

O homem estava com tendências suicidas (de acordo com o seu psiquiatra),

Mas a polícia escreveu "homicida" no seu relatório.

Eram as 5 e 25 da manhã.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:17
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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Antes de Padre, O Bordel... (Ou Soneto do Homem Que Tinha Medo de Sentir)

Chegou calado como se o negassem,
Olhou de esguelha como se o seguissem,
Sorriu de leve como se o forçassem,
Fechou a cara como se elas rissem.

Negou um beijo como se o culpassem,
Escondeu os olhos como se o traíssem,
Guardou as mãos como se roubassem,
Cerrou os lábios como se mentissem.

Sentiu desejos como se pecassem,
Pensou em corpos como se o tocassem,
Teve vergonha como se o despissem,

Torceu o corpo como se o esfolassem,
Largou um grito como se o matassem,
Expulsou demónios, como se existissem...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:33
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Sábado, 30 de Maio de 2009

Carolina

Carolina queria ser crescida,

e pintava os lábios;
Cresceu mas sentiu saudades

e vestiu um bibe;
De bibe, ansiou dormir

e fechou os olhos;
Dormindo, teve de sonhar

e pensou num príncipe;
Princesa, precisou de mais

e casou com ele;
Casada quis a completude

e pediu um filho;
Já mãe, desejou sossego,

teve uma criada;
Com tanto achou que era pouco

e sonhou ser rica;
Já rica nunca lhe chegou,

e quis aventura;
No mato, logo se assustou

e exigiu um guarda;
Guardada, tudo receou

e largou um grito;
Gritando, por fim acordou

e buscou alguém;
Mas como não fez, sonhou,

não tinha ninguém;
Sozinha, chorou, chamou

pela sua mãe;

Carolina está bem apenas

com o que não tem.

(PS: A imagem é um quadro a pastel de Carrie Gollar)

Que Farei Com Estes Gumes?: ,
Golpe por Miguel João Ferreira às 18:32
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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

Divã (Soneto Psiquiátrico)

O ar é pouco mais que rarefeito,

Há horas que desmaio como um morto;

Tristeza é como um fato sobre o corpo,

Um peito por detrás do outro peito;

 

Talvez se, como, Zweig, me envenenar,

Ou praticar seppuku, qual Mishima...

O certo é que já nada mais me anima,

Nem acho outras razoes p'ra respirar...

 

Preciso de uma morte anunciada;

Ou d'um qualquer teatro moribundo

Em que me esvaia, esquálido e imundo,

 

P'ra regressar à vida, tao mudada,

Já outro além do outro com que sou...

 Bem vê, Dr., faz parte do meu show...

Sinto-me, Sento-me, Ressinto-me...: The Show Must Go On!
Sem Som: Cazuza
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 20:49
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Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

No Gueto da Sensação (Soneto Blues):

(Onde Cada Corpo Se Trai a Si Mesmo)

Merda para o Soneto e as suas normas!
Remerda para o Ditador do verso!
Trimerda para as suas frases mornas
Tolhidas de sentido do Universo!

Fora letras feias de encomenda!
Fora régua e esquadro na[1] Emoção!
Fora Ilhéu da Escrita, de contenda
Da alma com o seu próprio coração!

Não há razão que valha ao sentimento!,
Nem regra existe que se imponha à Vida,
Mesmo se a Vida é um Formulário preto!

Jamais me apanharão (um só momento!)
Nessa armadilha suja da medida!
Que Deus me abata se isto é um Soneto!

Sapadores, 20/12/2007
 


[1] Nota do Autor: Versão Alternativa: Da.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 19:01
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Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Última Missiva

És vil, és reles, como toda a gente,
Não tens amor p’ra dar, mas quem o tem?
É só o Egoísmo, esse Insolente,
Quem manda nos afectos por[1] alguém.

Gostas por gostar como quem gosta
De fumar charutos de manhã;
Sentir é para ti como uma aposta,
E o coração, um rústico tantã!

Buscas o prémio – todos queremos prémios;
Buscas um ganho material e ôco;
Buscas, não o negues, o prazer.

É toda a gente avara pelos grémios.
Tudo o que tens, enquanto o tens, é pouco;
Vale todo mal, menos perder…

[1] Nota do Autor: Versão Alternativa: De
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:16
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Numa Partida de Cartas (Ou Sobre a Mesa do Capitalismo)

Quatro distintos déspotas tenazes,
Sobre o quadrado verde da Pobreza,
Vão, em bufos, arremessando os ases
E a sua tirania sobre a mesa.

De focinho[1] lampeiro e um charuto,
As distintivas marcas dos soberbos,
Fitam as cartas com um olhar astuto
E cospem merda mastigando os verbos!

– Dois pares de reis! – Diz um – Dois pares, senhores!
Façam melhor, se houver engenho e jeito!
Até vos estala, ãih? Como chicotes! –

Sacode então a banha com calores,
Palpando, porco, um “não-sei-quê” de peito
De esquálidas e apáticas cocotes…

[1] Nota do Autor: Versão Alternativa: Lacinho
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:10
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Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Num Bar


I

O embusteiro percorre os longos trilhos do bar.
É um actor cansado de novelas.
Faz tanto tempo já que anda a brincar
Por palcos e por telas!


Passa por gente e por coisas, mas tudo é sombra e tristeza.
Vive no Além, e abstrai-se, ausente.
Há muitos anos, era só leveza!
Hoje ele está diferente.

«Álcool! Antes que eu desmaie! A sobriedade adoece!
Acaso quer você que eu desfaleça?!»
E suplica um bagaço com uma prece,
Gingando com a cabeça.

No fundo está sozinho e quer cuidados. É humano!
Mas falta-lhe o governo de si próprio.
Vê fragmentos de si (e isso é um dano),
Como um caleidoscópio!

E julgando-se um ortónimo de outras vidas plenas
Recria-se em mais de mil maneiras.
Julga que assim mascara as suas penas!
E finge horas inteiras!

Faz um esforço insano, o que é de loucos!, para disfarçar
A frustração que sente em ser o que é.
Quer-se excepcional mas sabe-se vulgar –
Foi criado à má fé!

É um «engenho estragado!» de acordo com o seu prisma,
E qualquer aparelho quer concerto.
A cura do seu «estranho cataclisma»
É ter um bar aberto!

Um bar com gente, «ai! É Vinicius de Moraes! É Samba!»
É «A Felicidade» e outros sons!
Dancemos com o bagaço em corda bamba!
E a banda dá os tons!

«Amigos!, Pago duplos para todos! É minha a noite!
É minha a dor que trago só comigo!
Eu insisto! Já disse! Não se afoite!!
Cá está! Chamo-lhe um figo!

Aquela diva além, quero dançar! Que pernas lindas!
O Samba é festa! Ai, vem balançar!
Vem, doce, que eu te dou as boas-vindas!
Tens só tu de me amar!

Porque eu estou tão vazio no meu por dentro, ai sem razão!
Vivo em tonturas de me ter em mim!
Cansei-me de dar corda ao coração,
E o coração sem fim!

Hoje estou deprimido e eclipsei-me. Fora, Mundo!
Hoje quero o prazer de não lembrar.
Por isto, embebedei-me. Estou imundo!
Pudesse antes não estar!

Mas que sufôco, meu Deus! Abram janelas! Mais luz!
Matem gente, se acaso for preciso!
É indiferente, nada me seduz!
Nem o amor, nem o riso!

Sirva outro, garçon! É p’r’átestar! E não me embaia!
O outro que me deu soube-me a pouco.
Também Deus me deu vida, e tinha raia! –
Por isso fiquei louco!

Limites no sentir??! Tudo tão breve! Febre e Horror!
Doença de pensar e de ter ânsias!
Somos a lebre e o Tempo é o caçador.
Tudo o mais são distâncias.

Passam segundos, passam horas, meses, passam anos!
E, como os whiskyes, duplos de amargura.
E eu que passo em vão, como os decanos,
Sem ponta de ternura!»

E o intrujão emudece. Amplifica-se o silêncio.
Prolonga-se na noite e a Treva cresce.
E nem um mocho pia, (oh!, o Horror vence-o!)
A Sombra Eterna Desce.

Traz o Sétimo Selo na batina e a Foice à ilharga.
Não fala, não respira, não discursa.
Num gesto só, ceif’Ela a vida amarga,
Com a força de uma ursa!

E o impostor adormece, tombando no chão frio.
O burburinho morre num quebranto.
Nunca esteve tão cheio, este vazio,
De plúmbeo pasmo e espanto!

Ergueram-se alguns porfim do seu sid’rado torpor,
Para pegar no corpo ainda a expirar,
E o removerem (mas com que terror!)
Desse chão glaciar!

Deixaram os seus vícios e os seus egoísmos vis,
Tomaram o cadáver moribundo,
Uns pelos membros, outros p’los quadris;
Rezaram em quimbundo!

Gritaram em mil línguas os mil nomes da Fortuna
Sabidos no passar de cada porto;
Cantaram fados tristes de uma tuna,
Beberam pelo morto!

II

E alguém brindou então erguendo o copo
Aos astros que há no Céu.
E alguém gritou «Ladrão!; Tens esse corpo
Mas esse corpo é meu!»
Pois houve alguém que reclamou o morto –
E disse: «Ele sou eu!»

III

Ai esse alguém fui eu,
Ai, esse alguém fui eu!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:55
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Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Soneto de Conforto da Tristeza

Não plantes flores, que as flores são pesarosas,
Não ponhas novas esp'ranças nesse jarro;
Não dês mais beijos, lenços, lírios, rosas,
Não deites combustível nesse carro.

Morreu, está morto. A vida não regressa.
Se foi, já foi; não volta nunca mais.
Toma outro banho, sai e recomeça.
Outros virão, os dias, mais normais.

Cada tristeza tua é uma núvem
Que ofusca o céu da alma por instantes
Até se abrir de novo noutro sol.

Cuidado com os sentidos que confundem.
Sentir agora é já diferente de antes.
Não deixes ser mortalha o teu lençol.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:11
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Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Numa Qualquer Estrada Nos Sentidos...

Numa qualquer estrada
No sentido que me leva às obrigações,
Todos os dias,
Sempre que passo,
Há um menino segurando um balão.

Esquecendo por espaços os deveres,
Redescubro a alegria de encontrar um balão
Entre as mãos de alguém
Que ainda brinque com ele.

À lembrança de mim desce a Saudade
De brincar livremente,
Sem ter em mais que pensar,
E a nostalgia de reter esse fio
Que acreditava levar-me ao firmamento.

Sorrio, brevemente,
Com uma lágrima breve.
Depois, continuo o meu caminho…

E longe já da imagem desse menino pequeno,
Que brinca descansado e sem certezas
Sentindo (não buscando) a tal Felicidade
(Inocente e perfeita),
Vivendo os seus minutos
(Que não conta
E que não sabe contar)
Sem máscaras
Ou obrigações,
Assalta-me a tristeza de saber
Que nem todos os meninos sabem
O que é um balão
E o que podem fazer com ele
E tudo o que um balão representa.

E ainda mais triste é a certeza clara,
Provada pela experiência,
Que esse menino, em breve,
Vai esquecer o balão
E com certo prazer vai usar uma máscara
E com um certo orgulho vai ter uma obrigação
E com toda a responsabilidade do Mundo
Vai ser infeliz…

Eu desisti de todas as obrigações.
Por isso não corro mais aquela estrada incerta
E a criança perdeu-se além do meu olhar.

Sempre que olho o céu
Procurando um sinal,
Na esperança ainda de ver o balão,
Não vejo mais do que os pássaros.

Ó tu que tens nojo da máscara
E desprezas como eu as responsabilidades!
Ó tu a quem faz falta a antiga altura
Em que nada
Havia
Que pensar!

Se acaso correres a mesma estrada
E encontrares nela a criança,
Diz-lhe que não esqueça
A magia sublime de segurar um balão!

Assusta-a com a tua máscara
Como se fora o papão
(Que ela de noite teme),
Como se fora a bruxa horrenda (com que treme),
Como se fora Deus a vomitar!
Mostra-lhe os reveses da bonança!

Onde há a calma, há mudança,
Há tempestade no mar
Há tempestade no mar...
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:10
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Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Bom Senso e Bom Gosto

Não gosto do Sol.
Odeio a chuva.
O Sol abrasa o corpo
E mais do que comporto
Queima e turva. A chuva?
É confusão.
Que possa o Sol brilhar quando eu quiser
A um simples mover da minha mão!

Não gosto de jardins.
Detesto flores.
Jardins são terra arada
Contendo em si plantada
A vaidade dos Homens. Flores?
Ostentação!
Que as possa eu pisar quando quiser
E deixá-las desfeitas nesse chão!

Não gosto de animais.
Grotescas aves!
Animais são formas que respiram
Sem raciocinar. Deliram.
Só. Liberdade, as aves?
Sonho! Abstracção!
Que as possa apagar quando quiser
Do coração!

Não gosto do mar.
Repugno a terra.
O mar é o lugar da tempestade
Onde enjoo e naufrago. Felicidade?
Não existe. A terra?
Abençoada e fértil? Imaginação!
Que a possa cavar quando quiser
E por-me dentro em eterna hibernação!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 01:54
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Terça-feira, 25 de Março de 2008

Comigo me Desavim[1]

Estava eu sentado à beira do Abismo
Quando veio do fundo a Fúria de um Sismo:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Sentando-me à beira de uma Ravina
Veio um grã Tornado a tolher-m’a Vida:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Quando veio do fundo a fúria de um Sismo
Tremeram-m’as mãos com’um Cataclismo:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Veio um grã Tornado a tolher-me a Vida
Por achar minh’Alma a sonhar desabrida:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Tremeram-m’as mãos com’um Cataclismo
E o Coração é só Ocultismo:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Por achar minh’Alma a sonhar desabrida,
Veio um Monstro grande que me fez grã f’rida:
Ah!, E esse monstro vivia comigo,
Ah!, E esse monstro vivia comigo!

[1] O título é, como poderão reconhecer, um verso de Sá de Miranda.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:29
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Segunda-feira, 24 de Março de 2008

Idílios (À Moda Antiga)

Vês esse sol que brilha incandescente
E vem bater em todas as colinas?
Vês tu a lua d'ouro e transparente
Que se reflecte n'água cristalina?

O céu deixemos; vês naquele prado
A extasiante dança das boninas?
Consegues ver, naquele vale, deitado,
O bom pastor guardando suas bovinas?

E deixa o prado; sobe n'Avenida.
Crês nesse mar que, em sua correnteza,
Se bamboleia e aos barcos a seu gosto?

Tudo parece nesta triste vida…
Mas tu vês isto bem, tens a certeza?
Pois Tudo é Nada em vista do teu rosto!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:38
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Domingo, 23 de Março de 2008

Surpresa

I

Malmequer
Não o quer
Nem Muito
Pouco
Nem Nada.

Mas ele avança
(Está Mudo);

E ela conspira
No escuro;

Mas ele avança
(Está mudo);

E ela suspira
Enjoada.

Guarda a Morte
Enquanto espera
Dá-lhe a Morte
Envenenada.

Ela dança,
(Ele está mudo),
Ela respira
(Está escuro),
Ela respira
Excitada…

II

Foi um beijo?
Foi um murro?
Um ensejo,
Uma lufada
De um sopro que foi sussurro,
De uma carícia suada?

Nem carícias
Nem murmúrios,
Mas o frio de uma facada…

(…)

III

Malmequer,
Porque é mulher,
Já não me quer
Para nada.

Disse-se flor da manhã,
(Disse-se rosa encarnada!)
Mas despiu-se, a Escorpiã,
E cravou-me uma picada…

IV

Morri de amor, e por nada…
 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:29
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Sábado, 22 de Março de 2008

Proh Dolor 2 [1]

Estou só. Caramba! Tudo tão barroco! –
O rebuscado imenso das cortinas,
O taciturno ar de calabouço!
Júlia! Apresse-se! Abra a varanda!
Parece casa de mortos!
Mas o que faz, por onde anda?

Júlia não vem. Chiça! Tudo tão escuro! -
O abismo de todos os oceanos,
O precipício de todos os murmúrios
Estão em mim! Tudo se enguiça.
Ah! Pudesse ancorar em todos os portos
E por um termo à preguiça!

Mas não posso. Irra! E tudo tão triste! -
O cheiro do cigarro que ainda queima,
As marcas de uma ferida que persiste!
Estar vivo! Ah! Constipação! Espirro,
Como respiro, e é tudo.
O resto são recortes
De intriga rocambolesca! O que é, delira.

Por isso não sou. Arre! E foram tantos anos! -
"Magnum fuit" todo o desperdício!
Pouco é o que agora sobra: Um pouco de ar.
E para qualquer plano agora é tarde.
Quem possa que ponha mãos à obra.
Boa sorte. Eu cá me fico. Perdi o que estava por passar…

O sonho arde.

[1]Nota do Crítico Literário: d'Après Cesário.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:24
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Ficções da Vida - Um Auto-Consumo

Nesta noite de chuva
Se houvesse alguém que me amasse,
Que me emprestasse o seu ombro
E me abrisse um espaço
Onde pousasse a cabeça, frágil como loiças,
Talvez pudesse, um pouco, descansar.
Com alguém a amparar-me
E a ajudar-me a estabelecer as minhas metas
Julgar-me-ia feliz
Mesmo sabendo que não passava de um sonho…

Como o homem do campo pisa a uva
Até que dê mosto, até que o dia passe
E a noite chegue, e o assombro,
E o cansaço,
Eu pisaria o chão das coisas,
Com firmeza e vagar,
Até estafar-me
Ou até torná-las concretas.
Como não tenho ninguém, no meu almofariz
A mim mesmo me ponho;

E esmago-me, com nervo, inteiramente,
Até me esvair num sangue rubro e quente
Ou Morfeu jogar em mim suaves setas…
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 17:26
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Sábado, 15 de Março de 2008

O Mar

Menina
Descalça
Na praia
Realça
As conchas
Do mar.

Menina
Morena
Na noite
Serena
As ondas
Do mar.

Mimosa
Menina
Sorrindo
Caminha
Na água
Do mar!

Que importa
Se é fria?
Que interessa
A agonia
Se posso
Bailar?

E da Ilha
Do Fogo,
Se a música
Se ouve,
Começa
A dançar.

Se há
Desavença,
Na calma
Contempla
O claro
Luar.

«Ser livre
Ou fugaz!
Ter tanto
De Paz
Como d’água
O mar!»

Quão nobre
Desejo!
Mas, oh!
O que vejo
É tão
Invulgar!

Se alguém
Cai por terra
Ninguém
O alegra
Ou vai
Ajudar.

Perdendo
Uma mão,
Se noutra
Há valor,
Já lha vão
Cortar.

Que Mundo
Pagão!
E o senso
Cristão?
Perdeu-se
No ar!

Mas da Ilha
Do Fogo,
Se a música
Se ouve,
Começa
A dançar.

Se há
Desavença,
Na calma
Contempla
O claro
Luar.

Menina
Na chuva
Abraça
A espuma,
E os corais
Do mar.

E por entre
As algas
E os búzios
Desfralda
Sorrisos
Sem par.

«Menina,
A vergonha!
Juízo!
Componha
A saia,
O colar!»

Mas ela
Alheada,
Mergulha
Entre as vagas
E deixa-se
Estar.[1]

E da Ilha
Do Fogo,
Se a música
Se ouve,
Começa
A dançar.

E se há
Desavença,
Na calma
Contempla
O claro Luar.

E da Ilha
Da Calma
Onde a Praia
E a alma
São um só
Lugar,

Ela brinca
Com a vida
E na areia
Fina
Começa
A sonhar:

«Ser como
Esta Ilha,
Conter
Maravilhas,
Voar
Como as aves!

Manter
A Esperança
De ficar
Criança
Pela Eternidade.

Não ter
Pesadelos
E ser
Tudo Belo
Como azul
O mar.

Poder
Ser a sério
Este céu
Etéreo,
Não ter
De sonhar…»

E da Ilha
Do Fogo,
Se a música
Se ouve,
Começa
A dançar.

Se há
Desavença,
Na calma
Contempla
O claro
Luar.

Menina
Descalça
Na praia
Realça
As conchas
Do mar.

E brinca
Com a vida,
Na areia
Fina,
E põe-se
A sonhar:

«Não ter
Pesadelos
E ser
Tudo Belo
Como o mar
Azul.

Poder
Ser a sério
Este céu
Etéreo,
Não ser
Um paul…

Mas é tudo
Triste,
O azul
Não existe
No mar
Mas no céu.

As coisas
São feias
E as pessoas
Cheias
De angústia
E de breu.

Por isso
É o Silêncio
Que guardamos
Dentro
E nos faz
Pesados,

Por isso
Vestimos
Estes fatos
Pretos
E muito
Apertados.

Mas na Ilha
Do Fogo,
Há música!
Ouve!
Só tens
De dançar!

E se há
Desavença,
Na calma,
Contempla
O claro
Luar!

A dor,
O que importa,[2]
Se o Azul
Existe?
Vem ver,
Vem amar!

Há dor?
Não importa…
Porque em rir
Consiste
Viver,
Respirar…

E na Ilha
Do Fogo
Há música!
Ouve!
É dançar,
É dançar,
É dançar,
É dançar,
É dançar,
É dançar!»

[1] Nota do Autor: Versão brasileira: Se deixa/ levar.
[2] Nota do Autor: Versões alternativas: a) A dor?/ Que me importa?, ou b) Onde/ Qu'importa?, etc.
Que cada leitor escolha a sua preferida. Aplique-a após a escolha: SEJA A SUA PRÓPRIA VIA. Leu o texto? Mudou o texto. Mudou o texto? Fez poesia…
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:36
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sábado, 29 de Dezembro de 2007

In-Descrição

A típica mulher francesa
(Que se deita sobre a mesa,
E se rebola em can-cans)
É quente como o lume:
Arde por dentro e por fora,
E incendeia, na hora,
Mesmo a carcaça malsã!

Porque sabe que as causas são maiores
Do que ideais de livros moralistas,
A tudo o que é moral, ela é imune.
Tomou como costume,
E só por seus amores,
Tomar conta de si, a Idealista!

Pinta por isso as unhas e os cabelos
Como quem pinta telas de Lautrec:
«Antes de mais, um estilo impressionista!
Senão o for, alors, cherrie, forget! –,
Explica com grande entusiasmo –
«Os outros estilos, nem vê-los!
Gaston, os meus chinelos!
Je part en voyage
É uma senhora culta, já se vê,
Que despreza o pasmo e o marasmo,
Mas, estranhamente, aprecia a bricolage!
Ainda que com outras variantes…

Mas vá, o importante
É constatar como ela vê a vida
E as várias incursões no quotidiano:
Presumivelmente presumida,
Ela é na verdade uma bacante
(No sentido mais clássico do termo)
Que faz sagrado tudo o que é profano
Do ermo mais distante ao outro ermo!

E há beleza em ver que os seus olhos,
Que se refractem em folhos
De luzes siderais,
Mudam comummente e em casos tais
Que acompanham a razão do seu humor:
Reflectem a alegria e o azedume,
O frio e o calor!

E a côr que têm sempre é divinal:
Por vezes de avelã,
Por vezes côr de estrume,
Um tom constantemente excepcional!

Se acaso quer passar despercebida
(Por ser reservada e muito humilde)
Pinta os seus caracóis de permanente,
De um loiro oxigenado fluorescente,
De modo a que ele brilhe um pouco mais…
Zela, claro, para evitar os excessos –
Que são muito banais…

O Coiffeur é Jean-Marie Clotilde;
A toilette é feita na Crémilde;
E o tailleur é o Gigi, um inovador,
Um génio da Couture e do Progresso!
Nascer em França, está visto, é do melhor:
E nem importa se isso tem um preço…

Também é de espantar um seu capricho
(Muito inocente, e casto, por sinal)
Em (de acordo com um método importado)
Fazer do seu humilde lar um nicho
De festas de «carácter social».
Como o quarto de Hotel é alugado,
Ou a mansão paga por um noivo rico,
Madame encolhe os ombros: «Não tem mal!»

O facto é que ela é impressionante:
Enquanto nos artigos das revistas
Surgem boatos de ser materialista
E até um pouco libertina,
Ela mostra ser espiritual
E até conservadora em demasia!
Diz que é a sua sina!

Gosta pois de respeitar
(E quem diria?!)
Uma tradição de traços extravagantes
De, através de um particular exibicionismo,
(Que considera o bastante),
Se tornar na figura dominante:

«Dominar – afirma – é um preciosismo,
E o preciosismo quer-se praticante!»

Aprecia (à margem dos sofismas)
Observar com cuidado os vários prismas
Ditos «introspecções da vida»
De forma simples, coesa e resumida,
Para não abusar do seu papel
De intelectual assumida,
(De que é deveras fiel)
E que abraça com ternura especial.

Tem como tese principal o “Positivismo”
E um “à-vontade” fora do normal,
Com um lato sentido prático
(E isto é um eufemismo!)
Das coisas e dos modos.
O seu raciocínio, arguto, nunca é estático:
Viaja, e pensa os casos todos!

E ainda assim, pobrezinha,
(Talvez por (lá no fundo!) ser sozinha)
Chora por tudo:
Mesmo quando perde o gato! –
Mas esse Entrudo já faz um pouco parte
Daquela arte do sentimentalista:

Adora o teatro, o palco , o drama,
A maquilhagem fantasista!
Gosta muito de ser protagonista
(E o seu enfoque tem chama!)
De qualquer tema sócio-filosófico.
Como qualquer polemista organizado
Distribui as suas elações
(Nome que dá a difamações e intrigas)
Por secções, por dossiers, por siglas,
Por títulos, por quadros e por tópicos.

Tem muito tacto.
Disserta sobre sexo ao desbarato
E plena de sentido solidário
Aceita como aluno qualquer tolo…
É um(a) turista praticante e regular
Com inúmeras hipóteses no rolo!

Autodidacta, fala muito:
– Um pouco de tudo –
E este tudo (este muito!)
Note-se o brilhantismo!,
Está, do povinho, acima, muito furo!

Gosta de estudar em secretismo
O perfil da Concubina do Futuro…

Lisboa, 27/10/97

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:54
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Say Farwell, Don’t say Goodbye

Adeus grandes amigos mais ou menos!
Adeus, ò familiares mais que esquecidos!
Vou viajar, partir, subir os Renos
E os Tibres e os Senas dos sentidos!

Além do material vão e tangível,
Além das frustrações do quotidiano,
Disse-me um sonho, habita essa irascível
Rainha do Sagrado e do Profano.

El’ há-de devolver-me a luz ao dia,
Amar-me como as Dríades de Ovídio,
Soldar a minha alma tão vazia!

Vou viajar porque isto é um presídio;
Porque hoje decidi que me evadia;
Estava a pensar, talvez, num suicídio…

Lisboa, 25/09/06

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 09:01
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Ansiedade

I

Estou certo, amor, de ser como uma planta
Que o Tempo, esse Vilão, murcha e fenece.
É manhã. Chove; e o sol mal se levanta…
A chuva molha a alma que se espanta,
O vento assola o corpo que adoece…

Estou constipado em mim. Dói-me a garganta
Grandezas que sonhei, vi-as secar…
Eu quero a hora exacta, a hora santa,
A Ilusão da Vida, eterna manta
Que cobre o coração, ao dormitar…

Eu quero e espero ainda poder ter
Mais do que estas vontades sem matéria,
Mais do que estes desejos por haver,
E ideias por cumprir e por fazer
E planos de evasão desta Miséria!

Mas porque espero amor p’lo amor que espero,
Se tudo passa ao largo e não em mim?
Murchei. Está visto. O mais é o desespero
Normal em tudo aquilo quanto quero,
Tão próprio desse limbo de onde vim…

E tudo isto porque te ansiei.
Porque uma noite má sonhei contigo.
O que tu és surgiu-me e eu estagnei.
Posso abraçar-te a vida inteira, à Lei,
Dizer-te o que então disse, não te digo.

Mas digo-te isto, agora, se quiseres,
Como nunca, jamais, eu disse a alguém:
És toda a minha força, e os meus seres,
Todo o desejo que há no ter prazeres,
Toda esta Fé qu’ este meu crer contém.

E sei que se algum dia me deixares
Eu vou ficar mais sêco que um Outono,
Como um vadio perdido em mil lugares,
Correndo, grosso e vil, os lupanares,
Chorando em qualquer esquina o abandono!

E sei também, e tem isto seguro,
Que nesse dia que eu pressinto perto,
O mundo inteiro há-de ficar escuro,
A Morte há-de cobrir o meu Futuro,
E tudo há-de murchar com o desacerto!

Sim, tudo, tudo, tudo, é garantido!
Desde a mais breve flor de uma manhã,
Ao caule mais pequeno e mais escondido,
Ou ao tronco mais sólido e crescido
Que há-de tombar como uma folha vã!

E do silêncio tumular das ruas
Há-de brotar um grande cemitério;
E as gentes, enlutadas, brutas, nuas,
Hão-de sair das casas sob as luas
Fadadas pelos astros do Mistério!

E então, descendo as longas Avenidas,
Da Bonomia à Grande Perdição,
Há-de seguir a trupe das carpidas
Hienas velhas, tristes, condoídas,
Por ir a enterrar meu coração…

Morreu porque ansiou a tua vida
Junto co’a minha, num’eterna união…
Que utopia estranha e presumida!
Que grande estupidez irreflectida!
Que triste e singular alienação!

II

Sou planta de mim, em Babilónias
De almas mil que tive e que esqueci
Em sonhos de outros sonhos de sonhar.

Fui Rei do que vivi em cerimónias
Que inventei depois que me fingi
Um Rei com Roque e Reino onde Reinar.

Não tive jardineiro nem monções,
A vida fustigou-me em mil feitios,
Mil vezes vi as pétalas tombar.

Mas fui Senhor das minhas sensações,
Tive mais força em mim do que há nos rios,
Ri-me do Fim onde outro há-de chorar!

Num dia que há-de vir, no fim de tudo,
Um cavaleiro negro de capuz
Há-de agitar o braço, há-de ceifar.

E eu hei-de contemplá-lo inerte e mudo,
Eu hei-de ver o sol perder a luz
Eu hei-de ver os lagos a secar…

E hei-de então buscar os seus motivos
Pensar em mil razões p’r’ó sucedido,
Culpar a Sorte, a Vida, a Divindade;

Hei-d’ olvidar, dos Homens, serem esquivos,
Como fui eu a mão desse bandido
Que tomou forma na minh’ ansiedade…

III

Muito cedo na hora,
Muito vento.
Mas não é tão feio lá por fora
O Inverno que se faz sentir por dentro.

Uma ausência de gente;
Um certo muro.
O que sou desesperadamente
Busca um porto que seja mais seguro.

Ou uma mão,
Uma companhia…
Mas não há Sol que brilhe no serão,
Nem esta noite afasta, a luz do dia.

Sombra; reflexo de algum corpo.
Mas nada que possua nitidez.
Sou eu, és tu, é o outro e o outro;
E o outro, mais, por sua vez.

Tarde.
O sonho arde.
Continuo sem ter-te ou ter-me a mim
E tudo o mais em plena Solidão…

Que somos?
Que fazemos, nós, aqui? –
Adões e Evas do Eterno Jardim
À espera de cumprir a Maldição!

IV

Temos sonhos como toda a gente.
Mas nós sonhamos só pela metade.
Todo o espírito que é nosso é incoerente
E é o medo, sempre, que o invade.

E quem virá aqui pegar-me a mão?
Quem me afagará, estará por perto?
Tu não; ele não; vós não; eles não –
Muito menos aquele Deus incerto…

V

A Noite chegou só para mim...
Só para mim é tudo tão deserto...

VI

Aos outros,
Por serem outros,
A dor nunca lhes pesa.

Para os outros,
Pois são outros,
Nunca há Fim.

VII

Só para mim é tudo tão deserto...
A Noite chegou só para mim...

VIII

Os outros comem fartos uma carcaça obesa,
Os outros passam vidas de festim em festim.

Os outros…
Aos outros…
Para os outros…

Aos outros nunca pesa…
Porque me pesa a mim?

IX

Aos outros nunca pesa…
E se pesasse?
E se de súbito o vento lhes mudasse
E lhes soprasse a Dor por um clarim?

Viria, a raiva?
Iriam revoltar-se?
Degolariam o homem que passasse?
Arrasariam vilas num motim?

Não…
Talvez não tanto…

Talvez gritassem só, dessa aflição,
Ou apenas mendigassem um conforto…
Ou um consolo; um beijo; um fofo manto?
Ou uma nova pele para este corpo?

X

Mas para o Mal que enche a escuridão,
Que porta hão-de selar?
E a ferida que me arde o coração,
Como hão-de a suturar?

XI

À noite, ao longe, as flautas dos pastores
Parecem vir tocar na minha alma…
Escutai! “Ouvem-se já os rumores”
Que trarão paz e calma!

Festa! Banquetes e tambores!
E nós gozando a falsa liberdade
E a doce ilusão das iguarias…
A mesa está cheia, exultai amores!

E com a gula típica de um frade
Cuidamos de comer com alegria…
A mesa está cheia, exultai amores!
É a doce ilusão das iguarias…

XII

Mas terminado o pasto glorioso,
Quando entornado o sumo das garrafas,
Vemos com espanto que a mesa está vazia:

Nunca existiu o vinho saboroso,
Nunca tomámos as taças:
(Nunca tomámos os dias…)

E não nos resta mais do que a agonia
De ter provado um fruto inexistente…

Sensação tão fria
E permanente!

XIII

– Que terrível trapaça!
Estar sujeito à força de um Destino!
Ter a alma à deriva!

– Arrastar a carcaça
Sem noções e sem tino…
Viver d’ alma cativa…

– Odeio a vida que passa.
Tudo o que há, abomino…
Detesto tudo o que viva…

XIV

Vou mandar uma missiva
Aos Senhores do Universo
Com o seguinte documento
Registado em frente e verso:

«Ò Deuses do Céu Cinzento,
Ò Deuses mais que perversos,
Sou Filho do Sofrimento,
Bastardo de um Ser Disperso,
Minha mãe era um excremento,
Em nada do cão diverso,
Eu rastejo pardacento,
Só com as pedras converso;
E só a elas confesso,
Este meu estar desatento,
Desmembrado como um terço,
Trancado no Sentimento,
Já me cansei dos grilhões,
Da pena, do calabouço:
Atirai-me às multidões,
Ou para o fundo de um poço,
Que me façam arranhões,
Se me atirem ao pescoço,
Que me dêem com bastões,
Chicotes de cabo grosso,
Que me roam alazões
Até ao branco do osso,
Que me apaguem das razões
As sensações com que ouço
As minhas acusações
De não ser tudo que posso,
E as minhas frustrações,
As mágoas em que me roço,
E estas vãs pulsações,
E este inútil Pai Nosso,
E estas aspirações,
E este ver que sufoco,
E estas inspirações,
Ai este ver que sufoco!,
E estas expirações,
Ai este ver que sufoco!,
E estas respirações,
Ai este ver que sufoco!,
E estas transpirações,
Oh, asma de ser um fraco!,
Custa-me ter dois pulmões
Mas não ter fol’go de facto…

XV

Anseio por um Homem mais exacto…

XVI

Hora da Hora inconstante.
Que vedas o meu sossego,
Vai p’ra longe! Vai, distante,
Imolar outro borrego!

XVII

Porque hoje, que é o dia em que me nego…

XVIII

O corpo dorme e a razão está parada;
O corpo dorme e a razão… estendida!;
O corpo dorme e a razão é nada;
O corpo dorme. E o que faz a Vida?!

(…)

O relógio suspende o seu batente.
O relógio suspende o coração.
O coração suspende, descontente,
O relógio que marca a pulsação…

(…)

Pulsa, pulsa, pulsa ò sofrimento!
Pula, pula, pula, exaltação!
Ulular!, gritar! Sê barulhento!
Pulular, urrar, aclamação!

(…)

Eu que fui nada, e nada, e sou demente,
Tenho o globo aqui nas minhas mãos…

Simples nada
Alucinação.

XIX

Mas um sonho ainda a balançar!

(E uma ânsia!)

Um furacão, talvez, que se avizinha?
Uma impressão fugaz que antes não tinha?
Uma certeza insana de te amar?
Uma fome voraz de afirmação?

(Que ânsia!
Que ânsia que eu não tinha!)

Pudera então ao menos calcular
Essa medida exacta da distância
Que há entre mim e a minha…

…Perdição!

Um dia a minha dor será Rainha
Deste meu corpo em putrefacção…
Um dia a minha dor…

…Que solidão!

XX

E além da dor eu tenho uma impotência…
Uma abissal ausência de vontade…
E esta raiva, magma de vulcões!

Porque razão? Porquê, ò inclemência?
Porquê tamanha sina, ò Potestades?!
Porque me dais tamanhas provações?


XXI

Poder provar enfim a Divindade
Para saber que é como as povoações!:
Banal e reles, a vulgaridade –
Sem nada que a distinga dos milhões…

XXII

Mas nada posso além dest’ansiedade:
Ajo em receio, por hesitações;
Sou um cobarde, como a Humanidade.

Só sou sincero por simulações…

XXIII

Tudo em mim é incoerência,
Como a materialidade,
Sou absurdo sem razões!

De ter de ter Consciência,
Toda a tontura me invade;
Tremo em longas convulsões!

Vivo sem ter consistência,
Sem ter verticalidade,
Penso por abstracções!

Gasto-me em subserviência,
Sirvo com assiduidade
Dandys, Damas, Cavalões!

Dá-me náuseas a «Excelência»,
Toda a Regularidade,
Dever as contribuições!

Não posso mais, Paciência!
Não quero mais, Sanidade!
Não cedo mais, meus cabrões!

Hoje quero a Independência!
Esta é a Hora da Verdade…
Hão-de acabar os Glutões!

XXIV

E nesta Hora de Invencível Claridade…

XXV

Contribuirei, talvez, com a demência,
Com a leviandade,
Com os gazes das minhas refeições!!!

Asco! Asco! Asco das decências!
Da Sociedade!
Das multidões!

Nada mais são que aparências.
Pura falsidade!
Falsas aptidões!

E eu estou velho, sou velho, sem experiências…
Nem sei se passei pela mocidade,
Mesmo que digam que sim as sensações!

XXVI

AAAAAAAAAhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!

Ciências!
Liberdade!
Sem pressões!

AAAAAAAAAhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!

Definições…

XXVII

Preciso do concreto.
Algo que me assista de palpável.
O meu espírito vagueia como um espectro.
O meu corpo é dúctil, maleável.

Nada que conheça é definido.
Nada resiste.
Sou como um carro num troço mau, esquecido,
À espera do momento do despiste.

Quando virá a hora do acidente mortal?
Quando virá o abismo sobre o qual
Me conto despenhar?

Amanhã? Depois? No próximo Natal?
Em hora exacta à casa decimal?
Aqui? Ali? Noutro lugar?

Oh! Quantos?
Quantos?
Quantos?
Quanto mal?

Quantos sois irão ‘inda tombar
Até que chegue a fúria das monções,
Até que os nossos tristes corações
Cessem de pulsar?

Quantos,
Quantos,
Quantas depressões?!,

Quantos,
Quantos,
Quanto há-de faltar

P’ra fechar os salões,
Para o ser não vibrar…
P’ra calar os dobrões,
P’ra o Oásis secar,
P’r’ábafar os pulmões,
E a razão se apagar,
Para o fim das Estações,
Para a vida acabar?!!

XXVIII

Quanto mais se cava a Liberdade
Maiores são as prisões.
Quanto mais se cruza a Tempestade
Maior é o mar…

XXIX

O Mundo é o Carnaval das Ilusões.
Tanta ansiedade que há neste lugar!

XXX

Que ansiedade, sim, nos corações
E nestas trinta razões p’ra me matar!

Lisboa, 09/07/98

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 08:49
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Terça-feira, 14 de Agosto de 2007

A Queda do Anjo Negro

Adeus!, Adeus!, Jardins do trilho justo!
Da luz, da alma eterna e elevada,
Da calma, da paz mantida a custo,
Do êxtase, do gosto à carne rara!

Lugar preciso do fruto proíbido,
Pode ser visto, não pode ser tocado,
Tocado, não pode ser mordido,
Mordido, mas não saboreado…

Antes quero a perda a esse trilho,
Antes desejo a treva a esse brilho,
Antes a queda à alma su’jugada!

Melhor que a Paz, este eterno sono,
Melhor que a companhia, este abandono,
Melhor que o gozo, o já não sentir nada!

Lisboa, 14/02/00


 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 16:08
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Resignação

Amo o que me dás, seja o que fôr,
Seja isso a Morte, a Paz ou o Amor.

Amo o que me dás, mesmo se pouco;
Seja o ar, a sede ou o sufôco.

Sim, amo o que me dás, ‘inda se nada,
Oh, Vida!, de intenções empregnada!
 


Póvoa de Santo Adrião, 17/01/05


 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:28
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Domingo, 12 de Agosto de 2007

Suspiro

Morte! Morte! Viagem!
Horror da Vida, imensa estagnação!
Ar puro! Ar novo! Aragem!
Que mito doloroso que é a acção!

Lausanne,14/11/04

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 01:40
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sábado, 11 de Agosto de 2007

De Noite

Sangue nas têmporas pesadas;
Sangue nas paredes escuras da mansão;
Sangue nas mãos nervosas e apressadas,
Sangue no tapete, nas roupas, no chão.

Sangue na estátua de bronze à minha frente,
Sangue no punhal.

Sangue na mão que matou
E no corpo jacente,
Sangue que é meu, afinal…

Noite de tempestade,
Noite de inverno,
Noite Romântica (como chove lá fora!),
Noite de assombro…

Quando chegará a claridade?
Quando o fim de tudo, o Incrível Termo?
Quando a minha hora?
Quando alguém que eu ame a deixar-me o seu ombro?

Noite de lobos que uivam de fome,
Noite de crianças que choram com medo,
Noite de animais ferozes,
Noite de arrepios,
Noite de incerteza,
Noite que dormes comigo e comes comigo à mesa!

Estou tão cansado!
Estou tão cansado!
Há tanto ódio em mim,
Tanta raiva em mim,
Tanto horror em mim!,
Que falta que o amor me faz!!

Onde o abrigo que a Fé me prometeu?
Onde o porto onde o mar tem fim?
Onde o meu Deus?
Onde a Paz?

Lausanne, 27/11/04
 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:21
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Expiração

Lanço o último suspiro:
Desanimei de tudo.
Para mim acabou a conversa:
Estou mudo
E procuro um retiro:
Quero um quarto escuro e sem ruído
Onde ao ouvido
Não chegue mais que a promessa
Que ainda espero vir a ser cumprida:
Para o corpo, uma festa;
Para a alma, uma vida…

Lisboa, 31/03/01
 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:22
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Numa Cadeira

Sentado,
Sem compromissos –
Um simples repouso pontual
Marcando uma pausa no desgosto.



Confesso: É normal.
Mas não peço desculpas: É o meu luxo;
O meu pequeno vício.
Já regresso ao tédio que me foi imposto…

Lisboa, 12/03/98
 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:15
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Na Hora da Partida da Barca dos Pescadores

De novo o mesmo cheiro, bálsamo de espera,
De novo o mesmo gosto a soluços tristes,
De novo o mesmo sopro, o mesmo ar.

De novo a mesma barca, a tal quimera,
De novo o mesmo mastro de alambique,
De novo a flutuar no mesmo mar…

Lisboa, 19/07/97
 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:12
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Numa Bebedeira

Porque são falsos os Homens!
Digo-lho eu, amigo, que os conheço:
Comem, comem, comem
Tudo quanto querem –
E depois partem, com corações de gesso…

Ferem tudo, amigo, sei que ferem!
Digo-lho eu, certinho, que sei tudo:
Pedem, pedem, pedem,
E se ninguém há, que os satisfaz,
Queimam casas e sonhos, e o pasto miúdo…

Não têm alma – Que a alma só tem paz.
Digo-lho eu, colega, que fui frade:
E eles catrapás, catrapás, catrapás!,
Golpeiam sempre, sempre dão estocadas
No peito da própria Liberdade!

Deliram!, são almas penadas!
Digo-lho eu que venho sempre ao tinto!:[1]
E «Alvoradas, alvoradas, alvoradas!
Brilhai em mim durante a noite inteira!»
Em vão o rogo pois só as trevas sinto…

Mas segue a vida, de qualquer maneira;
Um gesto meu é vão e indistinto:
«Alvoradas, alvoradas, alvoradas!»…
Gritá-lo mais? Não: Mais me ressinto.

E ao amigo também doi esse limbo
Que parecemos ter à cabeceira?
Perfeito! Basta! Nem pense em mais nada!:
Junte-se a mim, nesta bebedeira! –

Uma garrafa de vinho e a vida parada,
Uma garrafa de vinho e a vida parada…

O coração bate: Não, minto.
O coração bate: Não, minto.
É alguém à entrada.

Frape! Frape! Irra, o meu achaque!
Vá-se!, que ninguém está em casa!
Volte mais tarde,
Volte à terça-feira –
Talvez já tenha tido um aneurisma…
Vamos, coração bate!
Vamos, coração arde!
Upa! Upa! Baque! Baque!

Mas ele soluça e cisma,
Mas ele soluça e cisma…

(E a alma ainda gemendo baixinho:
«Alvoradas! Alvoradas! Alvoradas!»
E o peito ainda em busca de um ninho:
«Alvoradas! Alvoradas! Alvoradas!»
Mas nada lhe chega: Só um vento maninho:
E a noite que cai negra e pesada,
E a noite q
u
e c
a
i
negra
e pesada…).

Lisboa, 02/04/01
 


[1] Nota do Orador (em parentises): In vino veritas.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:09
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

No Poema

Corredor de vento das palavras,
Sonoro anti-estático de acento,
Aventura de cíclicas metáforas
Na cínica vogal do sofrimento.

Anel de místicas siglas onduladas
Dos canais de voz do emissor,
Sílabas de dor dissimulada,
Temporal de vírgulas e pontos.

Âncora de letras desgastadas,
Mar de esdrúxulas a abrir as madrugadas,
Onda de rítmicos verbos de-poentes,

É esta fúria louca de escrever,
Esta ilógica força de viver,
Esta vontade hercúlea de beber-te!

Lisboa, 15/05/98

 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:02
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Teorema Protestarial I

Mudar de roupa?
Ora!
Dizes que a reunião vai começar em breve?
Estou farto de reuniões, de ajuntamentos:
Hoje não quero reunir com ninguém.
Vai haver festa, ãh?
E bebidas, e aperitivos… sim senhor; folgo muito em saber.
E os aperitivos são aquelas doses de comida servida em pequenas quantidades,
Que se rodam pela mesa como se de uma prova se tratasse, não é?
Tivesse tido disso antes de vir para a vida
E teria sabido evitá-la.
Agora é tarde.
Porque não falaste nisso mais cedo?
Mas já nos conhecemos há muito, não é?
Já sabemos os dois como gostamos de apanhar o outro
Distraído das coisas,
Com o corpo adormecido,
Com a razão amarrada atrás das costas…
Não.
Não vou mudar de roupa.
Com muito esforço,
Se me quiserem tanto, vou mesmo assim como estou;
Senão vão todos para o Diabo!
Desperdicem-se inteiramente ou deixem-me desperdiçar-me
Sem ter quem me aborreça:
Ajuda me dão
Se me tirarem esta dor de cabeça
Que aumenta só de saber
Que tenho de ter por horas o corpo entalado num fato preto
A dar apertos de mão a pessoas vazias,
De mãos frias,
Com a vida parada,
Com o interesse gasto.
Não gosto de apertos de mão.
Nada se modifica no Mundo por apertar a minha mão a alguém –
E de que serve um gesto
Se não causar alterações no Universo?
Já sabes.
Não teimes mais comigo.
Não visto nenhum fato.
Vem mas é ajudar-me a tirar estas roupas:
Tira-me tudo o que estiver a mais no que sou.
E não me sinto ser –
Haverá possibilidade de me despires de mim próprio?
Não peço para ser o outro porque o outro também quer ser Eu.
E desejar-me a mim mesmo seria absurdo e absolutamente antagónico.
E bem sabes que não gosto de antagonismos.
Mas chega-te cá.
Traz-me esse licor.
E enche bem o copo, até acima;
E vem cá – vem dar-me o copo à boca:
Quando chegar ao fim
Por certo findou a dor –
Se pudesse também findar a vida!

Ah! Mudar de roupa??!…

Lisboa, 18/02/01

 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:52
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Estado do Tempo

I

Chovem flores e setas baralhadas
Lançadas por cupidos delirantes
Que vão abrindo e vão fechando as asas
Em grandes tragos sôfregos de brandy.

Chovem ideias bruscas e espaçadas
Por entre os intervalos estonteantes
Do silêncio das pedras da calçada,
Do longo frio das noites inconstantes.

Chovem gatos pretos pelos cantos,
Do cimo dos telhados estilhaçados,
Pelas pedras letárgicas do espanto.

Chove-me um acre néctar de amargura
Dos meus dois olhos negros alagados
Pela borrasca agreste da Loucura…

Lisboa, 12/10/97

II

Sou Prisioneiro de Horas que Contemplo
Pelas grades desta triste cela
Onde me encerraram (quem me vela?)
Sem um motivo, sem um Julgamento.

Sou vítima de usar o Pensamento
Para entender o Rei que me esfarela,
Que me desfaz qual cera de uma vela,
Impondo-me o seu Reino Pardacento.

Sou servo do Regime que me gela,
Sombra de mim cedendo ao Desalento,
Mastro agrilhoado por cem velas…

Sou escravo consciente do Tormento
Imposto pelos Astros, pelas Estrelas,
Pelo Estado Déspota do Tempo.

Lausanne, 02/12/04


 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:49
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Contra – Argumentação

O amor é o amor – e depois?
Vamos ficar os dois
A imaginar,
A pairar,
Sobre um vácuo indefinido,
No incerto de algo
Que não existe,
A poisar os olhos um no outro,
Sem nos mexermos,
Sem sonharmos,
Sem nos tocarmos,
Sem nos comermos
Com os olhos
E com o corpo,
Como loucos
Canibais esfomeados?

O amor é o amor – e depois?!
Vamos ficar aqui,
Quedos,
Mudos,
A tentar defini-lo,
Em vez de o usarmos,
De o descobrirmos,
Neste Mundo de Sonhos
Que podemos tornar
Só nosso?

O amor é o amor – e depois?!!
Esquece.
Esquece tudo.
Vive o sonho comigo.
Vamos encher o ar
Que nos rodeia,
Vamos torná-lo
nOSSO e só nOSSO,
De mais ninguém. –

O meu peito contra o teu:
Vamos ver quem vence numa guerra de almofadas.
Vamos! Continua! Não importa se as roupas estão rasgadas!
O meu peito contra o teu:
Cortando o ar,
Bebendo o mar
Que enchemos,
Que roubámos ao espaço.

Temos isto que temos.
Temo-nos aos dois,
Temos um leito
Grande,
Enorme;
Temos este laço,
Que nos pode prender e amarrar.
Por quanto tempo?
E que importa sabê-lo?
Estarmos juntos enquanto estamos juntos
É bastante.
Forçar o amor é torná-lo disforme.
Tê-lo
É vivê-lo
Sem o pressionar.

E por ora
Somos tudo,
Sem medo:
E há todo o espaço para amar!

Temos o espírito que temos.
Temos o objectivo que é nosso
E só nosso,
Como tudo o que era nosso anteriormente…

Somos todos,
Somos vários,
Somos um grupo de gente;
E somos um,
Dois,
Somos mais do que dois…(e)…

O amor é o amor – e depois?

Lisboa, 15/04/96[1]
 


[1] Nota do Autor: De um poema de Alexandre O’Neill.


 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:43
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Terça-feira, 7 de Agosto de 2007

A Confissão de Adão

Mulher que vens de mim, diz-me o que vês;
Vem debruçar-te neste fundo abismo;
Que pensas tu de Deus? E das marés?
O que descobres no meu Mundo em sismo?

Põe teus olhos em mim, imenso escombro,
Um vagabundo, um louco, um libertino,
Com o desgosto pendurado ao ombro
E a Alma errante em luta com o Destino…

Perscruta bem, mulher, o lamaçal
De ânsias no meu peito. Entristeço
Um pouco em cada dia. Ah!, ser mortal! –

Vem o frio do Inverno e eu padeço,
Sucumbo com o vir do vendaval,
Por ter nascido Humano, pago o preço…

Lisboa, 22/03/94

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 15:14
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

Eco


Her name is Echo; she always answers back .

In Ovid, Metamorphoses III.

Poor Echo. Like a computer, she could only repeat what she'd been told. Perhaps her doomed love affair with Narcissus is the ultimate metaphor for the relationship between Man and Machine.

In Estudo Anónimo.

I

Abre as mãos.
Toma estes frutos:
Saíram-me de dentro,
Da terra que sustento,
Com o meu suor em bruto.

Abre os braços;
Acolhe-me em teu peito.
Talvez nesse repouso
Eu ganhe eterno gozo
Ou um consolo insuspeito.

Abre o coração.
Deixa-me entrar.
Faz tanto frio, cá fora, onde me encontro!
É tão ruim este silêncio pronto!
Houvesse aí alguém p’ra conversar!

Mas ninguém passa,
Aqui,
A esta hora.

Não há
Viv’alma
Neste troço:

Eu grito: «Ter-te comigo,
Eu queria ter-te comigo…»…
E é o vento que eu ouço…

Lisboa, 04/02/01

II

Trouxe-me alguém as palavras
Que te mandei por correio.
Em vão escrevi a carta.

No chão do que sou, lavra
O Mundo o seu veio:
Essa terra, hoje seca, antes foi farta…


Lisboa, 04/02/01

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 02:53
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Bilhete de Ida e Volta - (Mais Anexo)

I - Ida

És parte de mim.
Por isso doi-me ver-te aí deitado.
A outra parte que me sobra está suspensa.
Balouçando com o vento frio da noite.

II - Volta

É por de mais este fim.
E qual será de nós dois o enforcado?
Tu que te agitas nessa corda tensa,
Ou eu que jazo aqui esperando a foice?

III – Nota dos Correios

Sujeito A dado como morto,
Escreveu a B já desaparecido
(Que respondeu quase de seguida),
Em circunstâncias muito inexplicáveis:

Têm o mesmo endereço (são do Porto)
O mesmo nome próprio e apelido,
(Diria mesmo, quase, a mesma vida)
E os mesmos caractéres finos e frágeis;

Ficou o nosso carteiro baralhado
Perante tamanha incongruência –
Pelo que, segundo é já usado,

E agindo com plena consciência,
Não fez o intercâmbio desejado
E devolveu o correio à precedência…
 


Lisboa, 20/02/01
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 02:40
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Domingo, 5 de Agosto de 2007

Ela Canta, Pobre Ceifeira!

Estar à janela olhando o Infinito.
Sentir a vida por fotografias.
Ouvir pianos na alma, (que bonito!),
Pensar em dias diferentes destes dias…

Ver o Mundo todo de um castelo de areia;
Encher a paisagem de recordações…

Quando estiver essa maré mais cheia
Talvez embarque, p’r’a lá das sensações…

Ter sido puro!
Ter sido inteiramente!
Ter sido sem receio do futuro!
Felicidade!
Oh!, ceifeira inconsciente!
Guia os meus passos!
Segura no meu braço!
Ensina-me tudo!

Crianças do meu passado
Com sonhos à ilharga,
Caminhai ao meu lado
Nas horas amargas!

Ensinai-me o truque,
A forma sagrada,
De sem ter destino
Saltar para a estrada,
Em busca do nada!

No céu o silêncio.
Em mim o desgosto.
Núvens várias condensam-se
Pouco a pouco.

Esqueçam-se
As coisas mundanas.
Esqueçam-se os sonhos terrestres.
Esqueça-se a vida do corpo –

Ascendamos.
Apago as coisas profanas,
Escolho este idílio campestre
E nele fico absorto
Até ao fim do programa,
Até ao grande apogeu.

Já nada sinto e de cama,
Ouço uma chuva a cair.
Que mais existe?
Há a mente que desvanece
E o tédio que subssiste
À vida na vida inteira.

(Não sendo é e persiste,
Não sendo é e chateia…)

Sou racional.
Nego tudo o que carece de prova.
E cantar e sentir são um sinal
De fuga à vida pesarosa.

Ou por Milagre estás alheia a ela?
Ou por Ventura esqueces o seu peso?
Se acaso o corpo dorme, a alma vela –
Estou sempre acordado, sei-me sempre preso!

Ah! Mas é vão o teu cantar na lida jornaleira?[1]
Às vezes queria esse inconsciente bréu
Que te deixa sem mal
Dizer que riste.

E eu nunca ri.
Nunca olhei o céu.

Oooooooohh!, gloriosa ceifeira! –

Fui então eu,
afinal,
O grande triste!

12/07/94 – 09/01/01
 


[1] Nota do Autor: A palavra Jornaleira foi empregue num sentido que penso estar mais próximo do etimológico. Entenda-se portanto: diária.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 16:30
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sábado, 4 de Agosto de 2007

Hino Triunfal dos Servidores dos Dias

O que dizemos
Ninguém dirá.
Como o fazemos
Ninguém fará.
Palavras, gestos,
Sonhos e gritos,
São os cartazes
Do Manifesto,
As bocas molhadas
No fim dos apitos.
É tudo fúria
De sermos vivos,
É tudo coro
De um só protesto;
Não somos Homens,
Somos Meninos,
Desintegrados
Num livro aberto.
Somos os deuses
De cada Igreja,
Os pontos negros
De cada verso,
Somos os corpos
Em que o amor sobeja,
Somos partículas
Indefinidas
Do Universo!

Lisboa, 06/02/97[1]

[1] De um poema de Carlos Queirós/oz.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:03
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

Resistência



Il appelait le Diable et lui demandait la mort.
C’était une façon de la surmonter.
[1]



Desisti de falar do Tempo.
Desisti de falar do Túmulo.
Deisisti de falar.
Desisti.
Desisti de amar os Homens.
Desisti de amar o Mundo.
Desisti de (te) amar.
Desisti.
Desisti de chorar os doentes.
Desisti de chorar os defuntos.
Desisti de chorar.
Desisti.
Desisti de sonhar com a vida.
Desisti de sonhar na vida.
Desisti de sonhar.
Desisti.
Desisti de pensar no Passado.
Desisti de pensar no meu estado.
Desisti de pensar.
Desisti.
Desisti de não desistir,
Deisisti de ser como sou,
Desisti de estar aqui,
Desisti do ar como o vês e o recebo,
Desisti do Céu, de Deus e do Inferno,
Desisti de fingir que sou de ferro,
Desisti de negar que sou um erro,
Desisti de ser contra os que desistem,
Desisti de ser pelos que resistem,
Desisti de ser assim,
Desisti de ser,
Desisti.

Lisboa, 17/09/96


[1] Camus, Le Mythe de Sisyphe, p.123.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:02
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

«E No Princípio Era o Verbo...»

A Linguagem é a mãe de todos os Homens.
Le Language est le berceau de tous les Hommes.
Language gave birth to every Man.
Il Linguaggio è il Genesis dell’Umanità.
El Langage es el creador del Hombre.
Aus Sprache ist Man geboren.
Ab Loquor nacquit Homus.
 


(Bruxelas, 12/10/03)
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:02
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007

Ad Excelsis

 E se de súbito Tudo Fosse Nada

Sem sombra de conceito?

E se a razão sumisse de repente?

Onde puseste, ò Deus, a Alvorada

E os Jardins do Teu Amor Perfeito?

Onde puseste a Paz que tens em mente?

A tua boca grande e presumida

Ainda diz que a Terra Prometida

Há-de surgir um dia à nossa frente.

Mas onde está a prova de que és feito

Do espírito divino com que mentes?

És tão controverso, ò Imperfeito
Sopro de um sonho, concreto e inexistente!!!

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:16
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Cacos

I

Sombra nos sonhos, sombra nas paredes,
Outros da alma, vultos pelo tecto,
Aranhas (que me agrilhoam redes),
Rosto no espelho, o meu, grotesco espectro…

II

Loja de fatos, corpos para a vida,
Meu guarda-roupa para a ocasião!,
Meu Carnaval de mim, o suicida,
Máscaras da minha variação!

III

Onde ponho os papéis e a tristeza,
Onde sufoco todos os protestos,
Onde escondo notas de vileza,
Onde me mudo e me renovo: o cesto.

IV

Lembrar o teu desdém é doloroso,
Nada posso dizer que o ilustre:
O teu mesquinho riso de ódio e gozo,
As minhas lágrimas sob a luz de um lustre.

V

Puseste o teu orgulho sobre a mesa,
E eu apostei meu coração, O Caos,
Que tu levaste, com a maior vileza,
Numa sequência alta de paus.

VI

Maçada esta luz vinda de fora!
O sangue que me corre pela aorta!
Poder negar a vida que demora
E pôr“Do not disturb” atrás da porta…

VII

Meu amor que eu amo suportar,
Quero-te sempre, mesmo sendo breve
O tempo que temos para amar!
Mas pelos Céus!, Torna-te mais leve!

VIII

Amarmo-nos ao ritmo das vagas,
Queimarmo-nos ao fim de tanto amar,
Mordermo-nos até só sermos chagas,
Fazermos da cama o nosso altar…

IX

Correr com os rios até morrer no mar,
Ouvir o Mundo Inteiro por um búzio,
Jazer na praia até ser do lugar;
Purificar os Homens num Dilúvio…

X

Jarro da Vida que me dás cuidados,
E que tão pouco vales dois patacos,
Ter-te nas mãos já me tem cansado…
Sonho que tenho de te ver em cacos!

Lausanne, 01/12/04[1]


[1] Nota do Autor: Dez poemas nascidos de dez palavras perdidas: espectro, variação, cesto, etc. Tendo ficado com elas, pelo pecado da inveja, não direi, por pudor, quem as perdeu.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 02:12
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Metamorfoses

I

Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.



Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas…



Pam-Pac!, Pam-Pac!, Pam-Pac!
Pam-Pam-Pam-Pac!
Pac-Pac-Pac-Pam!



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.



Batentes!, Batentes!
Calai todos os gritos!
Parece noite fúnebre de ritos!

Batentes!, Batentes!
Calai todos os gritos!
Parece noite…

Parai…

Há uma ânsia em mim que não me sai…
Há uma ânsia em mim…

…Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac…Tic…
…Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac …Tic…
…Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac…Tic…



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.



…Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic…



Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas,

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!,
Estar preso!
Ser apagado e morrer aceso,
Ser apagado e morrer aceso!…



…Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic…



Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!,



Pára Tempo, pára!
Deixa de bater aos meus ouvidos!
Tu alimentas essa angústia rara
De fazer de Tudo um Nunca-Sido.

Ah!, relógio que bates sem cessar!
Que Mundo te sustenta?

– «É uma lei redigida sem vagar
E a mão cruel que a movimenta.»

Que tristeza!
Desperdício de horas!
E vou pôr-me à janela para melhor ver o que está fora…



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.



Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas…



E que sou eu?
Que sinto?
Em mim o breu –
Será do absinto?

Oh!, Que sou eu?!
O que sou eu?!
Que sinto?! –

Um mal por dentro,
Um nó muito cerrado;
Um brusco movimento
Nos sentidos velados
Pela sombra que me mantém coberto.

(Em mim o breu –
Será do absinto?)

A mim não chega a claridade.
E um véu pesado causa grande aperto.
Entre o espaço e eu há uma grade.

Estou longe do que sou
Estive mais perto…



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu


Vento nas janelas.



Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas…



Não sei onde vou.
O Futuro é incerto.
E há uma estranha e irreal realidade
Que me mantém sempre desperto.

Findou o sonho vago. Nada é Uno.
A criança perdeu-se no Passado.
Tudo o que antes foi agora é fumo
Pairando no deserto.

(Em mim o breu –
Será do absinto?)

(Em mim o breu –
Será do abcesso?)

(Estou longe do que sou,
Estive mais perto…)



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.



Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas…
Pudera eu…

Estou longe do que sou
Fui luz sou breu,
Estou longe do que sou,
Mas que sou eu?

Já esqueci tudo.
Montei na vida um estrado
Onde a cada dia represento
Novo papel,
Nova fantasia.

Estou confundido. Algo está errado.
O corpo que me coube é um pouco lento;
Não há ritmo neste Rapunzel,
Não há harmonia.

(Em mim o breu –
Será do absinto?)

(Em mim o breu –
Será da agonia?)

Sabê-lo? Como se me abandonei?
Se me confundo na Obscuridade?
Passo por tudo sem Destino ou Lei,
Leio nas Estrelas a Mendicidade…[1]

Sou um vagabundo, nu, entre a geada,
Sem refúgio da Vida, sem um coito
Que me abrigue desta Noite Gelada,
Que me albergue nesta Gelada Noite …

Oh!, Existencia, Sombra Estagnada,
Que te defines pelo sofrimento!
És uma noite sempre inacabada
Que se prolonga pelos dias dentro!

Ah, pára Tempo (Vil Tirano) pára!
Porque tanto insistes em bater?
Tu alimentas esta angústia clara
De sentir que estou a acontecer…

Mas não é mais que um parecer,
Mas não é mais que um perecer:

Sentir a dor que não pára
Parar a dor é morrer!

Parar a dor que não pára
Sentir o Corpo doer…



Sim, Tempo, pára!
Sim, Corpo, pára!
Oh, sim, morrer!



Sentir é só uma dor que nunca sara.
Ser é Não-Ser.



…Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic…



O Tempo corre mas a vida é parada,
O Tempo corre mas a vida é…

(O que é a vida,
O que é?)

A vida é nada,
A vida é nada,
A vida é nada…

(Em mim o breu –
Será do absinto?)

(Em mim o breu –
Será da derrocada?)

Sim. Tombou a minha alma…

“Ed è stato come se
Questo cielo in fiamme ricadesse in me,
Come scena su un attore…”

Ed è stato come se
Vivessi nel stupore,
Come cadessero gli astri sopra un fiore,
Brucciando un fuoco in me…

(Em mim o breu –
Será do absinto?)

(Em mim o breu –
Será falta de Fé?)

Porque tombou a minha alma…

Ah, ser indistinto do pó dos meus pés!
Quero queimar! Arder!

Tem calma…

Arder! (porque me minto),
Ceder ao meu instinto
Que age e não vê…



Calma,
Calma…



Perch’ è stato come se
Vivessi nel stupore,
Come cadessero gli astri sopra un fiore,
Brucciando un fuoco in me…

Calma,
Calma…

Signore, monsieur, distinto!,
Tenha a bondande, dê fogo!
Já se perdeu o que sinto
Mesmo se isso é tão pouco…

Mas ah!, que me importa?! Talvez se cure tudo!:
Se o espírito se evade na Quarta-Feira de Cinzas,
Então que ardamos o corpo no Entrudo!
Talvez o Demo lhe dê as boas vindas!

Calma,
Calma…

Então?
Traz fósforo o senhor?
Pois que queime!
É só barro e argila… –
Se puder eu ajudo!

Calma,
Calma…

Porquê a agitação?
Fala da dor?
Ora, não teime!
Impossível senti-la!
Tenho o corpo mudo…

Calma,
Calma…

Calou-se há anos… cem? Duzentos? Mais!
Selou-se com a palavra: FIM…
Há uma ânsia em mim que não me sai…
Há uma ânsia em mim…



A decadência é total: Pareço lava.
E sinto-me ir descendo devagar
Para o fundo húmido de um poço,
Expulso do banco do balouço
Onde antes me sentava.

Porque antes eu era uma criança
Com o olhar sorvendo o Universo;
Antes tinha sonhos e Esperança…
Esperava o Bem… tive o seu inverso…

Pois não há Bem além de certos livros,
E eu estou tão cansado de leituras!
De sonhar com Brazis empedernidos
Além dos limites da Loucura!…



Não quero sonhar mais
Porque este sonho é falso.
Só as dores são reais,
O sofrimento é mais alto.



Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!

Acabou o sonho!
Acabou o sonho!
Acabou o sonho!
Acabou!

Que a ilusão se apague do que sou,
Que a ilusão se apague do que sou,
Que a ilusão se apague do que sou…

Estou longe do que sou,
Estive mais perto,
O sonho acabou
E o real é deserto;

Estou longe do que sou,
Estive mais perto,
O sonho acabou
E o real…

O real sou eu a acontecer,
É a minha sensação…

Sou eu no meu caminho a conhecer
A minha solidão.

O real sou eu,
E o resto de mim que se perdeu,
É a ilusão desfeita pelo breu,
É a ilusão…

É o resto de mim que se perdeu,
É a minha solidão…



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.



Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas…



Pam-Pac!, Pam-Pac!, Pam-Pac!
Pam-Pam-Pam-Pac!
Pac-Pac-Pac-Pam!



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.

Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas!



Batentes!, batentes!
Calai todos os gritos!
Parece noite fúnebre de ritos!

Batentes!, batentes!
Calai todos os gritos!
Parece noite…

Parai…

Há uma ânsia em mim que não me sai…
Há uma ânsia em mim…

(Em mim o breu –
Será do absinto?)

Sim.Eu sinto ainda a dor;
E o Bem não existe,
E é dos livros o amor.

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
Não quero sonhar mais
Porque este sonho é falso.
Só as dores são reais.
E o meu desgosto é mais alto…

Miserere, Misero me…
Però brindo alla vita…

Ma la vita,
Ah, la vita cos’è?
Tutto o niente,
Forse neanche un perchè…

(O que é a vida,
O que é?)

A vida é nada,
A vida é nada,
A vida é nada…

(Em mim o breu –
Será do absinto?)

(Em mim o breu –
Será da derrocada?

Sim. Tombou a minha alma…

…Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic…



O Tempo corre mas a vida é parada,
O Tempo corre mas a vida é…

Calma,
Calma…

Acabou o sonho –
Repito.
Morreu o menino da Infância imaginada;
Violado,
Espancado,
Escorraçado.

Forçado me ponho
Neste trono maldito:
Pareço estar à vida condenado…

A vida é parada,
Tudo é pesado.



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.

Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas!


Batentes!, batentes!
Calai todos os gritos!
Parece noite fúnebre de ritos!
Parece noite fúnebre, parai!

Há uma ânsia em mim que não me sai;
Há uma ânsia em mim que pede paz;
Há uma angústia, um gemido, um ai;
Mas logo o calam pás deitando terra,
Mas logo o calam pás deitando terra,
Mas logo o calam pás…

A minha dor a mim mesmo me enterra,
O menino que eu fui mas não fui jaz
Dentro do meu peito,
Dentro do meu peito,
Vivo curvado, nunca estou direito,
Vivo curvado, nunca estou direito,
Vivo curvado…

Respirar é o meu único pecado,
Respirar é o meu único pecado,

Oh Deus que não existes,
Quando acabo?
Oh Deus que não existes,
Quando acabo?

Porquê ser triste?
Porquê ser escravo?
Oh Deus que não existes,
Porquê ser?

O real sou eu a acontecer,
O real sou eu…

O real é a dor a acontecer
E o resto de mim que se perdeu…



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.



Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas…



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu


Vento, vento, vento…



…Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac, Tic…



Assombro!… O relógio ainda bate!…

…Pac!, Pam-Pac!, Pam-Pac! Pam-Pac!…

É o pulso; é o Tempo…

Batentes!, batentes!
Calai todos os gritos!
Parece noite fúnebre de ritos!
Parece noite fúnebre de ritos!
Parai!

Oh, meu coração, és tu? És tu então?
Não!, não batas mais,
Não!, não batas mais,
Não!

Porquê persistir na Solidão?
Porquê persistir na Solidão?
Porquê persistir na Solidão?
Porquê?

Ser é Não-Ser
Por isso perece e sê.



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.

Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas…



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento, vento, vento…


Tudo é pesado.
A vida é parada.
O meu coração é um resto de nada
Que bate turbulento.



Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!,

Alegria!
Alegria!
Quem te ceifou?

Uma foice negra te cortou,
Uma foice negra te cortou,
Uma foice…



E a vida é parada.
Tudo é pesado:
Não ter sensação
Sentir-me domado.

Na lama da vida
Na lota do cais
Jazer sem saída
Gemer os meus ais.

No mar à deriva,
Prostrado na lama,
Cumprir a missiva
De um Domínio em chamas

Pois tudo é pesado
Parado no escuro,
Sentir-me agastado
Não ter um Futuro…

O meu sentir as coisas é desgosto puro!,
O meu sentir as coisas é desgosto puro!,
Dormi na vida, isolou-me um muro
Feito de braços de Homens rechaçados…

O meu sentir as coisas é pura agonia!,
O meu sentir as coisas é pura agonia!,
Tem o selo do Tenebror dos Dias
E o sangue de Homens esfacelados…

O meu sentir as coisas é casado com a noite!,
O meu sentir as coisas é casado com a noite!,
E levei ao respirar tamanho coice
Que me mantenho ainda atordoado…

Batentes!, Batentes!,
Calai a dor!, calai!

Porque há uma ânsia em mim que não me sai,
Há uma ânsia em mim…

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!,

Batentes!, Batentes!,
Sejai Clementes,
Soai o Fim,
Sejai Clementes,
Soai o Fim,
Sejai clementes…

O sonho é curto
A dor é permanente,
O sonho é curto,
A dor…



Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu
Vuuuuuuuuuuuuu



Vento nas janelas.

Pudera eu fugir por elas,
Pudera eu fugir por elas…


Infância, infância!
Surge da bruma!
Volta do torpôr!
Faz-me feliz, dá-me as horas belas,
Que nunca foram, que eu nunca senti…

Será que eu nunca aconteci?

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!,
Criança que eu fui, regressa a mim!

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!,
Criança que eu fui, regressa a mim!
Será que eu nunca aconteci?

(Virei a mim depois do Sol se pôr,
Virei a mim depois do Sol se pôr,
Virei a mim depois do Sol se pôr,
Virei a dor, virei, virei-a em mim…)

(…)

(Virei a mim depois do Sol se pôr,
E o Sol pôs-se e eu ‘inda não vim…)

(Batentes!, Batentes!,
Sejai Clementes,
Soai o Fim…)

(…)

Em vão nisto medito.
Em vão, pela criança, eu hoje grito:
(Ecoa o grito pela noite fora)…

Agora veio o Louco, veio o Louco agora,
Rir-se da minha condição,
Rir-se da minha condição,
Rir-se da minha condição,

De ser NADA
NADA
NADA,

Ah! Ah! Ah! Ah!

Sou NADA
NADA
NADA,

Ah! Ah! Ah! Ah!
Sou…

Ah! Ah! Ah! Ah!
É rir chorando, é rir!,

O Folião chegou…

No balouço também já se sentou,
No balouço também já se sentou,
No balouço montou a sua tenda,
Pôs a minha alma à venda
E a minha vida parada…

No balouço,
No balouço,
No balouço,
Onde a criança que (eu) não fui brincava…

Alegria!
Alegria!
Quem te ceifou?

Uma foice negra te cortou,
Uma foice negra te cortou,
Uma foice…

Ela veio no assombro trágico da Noite,
Ela veio no assombro trágico da Noite,
Surgiu e secou…



Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!,



A vida é parada,
Tudo é pesado.
Ser é Sensação,
Um nada sonhado.

Tudo é pesado
Sendo tudo nada,
Viver de enfados
D’ alma estagnada.

Ser é Sensação
Teia de cuidados,
Suja imposição
Do meu negro Fado.

Um nada sonhado
Que me vem comendo,
Irei enterrado,
Mas não vou vivendo…



Porque há uma mudança pela estrada,
Porque há uma mudança pela estrada,
Porque a Esperança pereceu esventrada,
Porque a Esperança que me vem roendo…

Recordação que dói de ser criança!,
Morre na Alvorada
Vai desvanecendo…

Não há razão para vires doendo,
Não há razão porque eu não entendo,
Eu não entendo, não, não há razão:

Parte!, vai!, meu Inuendo!

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!

Recordação!

Pudesses tu desvanecer na dança
Da minha Solidão!

Se tu pudesses arrancar, partir!,
Num qualquer navio de podridão!…
Esquecendo-te talvez pudesse rir,
Rir-me da minha condição:

De ser NADA
NADA
NADA,

Ah! Ah! Ah! Ah!

Sou NADA
NADA
NADA,

Ah! Ah! Ah! Ah!
Sou…

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah, rir chorando, rir!,

O Folião chegou…

Trazendo a Opressão
Do Negro Fado,
Com a Morte e a Solidão
Mesmo a seu lado…

Sentou-se e reinou.

Lisboa 11/12/96 – Bruxelas, 05/07/04

II

A Morte e a Solidão,
Irmãs inseparáveis,
Levaram-me em caixão
Numa grande viagem.

Passei por caminhos
De pedra e de lama
E vi azevinhos
Lambidos por chamas.

Passei por cavernas
Morada de monstros,
Mostraram-me as pernas
E o puro desgosto;

Cruzei mil valados
E as covas mais fundas
E vi os enterrados
Saírem da tumba;

Levaram-me ao fundo
De toda a miséria
E ao seio imundo
Das coisas etéreas.

Vi o cabo do medo,
O abismo da fome
E provei o degredo
Do Anjo-Sem-Nome;

Tiraram-me os olhos,
Cortaram-me as mãos
E fizeram folhos
Do meu coração.
Queimaram-me a alma,
Cozeram-me os pés,
E o meu ser da calma
Foi p’las chaminés.

Despiram-me as roupas,
Tiraram-me a pele,
Dobraram-me os sonhos,
Bebi o seu fel,

E depois vieram
Com um fato de bobo,
Em mim o vestiram
E disseram: dança.

Desfeito, submisso,
Olhei o meu roubo,
E os meus ossos lisos
Dançaram na campa.

Lisboa, 20/01/01


III

Desconheço tudo:
Quem sou
Onde estou,
Porque me sinto tão rijo
No corpo
E nos sentidos.
Certezas? Só duas:
A Morte está perto
E a Solidão perdura.

Tenho o espírito mudo.
O sonho acabou,
O sono findou,
E na vigília permanente redijo
(Breve conforto,
Eterno castigo),
A minha confissão sofrida e crua:
O Eterno e Humano Desacerto,
O meu sublime Elogio da Loucura!


Lisboa, 03/02/01

IV

Há uma ânsia em mim que não me sai.
Há uma ânsia em mim…

Batentes!, Batentes!
Sejai clementes!

Soai o Fim,
Soai,
Soai o Fim…
 


Bruxelas, 05/07/04


 


[1] Nota do Autor: Versão alternativa: a) Leio nas Estrelas a Inutilidade; b) Leio nas Estrelas a Mediocridade.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 15:18
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Domingo, 29 de Julho de 2007

Horizontes

Está na Natureza do Homem ser assim:

Velho,
Triste,
Cansado,
Tolo fugindo ao Futuro,
Por não erguer o seu rosto
Para olhar adiante.…

De que te serve essa apatia constante?

A inércia é o princípio do fim.
A vida está no Levante…

Lisboa, 09/03/97

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:17
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sábado, 28 de Julho de 2007

Viagens

I

Viajamos num mundo de sonhos
Que nos assusta por vezes,
Que nos parece medonho.

Caminhamos num espaço
Descido por escadas corridas
De medo e mágoa.

Encontramos a cada passo.
O cruzamento de inúmeros rios
Que nos afogam inter calados.

Devoramos o espaço
Com um intenso desejo de poder-
Mos viver des controlados.

Calçamos as luvas dos outros
Para aquecer o frio,
Bebemos sôfregos
Garrafas e garrafas de vinho
Para não sermos sozinhos,
Para esquecermos o Passado,
E partilharmos a cama
E o sexo
Possesso
Com o vazio.

Lisboa, 20/08/97

II

O marinheiro iça a vela
Do fundo do seu mastro –
Está na hora
De descobrir Novos Mundos.

Sacudindo do ombro uma cidade adormecida,
Está de partida
Para Novas Paragens,
Distantes de um Passado moribundo.

Aqui nesta barca,
Coleccionam-se retalhos da vida,
De porto em porto,
Guardam-se fotografias de olhares profundos,
Recordados por flashes de memória.

Aqui nesta barca,
Bebemos rum para aquecer o corpo,
Contamos histórias de piratas,
E escrevemos a nossa própria História.

Lisboa, 20/08/97

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:45
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sexta-feira, 27 de Julho de 2007

Vazio

Sopro de nada,
Ser indefinido,
Chora sozinho
O teu destino
De não seres nada.

Choro de nada
De um violino,
Chora baixinho,
Voz miudinha,
Convulsionada.

De que te serve
O choro e a mágua?
Tu estás sozinho,
Ninguém te vale,
Não vale nada!

Homem sem tino,
Com sonhos de vidro,
Chora sozinho
O teu destino
De não seres nada.

De que te serve
O choro e a mágua?
Ninguém te ouve,
Ninguém te quer,
Não vales nada.

Lisboa, 18/07/97[1]
 


[1] Nota do Crítico: Poema pobre plagiando Camilo Pessanha: Chorai arcadas do violencelo!, etc. A vergonha inoriginal do plágio mostra bem da natureza imoral e desprovida de talento do autor destes textos. Que o editor tenha o bom senso de não publicar e consequentemente expandir este atentado ao gosto literário!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:06
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Ama Quello che Non Ha…

I

Um poema pode apenas ser
Num pouco de papel uma palavra.
Se importa o que está escrito,
Importa mais do que isso o que tu lês;
Para lá dos olhos do leitor,
Não existe a linguagem, não existe o amor,
Não existe o poema,
Mas apenas nada…

Lisboa, 07/04/97

II

Amo,
Amo,
Amo,
Mas o que amo onde está?
Eu chamo por tudo, eu chamo,
Mas só a Ausência responde,
Só o Vazio tem um nome,
É só o Vácuo o que há…

Bruxelas, 05/07/04

III

Se, o que eu vejo, só no meu olhar consiste,
O que eu vejo (que é o que eu amo) não existe…
 


Bruxelas, 05/07/04
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:46
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

Na Gare A Que Chamam Fim...

I

Próxima Partida: Anunciação.
Na Gare da Vida, Via d’ Aflição.

Lausanne, 30/11/04

II

Quando acabar este Mundo
Estarei, contigo, a teu lado,
Com um bom vinho maduro
(Meu salmo de cabeceira)
E os velhos sonhos dobrados
Na algibeira.

Quando acabar esta noite,
Virá um dia mais escuro,
Sem sol que brilhe e se afoite:
Sobra a noite que resiste,
Fica o Horror, esse muro
Denso e triste.

Quando acabar esta vida,
Virá a Morte Incansável,
Com a sua mão decidida,
No seu cavalo montada,
Colher o ser Miserável
Que é nada.

Quando Eu, o triste, acabar,
Já quando não houver Mundo,
E nada tiver lugar,
Não virás tu do Vazio
Suster meu corpo desnudo,
Roxo e frio.

Quando acabar este sonho,
Já quando não houver céu,
E todo o ar fôr medonho,
Sobre um deserto de dó,
E em tudo reinar o breu,
Estarei só…

Lisboa, 02/12/96
III

Oh!, estrelas que o céu perdeu,
Eu nasci p’ra ser sozinho!
Esta teia em que definho,
Que aranha negra a teceu?

Lausanne, 29/11/04

IV

Oh estrelas que o céu perdeu,
A teia que me prendeu
É a Vida, O Grande Nó.

Que aranha negra a teceu?
Estará nela a mão de Deus
Ou a sensação com que sou?

Eu nasci p’ra ser sozinho,
P’ra me rojar no caminho
Que o Destino me forçou.[1]

Esta teia em que definho,
Das minhas ânsias, o ninho,
Desde sempre me encerrou.

Conhecer o fim do Mundo,
Indo em mim mesmo ao mais fundo,
Roendo o horror que restou,

É o meu dever imundo
De Eterno Vagabundo.
Que demónio me criou?


V

Desconheço qual o monstro,
Não reconheço o meu rosto,
Não sou ninguém ou sou outro,
Eu nem sei que aconteceu…

Lausanne, 29/11/04

IV

Foi o Tempo que passou,
Foi o Tempo que passou,
Foi o Tempo que passou,
Mas quem viveu?

Lisboa, 04/07/01

V

Não fui eu,
Não fui eu…
Algo em mim me abandonou,
– Foi a razão?
– Não. Fui eu…

Lisboa, 15/07/01

VI

Por entre o frio da estação
Onde passam os comboios
Vi um rosto familiar:

Era a minha Sensação:
Tinha lágrimas nos olhos,
E uma expressão de pesar.

– De onde te vem a tristeza?
Porque fugiste de mim? –
Perguntei-lhe estarrecido.

– Eu vivo na Incerteza,
Entre o Princípio e o Fim.
Sentir e ser sem ter sido!

Tudo na vida é tão vago!
Tal como este nevoeiro…
E ser forçada a sentir!

Pudesse só ser um prado
Desde Janeiro a Janeiro!
Pudesse nunca existir!

Lausanne, 30/11/04

VII

Ah!, comboio da vida ! O teu embarque
Deixou-me sem ter forças que o abarque,
Quebrou-me o coração que ainda se parte,
Deixou-me com a razão ‘inda a pensar que…

Lausanne, 30/11/04

VIII

Pudesses não arrancar!,
Pudesses ficar na gare,
Nunca ligar o motor!

Mas já se ouve um apito,
Ao fundo da linha um grito…
E vais a todo o vapor…

Lausanne, 30/11/04

[1] Nota do Autor: Versão Alternativa: Que a minha angústia moldou.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:42
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Terça-feira, 24 de Julho de 2007

Poema Apócrifo de Marcel Duchamp

L.H.O.O.Q.
 

Elle Ache Ô Ô Qu
Elle a chaux au cu
Elle a chaux, oh Q!
Elle est jeune,
Elle est jaune,
Elle est June,
Qui est tu?
Je suis Ô et mon Histoire
Est sans beauté ni espoir,
Je crains la vie, le mirroir,
Et je suis faite pour voir
Déboches, l'orgie, la honte -
Sur la barque de Caronte,
Toutes les eaux sont noires -
Je suis Ô,
Et j'ai chaux,
Et jusque là tout va bien -
Mais tout le reste est bizarre!
Comme un songe du Levant! -
La vierge dors.
Le roi se meurs.
«La bouche d'Or»...
La peur. La peur...
La terre tourne autour du soleil;
La vie me tourne autour du sommeil...
Ne t'assoies pas sur ce fauteil -
Tu le regretras..
Ne t'assoies pas
Tu le regretras,
Ne sois pas,
Tu le regretras,
Je ne sais pas quoi,
Tu le regretras...
La Fointaine m'ecrivait des lettres de son moulin;
Alphonse Daudet chantait
Les fables du gris matin;
La fontaine où je buvais
(Oh mon Dieu que je suis faible!)
Avait de l'eau et du vin -
Elle avait des jolis rêves -
Mais un jour j'ai découvert
Que caché dérrière les arbres
Sous les pièrres de l'Enfer,
Sur les grands palais de marbre,
Il y avait un chemin
Fait de très noirs boulevards,
Fait de cris et de chagrins,
De terribles cauchemars;
Dans chaque joli visage
De fille, bête ou object,
Et dans chaque paysage
Il n'y avait que nuage,
Mensonge, horreur et regret.
J'ai compris que l' au de-là
Des choses qu'on voit ici
N'a qu'illusions d'une foi
Qui ni serve ni suffit.
J'ai vu sans ombre ni doute
La vérite derrière l'herbe:
Ni verte ou frèche, ni douce:
Mas comme le monde: Mèrde!
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 06:05
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

Estava à Janela do Sonho…

I

Sonhar é cavalgar por entre as estrelas,
Pôr uma cerca em volta do Infinito,
Fazer parte das coisas e bebê-las
Como quem bebe um cálice proscrito.

Sonhar é navegar sem tempestade,
Partir, zarpar de todas as nascentes,
É iludir o dogma da Verdade
E a sensação de Morte nos Poentes.

Fechar e abrir os olhos num segundo!
Partir sem ter atrás obrigações!,
C’o coração rindo em redor do Mundo,
C’ o corpo inteiro em celebrações!

Ah!, poder ser maior que o firmamento!,
Maior que as águas em exaltação,
Maior que o Homem que guardamos dentro!:
Ser-se senhor da sua condição!

Ah!, eu sonhar abrir uma janela
Que dê para a avenida ou para um rio,
E desse gesto simples ver por ela
O dissipar das chagas do vazio…

Ser alma inteiramente, o interior
Do Universo, Reino dos Sistemas,
E nesse campo recolher a flor
Que será fruto, como nos poemas…

Oh, sim!, sonhar, sonhar, sonhar Amor!,
Ter paz nos dias, mesmo que pequena,
E imaginar que apesar da dor,
Viver, esse tormento, vale a pena…

Lisboa, 04/12/96

II

E acordar depois, com o sonho por metade,
E ver o peso bruto da verdade…

Que pena!

Lausanne, 29/11/04
 


III

Estava à janela do sonho
A ver passar os soldados,
A ver tombar os poentes
Entre dois lagos parados.

Estava à janela do sonho,
Como à janela da vida,
Criando mundos de gente
Bem mais humana e mais viva.

Estava à janela do sonho,
Como à janela de mim,
Jogando às cartas com os dias,
E apostando no Fim.

Estava à janela do sonho,
Mas veio um vento de norte –
Logo fechei a janela –
Mas tinha entrado: Era a Morte.[1]

Lausanne, 29/11/04

[1] Nota do Autor: Versôes alternativa: Mas acordei: Era a Morte. /Mas foi já tarde: Era a Morte.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:06
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sábado, 21 de Julho de 2007

Digressão

A Natureza é um estado de alma:
Símbolo e signo das vontades do Homem.

O corpo é uma ideia da Ciência,
Que é o mesmo que dizer
Religião.

Um mar bravo é o meu peito sem calma.
Árvores dentadas são ratos que me roem.
No campo, a paz, o sonho, a paciência…

O real sou eu a acontecer,
É a minha sensação.

E eu,
Que sou?

E tu amor?

E os dois?

Dois mUNDOS
Separados do Mundo
Cuja felicidade vai sendo adiada
Para depois
E depois
E depois
E depois
E depois
E depois…

Lisboa, 12/12/96

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:29
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sexta-feira, 20 de Julho de 2007

Declaração

I

«Não… Não vás já…
Gostava que esperasses.
Gostava que ficasses
Mais um pouco.
Talvez te zangues – Não te zangues.
Talvez me ignores – Não o faças.
Talvez me julgues louco – Não o sou.
Talvez um dia entendas o que é estar como estou –
Mas não sendo comigo,
Que benefício me traz?

Abraça-me – Porque não me abraças?

Todos dão vivas ao Mundo.
Tu dás vivas ao Mundo.
Tu queres ter o Mundo.
Eu desejo apenas o jazigo
E a paz.

Mas não foi por isto que te pedi que ficasses;
Gostava de dizer-te que… Bem… Sabes… Sinto e…
Aquilo que por vezes nós podemos…
Aquilo de que nunca nos esquecemos…
Vem doendo e…
Espera! Só mais um segundo!

Ah!, E eu que quero apenas ser feliz!
Será isso assim tão absurdo?!»

Lisboa, 13/05/94

II

«Estranho, o estar aqui, pensando uma Utopia…
Saber que é isso e ter sabor a pouco.
Ver o mesmo céu dia após dia,
Ter tédio dele e desejar um outro…

Estranho também o estares aqui comigo,
Eu, o eterno sonhador,
Que tenho o Impossível como abrigo
E o Caos como Deus meu criador;

Estranho ser estranho e eu já estar diferente;
Tu teres partido e eu falar sozinho;
Poder estar só ou existir mais gente;
Morrer de inércia, escolher ter um caminho…

Estranho o silêncio quando baixa a noite,
E se mantém quando sobe o sol:
Eu falo, nós falamos, muito afoitos,
E um tenebroso silêncio nos engole.

Estranho ficar quando todos partem,
Estranho eu amar se só há ódio em mim.
Ser eus que se baralham e repartem,
E jogam poker apostando um fim…»

Lisboa, 08/01/01

III

(Risos)

«Idiotices…

O que me interessa isso?
Não é normal, perfeito. Tanto se me deu.
De qualquer modo, estou sempre contrafeito.
Que é o que fiz?
Um gesto! Aconteceu…

De que me serve então preocupar-me?
Tudo é penúria, tudo é exaustão.
A partir daqui vou ausentar-me
Do pensamento e da sensação.

Assim, neste decreto do absurdo,
Declaro hoje, aqui, em frente a mim:

Vou dormir para sempre: Que me importa o Mundo?
Cortar os pulsos: Deixar saír esse veneno imundo
Que me faz respirar tão malamente,
Que me faz suar com ple ta men te…

E ficar pálido e frio como o marfim! …
 


Bruxelas, 26/05/04
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:01
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Do que Ocultava o Silêncio…

I

Tu, criança,
És o menino que eu já fui,
És o pássaro que voava livre no céu,
És o cabide
Pendurado no armário,
Que aos poucos e poucos se vai desprendendo
E vai exigindo o que é seu.
Tu, criança,
És o vento,
Que se escapa a todas as mãos, a todos os momentos,
És o luar aberto e misterioso,
Quando gira
No seu preguiçoso
Movimento…
Tu, criança,
És a flor que embeleza os campos soltos
E quando eu posso
Colho p’ra cheirar. –
Que não te importes:
O teu perfume é ar
Para os meus pulmões.
Ar que eu já não tinha; estranho ar!
Tu, criança,
És o horizonte,
És o cume do monte,
Todas as facetas da alegria,
O princípio e o fim do mar.
Tu, criança,
És a parcela perdida da infância,
És o sol, a luz, a água, a vida,
Um turbilhão de verdes circunstâncias
Saídos de uma caixa de magia.
Tu, criança,
És tudo o que eu fui e já não sou,
Por isso tu és menino e eu sou louco,
Por querer sempre demais, fiquei com pouco,
Mergulhei num castelo de ilusões…
Sonhei
Alto demais, suBI,
suBI,
suBI,
suBI,
Fui feliz,
E depois
CAí
Aos t a
r m
bo õ .
lh es . .

Tu, criança,
És tudo aquilo por (que) quem cresce aspira,
És tudo aquilo que um homem nunca tem;
Eles recordam em ti o que perderam,
E só contigo e por ti serão alguém…

§

Um adulto do Mundo
Por todos os adultos do Mundo…

Lisboa, 25/12/96

II

«Das Noites Negras em que me gritáste,
Dos Dias Sujos em que me humilháste,
Das Horas Tristes em que fui teu chão,

Ficou coberto pelo teu silêncio,
Por esse teu orgulho vil e denso,
Este tardio pedido de perdão…»

Lausanne, 29/11/04

III

«Sorrisos do Futuro?
Terras de Além-Mar?
Festim que demora?
Que sois?

O Presente é escuro.
Servir e calar…
Ser Criança agora!
Para quê depois?»

Sê criança agora – Nada há depois…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:56
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Ficcções do Amor (Parte Dois): O Paúl

Chegaste e eras ar, agora sei
Que era só ar o rosto que tiveste.
Pois no oráculo dos teus olhos decifrei
O medo, a raiva, a fome, a sede, a peste.

Talvez já estejas morta e eu, aqui,
Procure o teu corpo à tona d’água;
Mas só porque te olhei e não te vi
Tu vens ao cimo e não me dizes nada.

Talvez seja eu o morto e tu, ao lado,
Não tenhas mãos para me abrir a porta
Nem haja porta, mesmo, para abrir.

Talvez sejamos nada, simples fardos
E este fogo que arde desde a aorta
Seja o desprezo que sinto em existir...

Lisboa, 28/02/00

De um Poema de Natália Correia

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:48
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Terça-feira, 17 de Julho de 2007

No Fio da Meada

I

No fio da meada está o desespero.
Por isso eu vou cortar o fio.
No fio da meada está um barco negro
Descendo por um rio.

No fio da meada está a minha fome
De ser grande como o firmamento.
No fio da meada está escrito o meu nome
Que é mais pequeno do que sou por dentro.

No fio da meada está esta certeza
De ter a vida sempre amordaçada.
No fio da meada ganho essa destreza
De tirar pedras de qualquer entrada.

No fio da meada busco a alegria
Que não sei porquê me vem faltando.
No fio da meada dou as mãos ao dia
E para a minha festa o vou chamando.

No fio da meada mora essa vontade
Que faz de um mendigo um Imperador:
No fio da meada encontro a Liberdade
E o amor, e o amor, e o amor!

II

Parca, eterna Parca, da mentira velada:
É meu o meu Fado, tu não
Fias nada.

Parca, triste Parca, de Horácio e Homero:
Não terei caixão:
Eu sei o que quero.

Parca, feia Parca, tão vil e mesquinha:
Tu nada acometes:
Eu comando a linha.

Parca, grossa Parca, horrenda e temida:
Já medo não metes:
Eu mando na vida!

Lisboa, 02/04/01

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:20
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Quinta-feira, 12 de Julho de 2007

A Rosa

Era uma rosa num lindo jardim,
Ela brilhava e dançava ao vento;
Vermelho rubro, cor de carmim,
Ceres lhe dera um perfume bento.

Era uma rosa no meio do verde,
Ela cantava e contava o tempo,
Cor de cereja, de rosa veste,
Tombava, erguia, sento, não sento.

Era uma rosa trepando um muro,
Rasgando o ar como uma criança;
Cor de ginja, vermelho escuro,
De olhá-la, só, o coração descansa.

Era uma rosa contando os dias,
Suave, quebrava o seu caule fino;
Lembrava sonhos, esquecia a vida,
Até cair nas mãos de um menino…

Lisboa, 18/04/92

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:39
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Nós Dois

I

Ainda o Sol não tinha bem pousado
Sobre os telhados altos destas casas
E já eu impaciente, abotoado,
Te esperava com o coração em brasas.

Vieste: Esplêndida! Linda! Deslumbrante!
Lembro ter ficado sem palavras.
E com o passo lento e trem’licante
Fui beijar-te as mãos bem perfumadas.

Podias ter sorrido com o ar frio
E superior de muito mulherio
Tomando-te Raínha dos Mortais:

Mas tomaste antes o meu rosto caído
E com um olhar mais terno que Cupido
Beijaste-me até não poderes mais…

II

Ser Humano
É sonhar.
Nós dois sempre tivemos consciência
Dessa verdade óbvia mas velada.

Do chão plano
Brota este pilar:
O nosso amor, firme e em emergência
Como uma flor de campo, bem plantada.

Porque por nós passaram poucos sóis
E construímos juntos esta casa
Reclamamos para nós todo o espaço em redor
E sentimos a força de milhares de homens:

Somos novos, somos tudo:
Somos os donos do Mundo.

Fazemos parte do campo onde pascem os bois,
Somos um pouco do pássaro de que ganhamos asas:
Germinamos em nós aquela flor
D'onde tudo surgiu e onde todos comem…

III

Nós dois
Não acreditamos no Destino.
Não fazemos parte deste Mundo de tolos.
Nós dois
Tocamos com nossas mãos o sino
Que tranforma em risos os antigos dôlos.

Nós dois
Estamos para além dos outros
E acima do comum desgosto que aí passa;
Nós dois
Escapamos lestos do sufôco
Causado pela junção bestial das massas.

Nós dois
Tomamos de nós o máximo tempo
Porque não fugimos de ninguém, porque tudo está certo.
Nós dois
Abrimos as portas do nosso convento
E rezamos ao Amor a céu aberto.

Nòs dois
Ascendemos para além destes muros
E somos e estamos para lá da Hora.
Nós dois
Vivemos com as almas no Futuro
E é lá que a nossa vida se demora.

E mais extraordinário que isto tudo,
O que ficará para depois,
É que tu não desgrudas, eu não desgrudo,
E nunca fomos dois…

Lisboa, 19/12/96

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:19
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«Amor em Tempos de Cólera»

Cai a semente no meio do campo,
Desce fundo, talvez por engano;
Revolve a terra, gasta tamanco,
Trabalha, esfria, e hoje é ramo.

Pousou em tempos semente velha,
Pobre e gasta mas cheia de amor;
Rega com força por gasta telha,
Trabalha, sua, e hoje é flor.

Bailou outrora semente fraca,
Em terras frias e tristes germina;
Protege e cuida alma beata,
Trabalha, cansa, e hoje é vida.

Sob a abóbada do grande céu
Dançou um dia tamanha flor;
Por entre as balas, de frio morreu:
Cavem a cova ao agricultor.

Lisboa, 08/12/92

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:11
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Terça-feira, 10 de Julho de 2007

Extâse e Regresso

Um dia claro, no céu do dia um’ave
Voando além das margens desse céu.
Se acordado, sonho. O sonho é a chave.
Entre a ave e a terra estava eu.

Um arco-íris seguindo a grande chuva;
Um vaso nas mãos de uma criança;
Uma mulher escultural pisando uvas
Que eu bebia em horas de bonança.

Uma mão pousada no meu ombro,
Um ombro encostado à minha mão,
A minha mão tocando Galateia;

Oh, a vida!, a vida!, grande assombro!
Se bem me sinto é porque sonho e não
Por ter o gozo dela na ideia!

Lisboa, 27/03/94 - 29/12/00

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:10
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Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Mensagem (A Fernando Pessoa)

Eis esses heróis dos Novos Mundos!
Eis os sonhadores no mar salgado!
Eis os mortais, esses moribundos
À sua ambição acorrentados!

Eis os Homens, raça de infelizes,
Subindo, porém, a um pedestal!
Eis a Miséria e o Horror, esses Juízes
Da Vida, o Supremo Tribunal!

Vultos na treva tacteando a ruas
Sob a lanterna pálida da lua,
Em busca de um sentido para a vida:

Eles são nossos, estão adormecidos,
Sonham com naus e galeões perdidos
Nesses desertos de água enfurecida…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:50
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Delírio V - (Cinco Traços Gerais Com Que Me Minto...)

I

Tive um delírio estupendo
Que me deixou agastado:
Vi uma Hidra rompendo
Do meu peito estilhaçado.

Tinha umas cinco cabeças
Cinco caudas, cinco línguas,
Virou-m’a vida às avessas,
Deixou-me no nada, à míngua.

Os deuses que nada podem,
Nada têm, nada são,
Chamaram-lhes: Cinco Dolmens
Pela sua condição.

Os Homens que estão perdidos
Nada valem, nada têm
Chamam-lhes: Cinco Sentidos…
E só por eles se regem…
II

Como podem cinco dedos
Perdidos por pés e mãos,
Desvendar esses segredos
Que há na Civilização?

Como podem cinco braços
De percepção e de dor,
Desvendar todos os traços
Que há no rosto do Amor?

Como podem cinco pontos
Cardeais das sensações
Tornar servis esses monstros
Que nos servem de emoções?

Como podem cinco pólos
De atracção e de ruído
Desenrolar esses rolos
Que são os Cinco Sentidos?

III

Seguindo cinco Destinos,
Erro na bruma e no bréu,
Carregando cinco espinhos
Que um Anjo Negro me deu.

Ao bater de cinco sinos
Em cinco mosteiros densos
Saem de cinco caminhos
Cinco demónios cinzentos:

Cinco seres agrilhoados
Em cinco caves de medo,
Nas cinco prisões do Fado
De cinco Reinos de Cedro.

São cinco espectros pisados
Por cinco longos degredos,
Por cinco vidas os escravos
De Cinco Sentidos Negros...

Os cinco, de braço dado,
Rompem direitos a mim,
Erguendo cinco cajados,
Com já, dos dias, o Fim…

Por cinco vezes giraram
Em redor de cinco luas;
Das cinco me vomitaram
As suas carcaças nuas.

Depois de cinco rodadas,
De cinco gritos de horror,
Desventraram cinco espadas
Dos coldres do desamor.

Com todas cinco eriçadas
Até ao termo do espaço
Deram cinco gargalhadas
E cinco urros devassos.

Fiquei assim cinco vidas
Assistindo ao ritual:
Cinco brutais investidas
À minha alma mortal.

Depois de cinco tormentos,
Cinco penas, cinco assombros,
Vi cinco punhais cinzentos
Entrarem-me até aos escombros:

Os escombros de cinco sonhos
Que tive o arrojo de ter,
De cinco céus enfadonhos
Fadados p’ra me perder.

Os escombros de cinco muros
De esperanças por cumprir,
De cinco Édens Futuros
Que só ficaram por vir.

Fiquei-me então cinco dias
Deitado no chão queimado,
À espera dos cinco guias
Dos cinco portões dourados

Que fecham as cinco entradas
Dos cinco palácios claros
Onde dormem sossegadas
As cinco filhas do Fado.

Mas cinco dias passaram
Sem que passassem por mim.
Pele e boca me secaram,
Sequei-me no pó ruim.

Mais cinco vidas soaram
Como sinos de um convento,
Mais cinco vidas secaram
Os meus ossos pardacentos.

Cinco vidas que murcharam
Como uma rosa ou um lírio.
Cinco vidas que acabaram
Por não ser mais que um delírio:

Foi como um sonho que tive,
Talvez que tive sem ter –
Que o que se tem só se vive
Depois de nisso se crer –

Porque eu não tenho nem sonho
Pois qualquer Fé me é estranha,
Ponho nos dias medonhos
Duas mãos cheias de manha:

Digo da vida que é nada
Sabendo que estou aqui,
Acuso-a de ser parada
Depois que já me movi.

E ela, suavemente,
Sem me falar nem me ver,
Passa por mim insolente,
Deixando-me acontecer.

E ela, suavemente,
Sem me forçar ao que sou,
Deixa-me ter, inocente,
Os frutos que me deixou.

São restos do que escolhi,
Minhas feições inconstantes,
Das frases com que escrevi
Os dias mirabolantes.

São restos, apenas sobras,
De cinco partes de mim,
Origem das minhas obras,
Dos troços por donde vim.

São restos… Traços esquecidos
Que rabisquei pela vida…
Esboços de planos perdidos
Ao longo dessa Avenida…

São restos… linhas esfumadas
No fumo dos alaridos…
Além de cinco jornadas,
Aquém dos Cinco Sentidos…

IV

Nós os Homens-Deuses possuídos,
Reis dos Reinos de Aquém e Além nós,
Julgamo-nos Senhores, Seres Escolhidos,
Escolhendo ignorar que somos pó.

Nós os Bichos para sempre sós,
Os Brutos a Lordes promovidos,
Julgamos dominar de beta a ró
Mas não domamos sequer Cinco Sentidos…

V

Somos vazios por mais que nos sintamos.
Somos cansados por mais que nos sentemos.
Nós somos escravos, nunca somos amos:
E apenas nós a nós mesmos perdemos.

Somos cansados, por mais que não corramos,
Somos vazios, até se nos enchemos;
Este poço foi feito pelos anos...
Se não bebemos, que então nos afoguemos...

Que depois nos façam cinco enterros…
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:43
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Delírio IV

Há delírios em tudo o que conheço.
Todo o Homem é insuficiente.
Quero-me e quero mas não me apeteço.
Doente, vou doente e sou doente.

Fumo cigarros de ópio e de veneno;
Tenho visões de vidas que não tive;
Procuro abstracções e um mais ameno
Sonhar do que este sonho que retive.

No meu quarto sombras e figuras;
No meu corpo marcas que não fiz;
Um diabinho faz-me diabruras…

Na minha mente ideias que não quis.
Ordens loucas, fúrias inseguras;
Sou corda de um novelo que desfiz…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:23
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Delírio III

I

Meu nome é Joaquim Sem-Apelido.
Nasci num poço escuro: Portugal.
Um dia fiz a mala do Destino
E viajei por mares de terra e sal.
Então eu vi que o Mundo é indefinido,
Uma aldeia, simples e global.

II

Ficando inconformado com o que vi,
Confuso por me ver um aldeão,
Meti-me num saloon onde bebi
Até ficar prostrado sobre o chão.

III

Depois do que bebi na noite que passou
Não sei se durmo ou se isto é o real.
Mas este medo espesso que ficou
É a origem bíblica do mal.

Traços de giz numa folha branca
Que fica suja mas nada se lê:
Isso é a vida nos dias: uma mancha,
Como, nas toalhas, o café.

Um golo no cognac, n’águardente,
Um golo de saliva dado em sêco,
Um golo de raiva amordaçada.

Bebo p’ra esquecer que sou demente,
Qu’ o Mundo é, no Universo, um bêco
Com a importância e a dimensão do Nada…

IV

Então, três vezes me ofertei a morte
Estendendo para o espelho um grande lírio.
Três vezes recusei a minha sorte
Imerso que estava num delírio.

Três vezes me bateram ao postigo
Para indagar se tudo estava bem.
Três vezes respondi que «estar comigo
É o único bonheur que me convém!».

Três vezes escrevi o suicídio
Nas costas de uma folha amarrotada.
Três vezes premi esse gatilho
Do pistolão nervoso que é a mágoa.

Então, urrando, e um pouco entre suspiros,
Entre o soluço, a solidão e a frágua,
Por três vezes eu disparei três tiros:
Rompi, parece, uns quantos canos d’água…

V

Quando acordei o sol ia subido.
Não me sobrava, porém, o amor-próprio.
Sob a cama? Debaixo dos sentidos?
Busquei-o então nas ternas mãos do ópio…

VI

Ah!, que cheiro bom!
Sempre gostei do tabaco!
Pom! Pom! Pom! Pom!
Quão forte soa o meu coração fraco!

Pom! Pom! Pom! Pom!
Ta-ta-ta-ta!
Meu coração! Então, que se passou ?
Há festa, há?

Pom! Pom! Pom! Pom!
Tu-tu-tu-tu!
Kabom! Kabom! Kabom! Kabom!
Meu coração, então, és mesmo tu?

Fumar faz bem,
O Mundo põe-se a nu…

VII

Uma fanfarra desperta lá em baixo
O tumular silêncio destas ruas.
Chego à varanda para investigar:

Co’ a breca! Um homem de penacho!
E aquela gorda com rosto em meia-lua
Dançando qual Ceres num altar!

Isto é que é vida!
A aldeia, que vinha andando morta,
Rompeu da turbidez para um festim:

É uma chegada ou uma despedida.
Mas os locais vêm de porta em porta
Deixar convites em sopros de clarim!

«Juntem-se à nós amigos da Fortuna,
Venham beber do vinho, comer pão,
Provar as broas, o centeio, o mel!»

E segue a procissão como uma tuna,
Enquanto eu sigo na minha Solidão
Neste pequeno quarto de motel…

VIII

FON! FON!

Ah esta fanfarra, que som!!!!!!

POM! POM!

Ah esta fanfarra, que bom!!!!!!

BOM! BOM!

Ah esta fanfarra, que sou?!!!!!

VOM! VOM!

Esqueleto que festeja o que passou…

(…)

Passons.

IX!
Que som! O abominável é bom,
Por uns momentos…
Interrompo tudo o que fazia:
Agora faz sentido este cinzento,
Agora toda a noite se fez dia!

É neste instante que eu imagino o mar…
E uma praia aonde deixo em molho
As mágoas mais pungentes…

O ar
Parece puro.
Por isso sei que sonho…

Como poderia, pois, sem estar sonhando,
Compreender a sensação confusa
Que parece enfim tornar-se clara?

Tudo é incerto – O mar vai-se alterando.
E da maré, outrora inerte e muda,
Sai um dragão de fogo que me abrasa…

X

Foi o meu regresso à tábua rasa…

XI

Meu nome é Joaquim… Indefinido.
Nasci num vilarejo trivial..
Um dia fiz a mala, prevenido,
Pois queria conhecer o Universal.
Mas o que descobri não tem sentido:
Tudo é a minha aldeia, e me faz mal…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:20
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Delírio II

Deus, meu Pai, algo me mói,
Cá por dentro, alguém me rói,
Qual a causa do meu mal?
Será excesso de gosto?
Provo a vida… Não tem sal…

Saio grosso do meu leito,
Vejo fora alguém suspeito,
Traz escondido um cabo forte,
(Era espesso aquele mosto!)
Trar-me-à amor ou morte?

Desse vulto eu ganho medo,
Volto à cama enquanto é cedo,
E aí faço a minha cova,
Meu valado mais profundo –
Deixo a vida para as trovas…

Sim, respiro mas em vão,
Se sou a minha negação:
Quero mudança que mova
A base chã deste Mundo
Mas receio a coisa nova…

Oh!, carcaça sequiosa!
De tolice, só, abundo…
O poema sabe a bispo –
Que farei agora disto?
Um soneto ou uma glosa?

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:18
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Delírio I

… E fiquei louco depois daquele dia
Em que uma luz entrou no meu abismo.
Era uma paz, então! E eu dormia…
Alguém me despertou com um grande sismo…

Uma mulher gritava em certo leito,
Um homem me batia impaciente…
«Que situação!», pensei, não tinha jeito!
A que planeta vim tão de repente?!

Veio depois alguém, trajando branco,
Que me pegou e disse: «Este é ruim!»
E despejou-me ali por sobre um banco…
Então eu fiquei rubro, mau, carmim,

Cresceu-me barba e pelo, e unhas, cascos,
Fiquei com grandes dentes, e com escamas;
E os olhos, vidrados como frascos,
Pareciam dois tremendos lança-chamas.

E foi então que enchi o peito de ar,
Puxei o tronco atrás, as mãos à frente,
E expirei, num sopro de espantar,
Um fogo luminoso, horrendo e quente!

Tudo acabou, ali, naquele instante,
Eu como estava e o que estava em mim;
Aquela multidão asfixiante,
E essa origem suja de onde vim.

Mas oh!, já era tarde, porque então,
Já eu era eu e vida, enfim!
É pois por plena e pura prevenção,
Que neste dia enorme eu voto «Sim»!1
 

 


 

Nota Política do Autor: "Este dia enorme" é o do segundo referendo nacional sobre a legalização do aborto em Portugal.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:13
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Mosaicos - (Ou Um Poema Fotográfico V)

I

Vestido azul do mar, mala ancorada,
Dona-de-Lá prossegue o seu caminho;
Da sua boca, numa expressão vaga,
Explode um murmurio, entre o uivar marinho:

– «Ai, a saudade que há na Alvorada!
Praias do Algarve, montes que há no Minho!,
Onde deixei amores por quem definho,
Além da bruma que me está vedada![1]

Onde a saúde? Onde os meus amores?
Onde as horas, risos que perdi?
Aqui no cais, dispõem-se os horrores,
Enquanto partem sonhos que esqueci.

Ah, o peso de tudo em que eu medito!
Oh, Tanta é a exaltação! Tanta a repulsa!
Ahhhhh, o horror! O horror! O horror! » – (Um grito)… –
«Regressa Amor!» – E chorou convulsa…

II

… – «O pessoal de lá sente-se só!;
Mas nós por cá também!!» –
Gemeu uma pobre quarentona,
Despedindo-se,
Do cimo do seu ferry que atravessa o Tejo.

§

Rasgando o forte vento a 12 nós,
O barquito avança,
Enquanto uma mão-cheia de lenços
Vai acenando um adeus l e n t o,
Cho ro so,
De pri men teeeee…



(Gesto pesado em que me revejo…)

§
«Adeus!,
Adeus!,
Escreve-me!,
Não esqueças!

Manda notícias antes que eu pereça!
Manda notícias antes qu’eu…»



(E pereceu…).

III

…No banco ao meu lado
Alguém solta um bocejo…

«Mas que diabo?!
Que é este alarido?!»

É um velho em farrapos,
Um mendigo,
Que, parece, há já umas semanas,
Tem vivido aqui neste lugar…

Sem ter qualquer dever em que pensar,
Vai cravando os olhos nos traseuntes
À espera do cigarro.

Nunca pediu dinheiro;
Nunca aceitou que comer;
É um filósofo nato:

Para ele a vida é como um escarro,
Excedente de um breve ser de barro,
Que se espezinha depois para o esconder...

Braga, 29/07/96
[1] Nota do Autor: O Passado…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:57
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La Finestra, L'Amor, La Solitudine... (Ou Um Poema Fotográfico IV)

Eu vim só ver se acaso tu chegavas.
E o caso é que por casa é um vazio.
Eu vim só ver, amor, mas tu não estavas...
Estava o Inverno, fruste, feio, frio...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:47
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Penitências - (Ou um Poema Fotográfico III)

Que dia angustiante e repetido!
 

Que dor ventricular!,
Qual foi, meu Deus, o crime cometido
P'r'á vida me secar?

Lisboa, 12/04/96
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:35
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Fraquezas - (Ou um Poema Fotográfico II)

De pé, há horas, na fila para os dadores de sangue.
Onde estarão os doadores de risos?
«Perdoe-me, senhora, estou tão frágil!
“Posso-me” sentar aqui consigo?».

Lisboa, 13/04/96
 

 
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:22
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Domingo, 8 de Julho de 2007

Segredo

Um dia achei a chave do Reino de Deus,
Abri a porta e vi que esse Reino era meu:
Tantos sonhos tristes, tantos pesadelos!,
De quando me suavam o corpo e os cabelos!,
Com medo de tudo o que mexesse ou não,
Com medo, até, da minha excitação!
Abri essa porta do Mito e da Lei,
E só vi Desordem, só o Caos achei…
Deus é uma núvem sobre os Homens que dormem,
Carregada de chuva, impedindo que acordem…
Sob essa núvem, também eu pairei…
Se eles dormem ainda, porque foi que acordei?
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 16:25
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Sábado, 7 de Julho de 2007

As Cores Probidas (Ou «Secrets From the Behive»)

Estão proibidas as cores vãs do Desespero:
Não desejamos a Morte cá em casa.

Estão proibidas as cores avaras da Agonia:
 

Se algo o agita passe pelas brasas.

Estão proibidas as cores trémulas do Medo:
Já muito há nesta vida que assuste.

Estão proibidas as cores de Crenças Frias:
Religiões, Destinos, são p’ra nós embuste.

Estão proibidas as cores estáticas da Esperança:
Não há nada aqui para esperar.

Estão proibidas as cores Escuras da Campa:
Quero viver para sempre quero ficar
Novo e potente combatendo o mar…

Lisboa, 06/10/96
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 06:08
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Sexta-feira, 6 de Julho de 2007

Poema (Homenagem a Miguel Torga)

Ouve,
Não tenhas medo,
É um poema;
Um misto de oração e de feitiço,
É o mais intenso dos mistérios,
Um dilema,
É cometer com as palavras adultério
E ter orgulho nisso.
É um perfume denso num harém distante,
Um compromisso
Com as frotas do Levante.
É uma vontade de viver constante,
É uma escrita aberta e natural.
Com as palavras abrimos corações;
Como a chave de portas encobertas,
Como a passagem secreta p’r’ó portal
Das nossas emoções.
É um cofre, um armário, uma gaveta,
Onde guardamos os sonhos pessoais;
É no que somos talvez um pouco mais,
E um pouco mais das nossas sensações.

Ouve,
Não tenhas medo,
É um poema,
Não fujas dele mas corre ao seu encontro,
É uma flor desabrochando,
Um teorema,
Que tu vais desvendar ponto por ponto.
Juro, é parte de ti, ser consciente,
E o lençol de todas as nascentes.

E ouve,
Não tenhas medo,
É um poema,
Espera por ele à noite na ruela,
Deixa-te embalar ao som do vento,
Faz dele emblema,
Põe-no na lapela,
Enquanto docemente passa o Tempo;
O Tempo que tu sentes mas não crês
Que possa, palpável, existir…

(Poder sonhar é também poder rir!,
Poder sonhar…)



Depois senta-te e ouve o que sussurra,
(Com voz doce, calma, prasenteira)
Quase inaudivelmente ao teu ouvido:

«Eu sou o mar das tuas noites escuras;
Quando subir ao céu a lua cheia,
Quererás tu partir comigo?».


Lisboa, 16/07/96

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:01
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Quinta-feira, 5 de Julho de 2007

De um Retrato

Deixei-me absorver no teu retrato –
Que linhas!, Que feições! Tamanho porte!
E de joelhos, com submisso aparato,
Qual provençal jogral faço-te a côrte.

Poemas, Endechas, cantilenas,
Sofridos gemidos interiores,
Mortes de amor, desmaios, grandes penas,
Celebrados em versos superiores!

«Princesa – diziam – És o meu tormento.
Sucumbo. Padeço. É uma agonia.
Aqui, nos rins, sinto um golpe imenso;
Alí, nas veias, uma apoplexia.

Dá-me um auspício , não sejas tão fria,
Tão régia, tão deíca, amuada!
És o meu terço por onde, a cada dia,
Rezo às Forças Maléficas do Nada.

Alva mulher, do marfim mais puro,
Puro demónio que Deus renegara,
Teu brilho mítico ilumina o escuro,
Teu olhar esfingíco turva as manhãs claras!

Flor rara da maior montanha
Que resiste à neve e ao temporal,
A tua graça lírica é tamanha!
O teu perfil tão fenomenal!

Fídias em vão ostenta os seus trabalhos
Às gentes ocupadas deste Mundo –
Se vissem teu retrato, sem detalhes,
Mesmo na distância, num segundo,

Logo faziam de ti o seu modelo
De Beleza Ideal e de postura:
O passo leve, o arranjo dos cabelos,
Tudo em ti redifine a formusura!

Sim, figura da tela, tu és tremenda!
És fogo brotando nas candeias,
Ninfa coberta da mais fina renda,
Grossa contusão nas minhas veias!

Sim, és bela, Deusa fabulosa!,
Fustigas, cegas, perdes homens bons
Com a tua doce voz melodiosa,
A harmonia incrível do teu tom!

Ninguém o nega (Oh!, Quem poderia!)
Ninguém sequer resiste aos teus encantos!
Em ti as minhas faltas já se espiam,
E tu és o motivo dos meus prantos:

Fruto somente, semente que nasce
Da farta terra p’r’ áscender aos céus,
Tirana!, fazes com que o Sol se agache,
E trema como Macbeth tremeu

Quando veio p’ra si toda a Floresta
Levá-lo para o Reino dos Defuntos –
Porque é a tua graça tão funesta
E são tuas carícias um conjunto

De dores e desgostos e torturas?!
Ah!, minha ilusão, esfinge encoberta,
Senhora de tão clássica figura,
Górgone, Dríade ou Clitemenestra,

Ganha compaixão dos meus gemidos!
Não me deixes a definhar assim!
Mata-me num lance destemido
Ou sai desse retrato empedernido
E vem, qual cera, derreteres-te em mim!»

Lisboa, 15/04/93 – 10/12/00

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:28
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Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Mal-Me-Quer

Por trágica partida do Destino,
Fui neste bom Domingo passear
Ao Rio Mondego, belo e cristalino,
Para colher algum do puro ar.

Num infortúnio quase desejado,
Voltei-me, como instintivamente,
Para a margem, onde, repousado,
Jazia o teu corpo excélseo e quente.

Fiquei sem sangue. Mudo. Extasiado.
Bestifiquei-me em trémulo alvoroço:
Colhi uma flor, então ali plantada,

E comecei forjando alucinado:
Mal-me-quer, bem-me quer, mas muito, pouco…
Nada! E tu soltaste uma gargalhada…

Lisboa, 07/01/94- 09/12/00
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:23
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Terça-feira, 3 de Julho de 2007

Fragmentos De um Completo Desalento (Incompleto Só o Que Tenho Dentro)

I

Tens o sono,
Tens a vida,
Tens a morte…

II

Pouca-sorte, pouca-sorte, pouca-sorte…

III

E por ti espero ao longo dos meus dias,

IV

Como espero?
Porque espero?
Por que espero?
De quem espero novas novas de alegria?

V

Pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra, que agonia!

VI

A espera é o lugar do desespero em que se antecipa a morte e a vida se adia.

VII

Pouca-sorte, pouca-terra, pouca-sorte, paranorte passaporte paraamorte,
Papaléguas, dámetréguas, dámevidas…

VIII

Pois…

Tens o sono,
Tens a vida,
Tens a morte…
Tens talvez a fome de ganhar…

VI

E que sorte não teres sorte para amar!

(Lisboa, 17/12/99)

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:26
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Domingo, 1 de Julho de 2007

Em Frente (e De Mãos Dadas)

I

Em frente andamos com as mãos atrás das costas
E as esperanças volvidas p’ra poente.
Em frente erguemos os gumes da revolta
Pondo nas mãos do Mundo o nosso ventre.
Em frente vamos, p’la glória que é devida,
Recolhendo[1] o fruto da semente.
Em frente recuamos, depondo a nossa vida
Nas mãos daquele Deus que não se entende.

Lisboa, 24/12/98

II

Avançarmos na vida
É recuarmos p’r’á morte.
O perurso era armadilha;
Pouca sorte…

Paris, 10/06/04

III

Avançar com a Fé
É recuar com a Razão.
Avançar com a Razão
É recuar com o Sentimento.
Avançar com o Sentimento
É ser caos, exaustão,
Um Labirinto por dentro.

Se, quando avanço, recuo,
Para quê o Movimento?

Paris, 10/06/04


[1] Nota do Autor: Com as mãos…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 21:19
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Canção do Bandido

Sou um pobre bandido
Sem eira nem beira
Não tenho um sentido
Nem talvez o queira;
 

Vagueio no escuro,
Preparo armadilhas,
Disseco o futuro
Numas cigarrilhas;
 

No vazio das ruas
Procuro emoções,
Mas nem com gazuas
Abro os seus portões;
 

Vejo atrás dos muros,
Por dentro dos bêcos:
Apenas uns duros
Roubando uns pategos.
 

Busquei sob as pedras,
Sobre os candeeiros,
Junto às torres vedras
Lá de um pardieiro;
 

Perfurei as estradas,
Escavaquei passeios,
E só vi ossadas
De uns esqueletos feios;
 
 
 
 
 
 
 
 
Sem querer desistir
Investi mais fundo:
Não tenho Porvir,
Que me importa o Mundo?

Eu quero um abismo
Que seja só meu:
Será comodismo
Rejeitar o Céu?
 
 
 
 
 
 
 
 
Insiste! Persiste!
Prossegue! Porfia!
O ser que desiste
É besta sandia!

E num esforço insano
Cavei mais p'ra dentro,
Para além do humano,
P'r' além do tormento;
 
 
 
 
 
 
 
 
Até que por fim
Achei um vulcão
Que explodiu, enfim,
Numa exaltação;
 
 
 
 
 
 
 
 
A lava descia
Pela sua encosta
E eu nem me movia
Com a visão imposta;

«Que medo, que assombro!»
Pensei estarrecido,
Tremeram-me os ombros,
Perdi os sentidos;
 

Quando vim a mim
Já tinha morrido,
Lamentei o fim,
Chorei incontido;
 

Mas não cesso a busca,
Não esqueço a missão:´
O cansaço ofusca,
A vontade não;
 

Anseio, pesquiso,
Revolvo essa lava,
Mantém-se impreciso
O que antes buscava;

Penetro as entranhas
Do Monstro hediondo:
Fornalhas tamanhas
Com tamanho estrondo!
 

Que horror, que suplício!
O Inferno é isto?
«Caramba! Que vício!
Pareces o Cristo!

Porque dizes mal
Do que desconheces?
Isso é afinal
O cancro das preces:
 

Isto é violento,
É certo, mas belo.
Mas cá me apresento:
Satanás Campello.
 

Nasci mais além,
Mas habito aqui.
Dispensei o Bem
Porque não o vi.
 

Procuro um amigo,
Não sei se ele és tu.
Há anos que o sigo
No sonho mais cru:
 
 
 
 
 
 
 
 
Um homem alegre
Que aprecie a arte,
Com quem não me enerve,
De quem não me farte.
 

Que goste de um copo,
De jazz, de xadrez,
Que ame o barrôco,
E um whisky maltês;
 

Que evite contendas
Sobre o Universo,
Mas que ame e entenda
O esplendôr do verso:

Esse homem perfeito,
És tu, ò bandido?
Que peso no peito!
Que aperto sofrido!
 

Enfim, esquece tudo,
Estou talvez tocado...»
Enfim, fiquei mudo
E um pouco pasmado:

Que milagre é este
De encontrar o Mito?
O ícon da peste,
O Anjo Maldito?
 
 
 
 
 
 
 
 
Mas será possível
Que essa coisa horrenda
Tenha causa cível,
Prelecções de emenda?
 

«O senhor, - expliquei,
Meio encavacado, -
Está grosso, não sei,
Ou está enganado;

Não tenho o perfil
Daquilo que quer:
Ou estará senil
Ou será mulher!»
 

«Senil eu não sou!
Mulher também não!»
«Então abusou
Do seu garrafão;

Isto não está certo,
Nem sequer me agrada.
P'r'a estar neste aperto,
Volto a pôr-me à estrada;
 

Por onde se sai
Deste pocilgão?
Este vai não vai
É uma irritação!

Mas que labirinto!
Mas que porcaria!
Não sei o que sinto,
Mas tenho uma azia!»
 

Já vi, tristemente,
Que Céu e Inferno,
São, basicamente,
O mesmo antro enfermo;

O melhor, enfim,
Será vaguear,
Mandriar, assim,
Sem nada que achar:
 

É bom ser bandido,
Roubar a quem tem,
Seguir destemido,
Sem temer ninguém;

Fumar cigarrilhas,
Vaguear no escuro,
Tecer armadilhas
Ao próprio Futuro!
 

Já corri o Mundo,
Já vivi nas Estrelas,
É tudo infecundo,
Paisagem p'r'a telas;

Já estive com Deus,
Não sabe o que quer,
Já comi pitéus,
Provei o prazer;

 
E já fui ao Inferno,
Já vi Belzebu:
Escaldava o estafermo!,
Tratei-o por tu;
 
 
 
 
 
 
 
Bebemos um pouco,
Falámos de nós,
E vi que era um louco
Sentindo-se só;
 

Depois do que vi,
Depois do que achei,
Pensei que vivi,
Pensei que pensei;
 

Mas se penso e sou
São outras ideias
Que o tolo esgotou
Ardendo candeias;

Porquê pensar nisso
Se basta passar,
Sem ter compromisso,
Sem ter de parar?
 

Assim continuo
Bandido e ladrão
Rumo ao fim de tudo
Lá na Imensidão;
 
 
 
 
 
 
 
Cavalgo sem tréguas
O meu alazão,
Vou papando léguas,
Toando a canção:
 

Sou um pobre bandido
Sem eira nem beira
Não tenho um sentido
Nem talvez o queira;

Vagueio no escuro,
Preparo armadilhas,
Disseco o futuro
Numas cigarrilhas;

No vazio das ruas
Procuro emoções,
Vou de lua em lua
Atrás de ilusões:

Como esta de agora
De estar mesmo aqui:
Como vivo a hora
Se outrora eu morri?
 

E tu meu leitor,
Não serás como eu?
Um espectro de dor
Procurando o seu?[1]
 

Não busques, que é vão,
Vadia comigo!
Ao som da canção,
Do eterno bandido...

Lisboa, 12/03/2006

[1] Nota do Autor: Versão alternativa - Procurando o Céu.
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 15:59
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Sábado, 30 de Junho de 2007

A Corôa

I

A coroa é um símbolo-objecto
Deposto na cabeça de um monarca.
O jugo é o púlpito-dejecto
Que nos impõem e nos deixa marcas.
O povo é o último-excesso
Da revolta que tarda e nos trespassa.

II

Segunda hipótese figurada da ruína
Marcada no verso da moeda;
Altura elevada da bebida
Em que se aposta a Vida que nos resta...
 

 


 

III


 

 
MacBeth foste Rei de Tanto e de tão Pouco
Perdeste a tua lei, ficaste louco,
Dentro de ti corria uma serpente:
Uma mulher, mesquinha e prepotente.
 


 

Lady Macbeth é a tua consciência,
A tua alma é toda a tua ciência,
Não há desculpa num gesto além de ti:
A tua culpa és tu e o horror em si.


 

 
As bruxas são vontades, não destinos,
Disseram-te só sonhos que tiveste,
O que fizeste foram teus desejos...


 

 
A côroa ensanguentada e os seus hinos,
São gritos dessa dôr e dessa peste
Que é governar sem dominar ensejos...

Lisboa, 06/01/99
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:29
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

Caras

Cada um de nós tem uma cara
Em que se esconde o medo que há em nós;
Cada um de nós tem uma máscara
Que vai mudando quando está a sós.

Lisboa, 06/01/98

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 04:50
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Confrontos

Não devias ter vindo.
Estava a tentar esquecer-te.
Na verdade já tinha conseguido conceber um naufrágio onde te afundavas
E lamentavelmente padecias sob a força das águas.
Naturalmente chorei-te:
Uma mulher tão bonita e tão nova! – Pensei com os restantes convivas – Que dor de [alma!
E chorámos todos.

Foi depois a vez do padre:
Sacrementou-te, latinizou-te, perdoou-te o imperdoável;
E a terra comeu-te.
Foi bonito…

Por volta das duas fomos beber e comer.
Os mais alegres contaram umas anedotas.
Os mais tristes riram-se.
A tarde passava agradavelmente.
O sol brilhava.
Um ou outro corvo pousava sobre as campas,
Saltitando,
Rebicando,
Esvoaçando.

Um ou outro fato preto punha flores na terra que te cobria.
Sentiu-se paz. Dormi. Foi um bom dia.

Mas hoje reapareces como um fantasma para recuperar os movéis que nem são bem teus,
E para rasgar o retrato em que sorrimos juntos,
E para exigir a tua presença material onde ela não pode existir.
Chegaste mesmo a falar.
Chegaste mesmo a proferir palavras com uma voz metálica e um desdém nos lábios.

Não me lembro exactamente como foi.
Eu tinha acabado de acordar, alucinava…
Balbuciei «Amo-te»
Suplicante, patético, infeliz.

Olhas-te-me de lado, de forma glaciar.
Sibiláste: «Vai para o Diabo!»

Estive mesmo para responder:

«A sério!, eu tentei!,
Mas ele não me quiz…»

Achei porém que te ririas de mim.
Por isso calei-me.
Tu, por tua vez, tiraste o que querias e foste embora sem me dizer mais palavra.

Foi então que me ri de mim próprio.

Bruxelas, 13/05/04

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:30
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2007

Imitação De Cristo - (À Saudosa Memória De Tomás de Kempis)

Aqui,
Acorrentado
Ao muro de silêncio,
Jazo
Com o pus a escorrer-me das chagas abertas.
Eu vi o chicote desses fariseus
A vergastar-me a fome,
A doer-me as costas descobertas;
Eu vi o cheiro do dinheiro
A tilintar nas suas mãos ínfames
Quando me rasgavam a pele e a fronte,
Quando me venderam
E, depois,
Quando enforcaram o arrependimento na árvore mais próxima;
Eu vi-lhes o medo que me tinham
De lhes vir a ocupar o seu lugar;
Eu vi-lhes a sentença;
Sorvi-lhes a doença na retina,
E senti-lhes o ódio no olhar;
E vejo ao longe o monte (a despontar)
Esquecido totalmente pela luz.
Suspiro.
Sinto o cheiro da morte. –
De sorte que já vejo ao longe aproximar-se
Aquele que me vai passar a cruz...

Lisboa, 14-06-98

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 10:28
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Terça-feira, 26 de Junho de 2007

Sonho Filosofal…

Nesta mesa onde me sento,
Onde repouso e descanso,
Neste pensar que é tão denso
E ao mesmo tempo tão manso,

Eu julgo ter percebido
Que nada sei sobre mim:
Sou um mistério insurgido
De um fogo ingente e carmim.

Quero mais e mais me falta
A cada querer que eu anseio.
A minha fome vai alta,
O meu prazer vai a meio...

Quero ir além de tudo
O que existir p'ra passar:
Além do céu negro e mudo,
Da superfície lunar.

Mas se além chego outra mágoa
Vem constrangir-me sem dó:
Insaciado na água,
Acompanhado e tão só!

Do outro lado de tudo
É tudo tal como aqui:
Tal como o céu, negro e mudo,
E tão ausente de si!

Evoluir é um abismo,
Não vejo bem no Progresso;
Tudo me surge num ismo,
Tudo me sabe a Regresso...

Volto atrás sem perspectivas
Nas perspectivas de mim...
Ando às voltas, à deriva,
Circulo em torno do fim...

Ser ou não ser este homem,
Com corpo e mente e razão.
Cinco sentidos que dormem
Sobre um fugaz coração...

Chegado o dia do termo,
O que fiz eu que me importe?
Sou um lugar sêco e ermo,
Deserto vago de Morte!

Passam por mim caravanas
Sobre os meus sonhos reais;
Mudam-se areias e ganas,
Mudam-se os tempos sid'rais...

Elas vão além da linha
Do Horizonte sombrio;
Vão vender isso que eu tinha
Antes de ser tão vazio:

A minha alma corrupta
Por tanto desejo vil;
A minha fé resoluta,
O meu céptico perfil.

Vão vender na feira laica
Os perfumes do além;
Rezas negras da Jamaica,
Ritos do Mal e do Bem;

Vão vender a Aventura,
O Amor e a Saudade;
Vão promover a Ventura,
Pôr na praça a Liberdade;

São os vendilhões do templo
(E esse templo sou eu)
Dão o pregão - um exemplo:
«A cinco tostões o Céu!»

As gentes, ávidas, correm
E acorrem à chamada;
As gentes ávidas dormem...
Vão a tudo, vêm nada...

E é assim com a vida
Que sem notar experimentamos:
A cada gesto uma ida -
É um cais que abandonamos;

Damos por nós, certo dia,
E já corremos um mar…
Mas onde fomos? Sabia
Muito melhor bolinar!

Que o vento então decidisse
O port' aonde acostar;
Que Deus então me surgisse,
Me desse forma e lugar!

Toma, ò Génio, esta costela:
Eu tenho andado tão só!
Eva perdeu-se à janela
Do sonho que se fez pó…

Dá-me outra deusa que tenha
O mesmo virus mortal:
Uma fome vil e estranha
Pelo espaço Universal!

Alguém que veja na vida
Mais que um ponto de passagem;
Que se prefira engolida
Pela boca da voragem!

Que queira tudo, além-tudo,
Que veja ter tudo em mim:
Mesmo send'eu negro e mudo,
Mesmo send' eu isto: assim...

A permanência inconstante,
Ou a excepção trivial:
Nada nos serve o bastante;
Tudo é dif'rente e igual...

Muda-se tanto e tão pouco,
Somos de tudo e de nada;
Somos o sábio e o louco,
A vida bruta e parada.

Somos esta carne sêca
Entre a areia do Deserto,
Carcassa errante que peca
Sob as estrelas do Incerto;

Somos isto que quisermos
Sem valor além de letras;
Espectros que remam, enfermos,
Por rias frias e pretas;

Viajamos sobre o Letes,
O Letes viaja em nós:
Soterrada, entre ciprestes
Deixámos a nossa voz.

Para quê cantar mais tempo
Se também deixou Orfeu
A lira, por um lamento,
Soterrada sob o céu?

E seguimos sob o monte,
Rio abaixo navegamos:
Dar a grinalda a Caronte,
Pagar o óbolo vamos...

Cérbero já se vislumbra,
Além, ao fundo do rio;
Cérebro, pára!, é a tumba!
Já falta pouco... Que frio!

Vou na barca do Inferno
E ninguém me viu passar;
Sigo em frente sem governo
E já não penso em parar.

Pedi a Deus uma deusa,
E vejo Lídia na margem;
Lídia é de Reis! A mim, Neusa!
Amar-te-ei de passagem...

Bato à Porta do Tormento,
Peç' ao Diabo p'r'entrar;
E vem-me abrir, sonolento,
Um demónio feito d' ar;

Digo a senha, faço figas,
Diz-me que sim e que não;
Mostra-me sete barrigas,
Tem sete pés, sete mãos.

E por sete bocas feias
Fala do fundo do assmobro:
«As sete covas estão cheias!
Olhe por trás do meu ombro!

Vá bater a outra porta:
O Inferno está lotado!»
Continuei - E que importa?!
Hei-d' ancorar noutro lado!

Para um morto - e eu estou morto!,
Nem burros à andaluza,
Nem canapés (nem um porto!),
Nem cetins, nem uma blusa

Trazem conforto eficaz.
Não faz diferença, não cansa -
É mal ou bem? Tanto faz...
Mais à frente há outra dança!

E rio abaixo e acima,
Nos pesadelos de mim,
Eu passo Baía e Lima,
Paris, Lisboa e Pequim!

Atravesso todo o globo
No meu sonho glaciar:
Na Morte forjo-me um lobo -
Um velho lobo do mar...

Moby Dick, já estou perto!
Meu inimigo mortal!
Meu vão delírio desperto,
Minha ilusão capital!

Um de nós há-de acabar
No grande eclipse final!
Um de nós há-de gritar:
«O que fui eu afinal?!»

Ser ou não ser o agente
Nesta mesa em que me sento,
Deste pedaço de gente,
Sonho que pensa tão denso;

Neste lugar de pesquisa,
Onde repouso e descanso,
Onde me sopra uma brisa,
E me afaga um vento manso,

Eu julgo ter percebido
Que nada sei sobre mim:
Sou um mistério insurgido
De um fogo ingente e carmim…

E nada do que me crie
Ou do que me queira crer
Fará com que contrarie
A minha forma de ser:

Este mistério insolúvel
Este tremendo vulcão;
Est'astro breve e volúvel,
Asteróide em colisão;

Este foguetão pousando
Na superfície lunar;
Este adagio triste e brando
Ou este enorme rufar!

Este coração com vida
Que anseia, pula e que dança!
Esta «bola colorida
Entre as mãos de uma criança!»

Eu sou de tudo e de nada,
Tudo o que vês está em mim:
Se não há mais, rompo a estrada:
Neófito, não há Fim!

Lisboa, (Sapadores), 26 de Junho de 2007.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 15:01
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

Desajustes

I

Quiz ser o que não sou;
O que eu não sei, o que não posso ser.
Vivi-me, simulei-me um outro:

Um estranho a mim que em mim se sedentou,
Forçando algo, aí, a perecer…
Mas onde está o dono do meu corpo?

Lisboa, 27/04/97

II

ESBOÇO DE UM EPITÁFIO:

Aqui jaz a alma que eu não tinha
A impressão de um ser independente.
A consciência que tenho não é minha:
Morreu o que eu era realmente…

Bruxelles, 28/08/04

III

Estou morto por dentro.
Como uma noz que só tem de bom a casca.
O meu Poder Estatal tem no seu centro
Um terrorista em prol da causa basca.

Por isso tenho o espírito em estilhaços.
Por isso provo tanta solidão.
Dás-me o teu coração, abres-me os braços,
Mas não consegues cobrir a multidão

De eus e pessoas que eu possuo.
Tenho uma sombra que me está pregada
Que me corrói com o gesto mais ruim,
Que me extermina pelas horas más:

Bombas me lança do seu antro escuro,
Arde-me os dias, faz-me cinza e nada,
Por mais que o povo imenso que há em mim
Se junte e em coro clame pela paz…

Lisboa, 06/03/01
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:47
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Domingo, 24 de Junho de 2007

Do Juízo Final

I

… E há-de vir o Cristo
Para o Julgamento
É aquilo ou isto
O que eu sou por dentro?

Vejo um monstro negro
Vejo um anjo branco;
Será um bruxedo
Ou apenas espanto?

Anjos e demónios
E uma assembleia.
O público espera
Alguém da plateia.

Quem falta chegar
Dessa gente ilustre?
O Papa está cá:
Mas era um embuste…

Ninguém da Igreja
A falar p’lo povo?!
Pode ser que eu veja
Um cardeal novo!

Mas ah! Eis que estão
Os bispos e os padres!
Mas oh! Um grilhão
Os prende a uma trave?!

Pobre gente nobre
Que se vê cativa!
Depois dos trabalhos
Que lhes deu a vida!

Todos os mortais
Estão aqui presentes –
Mas dos imortais
Há alguém ausente!

Oh! Supremo Engano!
Ò Deus Criador!
Faltarás neste ano
À festa maior?

Este é o Carnaval
Porque tu esperavas!
É este o arraial
Que tanto ansiavas!

Veste então o fato
De Rei dos truões
E junta-te a nós
Nas Celebrações!

É como, o teu jogo,
Da Justiça Eterna?
– «Este para a suite
Esse p’r’á cisterna!? –

Tu verás o sol,
Tu o calabouço;
Tu saltas à corda,
Tu tem-la ao pescoço;

P’ra ti o calor
D’álegria imensa,
Para ti a dor
De uma chama intensa;

Tu serás feliz
Porque estás comigo;
Tu serás um rico,
E tu um mendigo.

Para ti fartura,
Para ti a fome,
P’ra ti a amargura
De ouvires o meu nome».

Mais eis que me surge
Uma mão por tráz:
«És tu, ò barbudo!
Pois então por cá?!»

«Pois não perderia
Tamanha festança!
Já não dormiria
Com tamanha errança!

Queres então saber
Das coisas que faço?
E o que vem a ser
O plano que traço?

E como tómo eu
Estas decisões?
Ora, é segredo,
São as convenções…

Assunto de Estado –
Não vou revelar…
Mas vá, tu insistes,
Sou bom, vou contar:

Eu tenho aqui dados
Dentro do meu bolso
A que dou valores
P’ra este e p’ró outro;

Consoante calha
Traço o seu destino –
E se algo falha?
Foi um deus Maligno!

P’ra isso o Demónio
Dá bastante jeito –
Era um pandemónio
Sem esse sujeito!

Por vezes altero
Este meu sistema
Se acaso me surge,
Assim, uma piquena,

Com pernita cheia
E bem torneada,
Ou um jovem loiro
De tez bronzeada…

Que posso eu fazer?!
São as tentações!
E em casos destes
Há negociações

Com o meu colega
Do andar de baixo:
Também ele os pega!
É um berbicaxo!

‘Inda pode haver
Outra circunstância
Em que uns certos herren
Com muita jactância

Nos fazem propostas
Tão irresistíveis
Que os deixamos ir
P’ra onde pedirem:

Oferecem-nos vinho,
Licores, iguarias:
Um ou dois meninos,
E fotografias…

Por vezes nós vamos
Para as Tulherias,
Onde já formámos
Uma Confraria;

É o Paraíso
Como podes ver;
Se tiveres tal passe
Podes lá viver!

Mas no fundo o Inferno
Não é tão diferente:
Só faz mais calor
E tem lá mais gente;

E há menos luz –
Mas lá te habituas…
E também seduz:
Belas jovens nuas,

Altivos mangalhos,
Soberbas orgias…
Não só de trabalho
Se fazem os dias!»

«E até quando a Vida
Na tua Injustiça?
Até quando escravos
Da tua preguiça?»

«Até querer o Homem
Na sua aflição,
Pois apenas vivo
Na Imaginação».

Bruxelas, 30/05/04

II

E há-de vir o Cristo
Com uma balança
Pesar as obras,
Medir os Homens;
Essa Hora é um misto
De desesperança
Que se alastra noutras
Que depressa somem…

Bruxelas, 30/05/04

III

«Julgar os Homens!,
Abrir os Tribunais!,
Deixar entrar a Nave dos Dementes!»

§

«…Eu te condeno e aos mosntros que te comem
A cultivar a dor nestes quintais
Que hão-de produzir eternamente…»

Bruxelas, 30/05/04

IV

Depois dos Tribunais
É o medo
E o grito
Da revolta.

Depois dos Tribunais
Vem a angústia
De assistir à verdade assassinada.

Depois dos Tribunais
Volta o choro de lágrimas e sangue
Rotina de uma infância violada.

Depois dos Tribunais
Vem a cegueira
De ter visto a deturpação dos factos
Constante
Repetida
Perdoada.

Depois dos Tribunais
Vem o carrasco
Do Homem
E da balança viciada.

Depois dos Tribunais
Somos nós
Sem sermos
Porque nos tiraram tudo
E o sono
E a esperança
E a pele espancada
E os sinais.

Depois dos Tribunais
É a vingança
Afiada no gume dos punhais.

Depois dos Tribunais
É a lembrança
Asfixiada para nunca mais!

Lisboa, 05-06-98

Oh!. Quem tanto pudera, que fartasse
Este meu duro génio de vinganças!

Lisboa, algures no séc. XVI, Luís Vaz de Camões

V

Arder!,
Arder!,
Que há já tardança!

 

Bruxelas, 30/05/04

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:27
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Intensidades

«Porque ficou oceânico o escasso
Momento de nós?»[1]
 


Toda a nossa História: Sermos sós...

Que podes querer da vida em movimento?
Cada minuto uma fracção do que nos resta...

Somos o palco, o drama e o elenco...
Escrevemos nós a peça!
 


 

Haja festa pela noite dentro!
Haja festa! Haja festa!


 

Tragam os copos!
Queimem o incenso!
Vamos arder as horas mais funestas!


 

Ouves dançar ao fundo?
E o silêncio...
Ouves cantar ao fundo?
E a tempesta...


 

 
O mar subiu à terra,
A dôr ao coração...
Estou em guerra com a guerra
Da emoção...


 

 
Vivo em constante mutação...
 
Vamos viver a vida como vivem
Os brutos condenados!
Vamos viver a vida como vivem
Os loucos no hospício!
Vamos viver a vida como vivem
Os homens em delírio!
Vamos viver a vida como vivem
As extáticas bacantes!
 
Vamos viver simplesmente,
 
Avante! Avante!
É viver antes
Qu'isso da vida passe e que pereça!
Avante!, Avante!
Vamos! Antes
Que esta vontade intensa desvaneça!.

Lisboa, 26-05-98


 

[1] Que o sentido oculto desta difícil pergunta se procure em Luísa Neto-Jorge. Que na busca o leitor não conserve esperanças. Nesta má poetisa (em que este verso é, aliàs, dos melhores pela sua estimulante sonoridade) não deve, na verdade, procurar-se um sentido, mas apenas sentir-se e brincar com um fácil jogo de sons, fingindo a descoberta do mundo como, por norma, o fazem as crianças…

P.S.1: Eis as minhas gentis interpretações: a) Porque se dissolveu (em água) o escasso momento de nós? – isto é, da nossa existência… b) Porque se alastrou até à indefinição (profunda e misteriosa como o Oceano), a nossa escassa circunstância de ser? Aguardo apenas que a Madama Neto-Jorge se digne (se necessário da tumba) a vir agradecer-me os estoicismos: a) De ler a sua poesia; b) De, à la Madre Teresa de Calcutá (que alguém a tenha!) ou São Francisco de Assis (o do quadro de Bellini, por exemplo!), b1) A melhorar b2) A partilhar com a restante comunidade de fieis.
P.S.2: Aceito contribuição/ donativos para a minha conta bancária e/ ou estátua pedestre em praça pública.
P.S.3: Pela arrogância petulante e intolerável demonstrada nesta nota de rodapé, estou já há 35 dias em jejum, a pão e água e ainda sob um pesado sermão epsicopal de hora e meia com subsquente penitência de 700 Pais Nossos e 930 Avé-Marias. A indulgência obrigou-me igualmente a uma coima de 50 contos (o correspondente, nestes dias de progresso da ilusão europeia, a 250 euros). De facto é custoso o caminho do céu…
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:44
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Intimidades

E chego enfim ao teu Jardim Suspenso;
Vislumbro-te estendida sobre as flores.
Falamos de segredos empilhados,
De sonhos e desejos arrancados
 

À Ilha dos Amores...

São estes silêncios penetrantes
Soando repentinos no ouvido
Que me dão esta fome altissonante
De falar contigo...

Juraste ler nas linhas que há na terra
A Face Universal da Poesia.
Disseste conhecer um tal feitiço
Que acaba com a dor e com o enguiço
Como que por Magia...

São estes silêncios inocentes
Soando repentinos no ouvido
Que me dão a vontade inconsciente
De estar contigo.

Entornámos, nervosos, as palavras
Sobre toalhas tímidas, coradas;
Tricotámos os dedos que tremiam,
Entrelaçámos braços que fremiam,
Cantámos cem baladas...

São estes silêncios fabricados
Soando repentinos no ouvido,
Que me dão o desejo incontrolado
De dormir contigo.

Quiseste então sondar-me o coração.
Falaste-me de Deus e das marés –
Beijaste-me no rosto envergonhado,
Saraste-me essas chagas do Passado,
Deitáste-te a meus pés...

São estes silêncios estonteantes
Soando repentinos no ouvido
Que me dão o desígnio hilariante
De morrer contigo...

Lisboa, 26-05-98
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 13:42
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Causalidades

Porque preferiste ignorar que respiras e adormecer,
Porque também desprezas ser um entre iguais e o próprio ser,
Porque tu te julgas ser injustiçado neste Julgamento,
Porque queres pôr à prova o inteiro Sistema e o que tem dentro,

Porque tu te vês num Império de armas, numa enorme cruz,
Porque desse Mundo que o Demo te mostra nada te seduz,
Porque tu já sofreste e já viste o sangue e sentiste a dor,
Porque foi o teu, o braço do mito, que abateu Heitor,

Porque a Vida é curta mas o Sonho é longo e é a Treva imensa,
Porque ainda há luta e alguém que chora de uma angústia intensa,
Porque é tudo triste e tudo consiste no seres Moribundo,

Vais escolher ser nada onde nada existe nem como conceito,
Vais ser como estrada com princípio e fim no teu próprio peito,
Vais ser o Messias que a Fé te negava, desprezando o Mundo…

Bruxelas, 10/05/04

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 14:22
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Terça-feira, 19 de Junho de 2007

Exortação

Abre a porta, sai, vai ver a rua!
Não fiques sempre aí trancado!
Não é tão negro, o Mundo, já não dura
A chuva que caía ‘inda há bocado!

Tem coragem, sossega, enfrenta o Sol! –
Sente o vento soprar-te nos cabelos:
Abre os teus braços como um girassol,
Abre a mente, cria novos elos…

Abre a janela! Força! Vê por ela
A vida que esqueceste lá por fora!
Não dês tant' importância a essa dôr!

Mas logo um espirro… Vá, fecha a janela…
A diversão? O gozo? Sim, ignora…
Chega mais p’ra cima o cobertor…

Lisboa, 30/04/00

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 12:52
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

Sobressalto

I

Passos...
Ouço passos, lá fora, ò Solidão!
Corro a ver de quem são,
Quem chega - Não me viu, não o vi…

Nada...
Nada, nem ninguém...
Só passos rápidos de alguém
Que não vem por aqui...

Tenho a vida presa (que prisão!)
Desde que nasci...
Tenho uma ansiedade, inquietação...
Mas já passou, já esqueci...

Lisboa, 22/11/95

II

Sim, descansa...
Foi só um sobressalto.
Podes voltar a essa enorme angústia
Que define a tua natureza...

Pois quem virá comer à tua mesa?
Só esta hidra que voa dos planaltos,[1]
Só este monstro do medo e da incerteza…

A Solidão?
Que vileza!
A Solidão?
Que vileza!

Podes voltar a essa enorme angústia
Que define a tua natureza...

A Solidão?
Que vileza...

Lausanne, 22/09/04

[1] Nota do Crítico: Nova incongruência deste autor menor. Como é do conhecimento geral, as hidras não voam. Cf. National Geographic, programa XII, série 237, 19xx.

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:28
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Na Hora Do Adeus - (Ou um Poema Fotográfico I)

Como fui insensato em quebrar-te o riso!...
Mas, como poderia adivinhar?!...
Como é triste ver-te deprimida!
Chega querida! Pára de chorar…

Lisboa, 29-05-96

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:21
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Tonturas

A tua saia
Redonda
Desmaia
Nas ondas
Maleáveis
Das marés.

O meu corpo
Inerte
Sem forças
Perece
Em frente
A teus pés.

O teu rosto
Escarnece
Do meu
Que apodrece
E se esquece
Que é.

Pudera
Eu ser grande,
Tal como
Um gigante
Domina
As alturas!

Mas, enfim,
Sou triste!
No ser mau
Consiste
A minha
Figura!

E por isso
Jazo
Sob o teu
Vestido
Que me dá
Tonturas…

Lisboa, 20-05-98

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:08
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Deslumbramentos - O Gume Experimenta a Poesia

Ah! Senhora, que chama me consome!
Como me alucino em convulsões!
É esse olhar, esse gesto, o sobrenome
Bordado nesses míticos brasões.

Não como. Não durmo. Não reajo.
Apodreço-me nas mesas dos cafés
A admirá-la, de longe, acorbadado
Envolta em lacaios, de librés...

Como os invejo! Bastar-me-ia tocar a vossa capa,
Seguir-vos fiel por toda a parte,
Como um vosso adorno, como um louco! –

Se amor é um fogo e cruel mata,
Então, grave mulher, de assim amar-te,
Não devia já de estar eu morto?

Lisboa, 14/10/94 – 14/03/98

P.S.: Odete, cara Odete,
Essa dama da Côrte que, por vezes, você veste,
Ainda que exaure sempre um'aura comunista,
Arrepia-me a pele de fundo entusiasmo!
Mesmo que, por norma, você seja uma peste,
Com uma tendência 'stranha para teatro e revista,
É o remédio perfeito p'r'ó marasmo...
É por isso qu'eu, sem ponta de talento,
Apenas por respeito e admiração,
Vos dedico (Odete, vem de dentro!),
O meu «Deslumbramentos» - simples composição...
Pode desdenhá-la, armar um pé de vento...
Mas foi pensada com o coração...

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 06:49
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Domingo, 17 de Junho de 2007

Na Sombra

I

A força das marés arrasa os portos–
Destroços são a marca inquestionável.
A força das marés desfaz colossos –
A areia é a matéria irrefutável.
A força das marés revolve os corpos –
O sangue é uma prova insofismável.

II

A

Estar sozinho
Abraçado
Com o silêncio;

B

Conhecer
O suplício
De ser múltiplo;

C

Conviver
Com o lento
Movimento

D

Da vida
Que me abriga
No seu túmulo.

III

Vivo no abismo
Entre a terra e a onda,
Meu Negro Ostracismo
É seguir na Sombra…

IV

Então Deus criou a Terra
(Que me encerra)
E os Monstros
(São os outros!)
E os Quatro Elementos
(A Fúria, a Fome, a Sede e o Tormento)
E os pecados, que são três
(Sonho, Poente e Eternidade),
E inventou essa vil dualidade
De ser de uma só vez
Abel, Caim…

Nós descobrimos,
Ainda que a despeito da vontade,

Que não choramos apenas, também rimos[1],
Que não foi do mesmo ventre que provimos[2],
Que, por certo, a vida tem um fim[3].

Lisboa, 11-05-98

Notas do Autor: [1] O Ridículo
 

[2] A Imperfeição
 

[3] O Desespero

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 23:02
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Sexta-feira, 15 de Junho de 2007

Gabriel Cravo e Canela

I
 


Tão só estirado com os sonhos no Poente,
Tão só galgando esta ponte de medo,
Remando rumo ao Cabo,
Cruzando e enfrentando monstros mudos,
Com os olhos postos no Capitão do Fim...

Tão só na rota do ouro do Oriente,
Nesta São Gabriel dos Portugueses.
No mar acobardado,
Deus conduz pela própria mão estes marujos
Que buscam Fama e Glória em Bombaím...
 


 

II


 

 


 

No Oriente do Oriente do Oriente,
Eu busquei Fama e Glória, insanamente,
Amei sobre lençóis de bom cetim,
Fumei o ópio, a planta transcendente,
Comi desses manjares de mandarim,
Provei todo o prazer inconsequente,
Vesti um manto branco, à Serafim,
Planei a ombros sobre a pobre gente,
Impûs a minha Lei suja e ruim,
Ganhei, pilhei, matei, impunemente,
Ladrei, rosnei, ferrei como um mastim,
E um dia dei por mim, tragicamente,
A entender que não dava por mim...


 

 
III


 

 
Fui conquistar o Mar do Oriente,
Goa, Calcutá, Omã, Cochim,
E vi-me escravo um dia desse intento,
E naufraguei no mar que havia em mim...
 


 

IV
 


 

Eu Portugal (eu, Miguel!),
Eu fui em S. Gabriel,
Eu fui em S. Rafael,
Eu fui no Berrio além-mar.
 


 

Eu fui e vim sem me ver
Fui procurar e querer,
Fui encontrar e perder,
Fui quebrar ventos e ar.


 

 
E depois de ter partido,
E depois de ter voltado,
Dei por mim roto, exaurido,
Pobre, fraco, acobardado,


 

 
Dei por mim na Solidão,
Sem sentido e sem razão,
Sem ouro, barca ou padrão,
A chorar o meu Passado;


 

 
E vou boiando, abatido,
No paúl adormecido,
No charco mudo e esquecido
Do meu país estagnado...


 

 
Ontem fui Rei Sem Juízo,
Hoje sou Bôbo com Guizo,
Peito farto, bolso liso,
E c'o miolo parado...


 

 
«Tenho pena, tenho pena,
Mas não tenho melhor Fado!»[1]


 

 
Lisboa, 15/09/98

[1] Nota do Autor: Para entendimento dos versos entre aspas, Cf. «Surrealismo Por Correspondência».
Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 11:40
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Quinta-feira, 14 de Junho de 2007

Estoicismos - (Imitando Sócrates)

Novo acesso de tédio –
É uma constante.
Desisto.
E desta vez é a sério.
Tenho medo.
Mas o medo
Permuta-se.
Abro-me e transformo-me em cicuta:
Beberei o veneno do meu próprio sangue...

Lisboa, 02-04-98

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 15:02
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Cara-Metade

I – Transformação

 

Lavoisier catalizado de inocências,

Eu ganho-me

E perco-me

E transformo-me!

 

Procuro-me, inconstante, nas experiências

Que ensaio,

Provo

E desvario…

 

Buscar-me só me causa impaciência

E não me achar impõe-me calafrios ...

 

Entro no jogo de amar, que inconsciência!

Perdi-me,
Achei-me,

Falta qualquer parte!

 

Faltas tu, figura que imagino,

Artéria do meu orgão doentio

Que bate insanamente por amar-te…

 

Lisboa, 16-03-98

 

II – Esperança

 

Estar contigo, quem sabe,

Para sempre, quem sabe,

Se durarmos sempre (quem sabe?)

Se existir um sempre (quem sabe?)

Em que quem sabe amar que ame esse que sabe (quem sabe?)

Para eu te ter (quem sabe?)

E tu me teres (quem sabe?)

E uma metade completar outra metade (quem sabe?)

 

Viver contigo, quem sabe,

Como um abrigo, quem sabe,

Livre da dor (quem sabe?)

De andar tão só (quem sabe?)

E então com isso conseguir a claridade (quem sabe?)

Para me teres (quem sabe?)

E eu te ter (quem sabe?)

E tendo, sempre, experimentar a Liberdade… (quem sabe?!)

 

III – Busca

 

Onde o vazio começa e a terra acaba

Busquei o que buscava não sabendo

Que o que buscava já nesse ante-nada

Já o buscava em ânsias de entre-sendo.

 

Na própria consciência, essa Nababa,

Que vive, qual Raínha, amolecendo,

Eu embrenhei na Terra Abandonada,

Onde o seu chão ao chão vai carcomendo.

 

Caminho sobre a argila requeimada,

Por sóis abrasadores de meios-dias

Mais quentes e mortais que qualquer lume!

 

Mas juro, mesmo assim, sobre esta espada,

Provar em mil Infernos agonias

Apenas p’ra sentir o teu perfume…

 

Lisboa, 05/09/02

 

IV - Encontro

 

Surgiste quand’ eu já não te esperava,

Quando negara, amor, que tu viesses

Quand’ eu não te suponha além do sonho,

Tão vívida, tangível e carnal!

 

Sou um vulcão (repara) e isto é lava.

O que não É ouviu as minhas preces,

O que não pode pôs-te onde me ponho,

O que é Ideia, só, fez-te real…

 

Lisboa, 20/03/02

 

V - Partilha

 

O meu amor fechou-se subtil como as palavras –

O meu amor é daqueles que não revela o seu mundo.

Espera amor! – Fecharemos juntos este livro imundo;

Folhearemos, rasgaremos juntos estas páginas!

 

O meu amor! Fechou-se subtil como as palavras!

Guardou-se a sós na terra que nos espanta!

Espera amor! Fecharemos juntos esta campa!

Choraremos juntos estas mágoas!

 

O meu amor fechou-se subtil. Como as palavras,

Encarcerou-se nesses manuscritos,

Contos apócrifos de parcas existências.

 

O meu amor fechou-se. Subtil como as palavras,

Bebeu-se em sangue lúbrico dos ritos;

Espera amor! Vivamos juntos a sobrevivência!

 

Lisboa, 16-03-98

 

VI – Não-Fim

 

Senti que me faltavas:

Encontrei-te

E vivemos.

Cavámos uma cova

Juntos

E morremos.

Tapámo-nos com a terra

E na terra

Dormimos.

Nas mãos, flores de cidreira

E, nos lábios,

Sorrimos.

Por mais que os anos corram

Sobre os nossos

Sentidos

(Ou vermes que nos roam!),

Estaremos

Unidos...

 

Lisboa, 28-03-98

 

 

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 02:59
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Terça-feira, 12 de Junho de 2007

Poema do Último Refúgio

Viveste como o Sol numa Alvorada

E  o Sol anoiteceu.

Na noite  vagueaste sem morada

E Deus criou o céu.

 

--------

 

Coloquei a minha casa sobre o nada;

É por isso que o Mundo inteiro é meu...

 

(Johann Wolfgang von Goëthe, 1749-1832)

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 03:42
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

Submissões (Junto aos Restauradores)

Que enigma, no teu seio, amor, havia?

Qual o mistério ocluso em tua boca?

Teu brilho, teu olhar, escurece o dia!

De ti defronte, Laura abaixa a touca!

 

Que mágico poder foi celebrado?

Que fera abocanhou os meus sentidos?

Meu coração, esse motor, parado!

A vida, esse acidente, posta em perigo!

 

Mal eu te vi, fiquei petrificado,

Sorvendo esse teu rosto de Medusa!,

Agradecendo a Deus tamanha graça:

 

De estar alí, esperando ser pisado,

Num transe irregular de paixão pura,

Sob o teu pé de deusa, em plena Praça...

 

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 00:02
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo
Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

Poema de Convicção

I

 

O Homem:

 

A noite é escura e nada faz sentido;

E eu, sem sentido, ando à espera d’alguém.

Dentro de mim ouço um grito incontido –

Mas dentro de mim não existe ninguém.

 

Nem longe, nem perto ou à minha beira;

Nem nos meus sonhos, no meu pensamento;

A vida é parte d’outra parte inteira,

E eu, parte à parte, um breve momento…

 

A Mulher:

 

É dia alto e nada aqui se explica:

Não haver ninguém, haver quem não chega!

Anos sentada sobre esta barrica,

Só tédio, tédio, que mais me aconchega?

 

Nem sonho feliz ou bom pensamento;

Nem Lord ou herói de magra algibeira;

É tanto o que sinto! Quase rebento!

Mas sinto-o sempre da mesma maneira…

 

II

 

O Homem:

 

Já vai longa a espera e ainda estou comigo;

Não existe a Paz.

Mesmo assim há estrada e por isso sigo –

Já tanto me faz.

 

Talvez ‘inda encontre uma outra alma

Que se ajuste à minha;

E entretanto o Tempo envelhece e palma

A vida qu’eu tinha.

 

A Mulher:

 

Estou a sós comigo, só pó e vento  

A Paz não existe!

Porque sou Humana não me contento

E sou sempre triste…

 

Mas irei em frente p’la estrada fora

Até ao Abismo.

Porque há outro Tempo p’ra lá da Hora

E é nesse que cismo.

 

O Homem:

 

Porque há outro Tempo além do que vivo

Viverei Além;

Nâo me importa a dor com que (hélas!) convivo

Não m’ela contém.

 

Nessa Terra vasta, val’ sem limites,

Cavarei um prado.

E saciarei esses apetites

Que roubou o Fado!

 

A Mulher:

 

Oh Deus tu nos deste o mais negro fardo:

Ser mulher e mãe!

Mas tenho uma força, e cá dentro a guardo:

Viverei Além!

 

Onde a terra é seca e a luz se apaga

Porei uma flor.

E há-de ter forma essa coisa vaga

Que se chama “Amor”…

Que Farei Com Estes Gumes?:
Golpe por Miguel João Ferreira às 16:02
Hipertensões | Estocadas | Os Golpes Que Eu Amo

O Leão Sem Juba

Sopa de Facas, Chafurdar na Lama

 

Agosto 2012

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Gumoctopus

Últimos Golpes

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O Gume E O Tempo

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